Calendários oficiais à parte: a bancada do PSD declarou aberta a campanha eleitoral. O líder do grupo parlamentar social-democrata, Fernando Negrão, arrancou as jornadas parlamentares — que se realizam até sexta-feira no Porto Palácio, na mesma sala onde o partido renovou a confiança a Rui Rio há menos de um mês e meio — a disparar como quem tem eleições à porta e cheio de soundbites para Costa ver. Negrão fez rasgados elogios a Paulo Rangel (“o que de melhor Portugal tem para dar à Europa“), atacou Pedro Marques — a quem chamou de “candidato pré-fabricado” e “oportunista” — e lançou várias farpas ao “otimismo balofo” de António Costa. Mas, para além do otimismo, Negrão acusa o governo de Costa de alimentar o clientelismo: o Estado tornou-se num centro de emprego para “militantes, amigos e afilhados.”

Paulo Rangel chegará às jornadas ao jantar e o partido aponta baterias a essas eleições, mas Negrão começou já a dar-lhe uma ajuda no ataque cerrado ao PS e ao seu cabeça de lista. Negrão diz que o PS fala “muito”, mas faz “efetivamente pouco” e que prova disso é que prometeu “falar grosso à Europa”, mas aceitou um quadro comunitário de apoio em que Portugal pode perder 7%. Ao contrário do PS, lembra o líder parlamentar, o PSD não tem “telhados de vidro na defesa do euro”, já que nunca foi parceiro de partidos que são “intrinsecamente anti-Europa e aferradamente contra o euro”. Nem Pedro Nuno Santos escapou ao fogo de Negrão: “Nunca tivemos um ministro — ou secretário de Estado promovido a ministro — que se ‘marimbasse’ para a dívida.

Depois veio o ataque cerrado a Pedro Marques, por oposição ao candidato do PSD. “Paulo Rangel não é um candidato pré-fabricado, não é uma criação artificial saída a martelo dos moldes da propaganda do governo de António Costa e que até já tem apalavrado um putativo lugar como comissário europeu”, atirou Negrão. E logo acrescentou: “Rangel também não é um experimentalista e muito menos um oportunista que anda a afinar discursos àpressa para ver se colam com as aspirações de certas franjas do eleitorado.” Sobre a meta, o líder da bancada também não tem dúvidas que “Paulo Rangel e o PSD vão ganhar as eleições”.

Depois vieram as críticas ao tal país que “está muito aquém do Portugal que os portugueses merecem” e onde um ministro Centeno “não encontrou o elixir do crescimento eterno no final do arco-íris cor-de-rosa”. Neste país, garante Negrão, “os portugueses estão carentes e necessitados de serem bem tratados pelo governo que supostamente os representa”.

Apesar desta realidade, Fernando Negrão reconhece que António Costa é “muitíssimo hábil a atirar areia para os olhos dos portugueses”, mas deixa a pergunta: “Até quando é que o governo acha que os portugueses vão aguentar?” No fundo, adverte o líder da bancada, a opção do governo de António Costa não foi pelos portugueses, “a opção foi de ser o melhor aluno da turma europeia e, por isso, recusou-se a negociar com Bruxelas, quando o podia e devia ter feito“. Ou seja: para o PSD, o Governo foi longe demais nas metas do défice e devia ter negociado com Bruxelas uma maior flexibilidade para investir, por exemplo, na saúde, nas infraestruturas e nos transportes.

Como se não bastasse de rótulos, Negrão ainda tinha mais um para o executivo socialista, dizendo que este é o “Governo dos pequeninos, dos objetivos pequeninos, das responsabilidades pequeninas, dos erros pequeninos, das medidas pequeninas“. Para o social-democrata “este Governo dos Pequeninos só é grande nos anúncios, nas manchetes, na propaganda, megalómano nas manobras e nas falácias”. Nesta história contada por Negrão, o deputado do PSD diz que “no livro socialista fica escrita a história de mais uma oportunidade perdida”.

Fernando Negrão, ou não fosse este já um discurso eleitoral, tocou depois numa das áreas mais sensíveis para o PS, principalmente depois do caso Sócrates: a ética. O líder da bancada do PSD diz que Costa é “sobretudo censurável por uma questão de ética, ao fechar cada vez mais o círculo das escolhas governamentais a critérios de consaguinidade ou de relações familiares — critérios que nenhum parentesco devia ter comum regime democrático consolidado”.

Numa frase que é cara ao PS por causa do alegado abandono do socialismo por parte de Mário Soares, Negrão disse ainda que a “ética republicana é algo que este PS também meteu na gaveta”. O líder parlamentar, numa alusão aos tempos de Sócrates, diz que o PS “vai usando descaradamente os organismos do Estado como plataforma de emprego e de colocação política para os seus militantes amigos e afilhados. Um autêntico assalto ao poder, que é um remake de outros governos socialistas de má memória.”

Antes de Negrão, o presidente da distrital do Porto, Alberto Machado, deixou farpas ao Partido Socialista e ao presidente da câmara municipal do Porto. “Ao contrário do PS-Porto, que se zangou com  António Costa porque o seu líder [Manuel Pizarro] foi chutado para um lugar não elegível, nem como Rui Moreira, que se diz independente mas que anda distribuir amigos e familiares por todas as listas que consegue“, atirou Alberto Machado. Esta última crítica era também dirigida ao partido de Santana Lopes a Aliança, que apresenta esta sexta-feira no Porto — à mesma hora do discurso de Rui Rio nas jornadas parlamentares — a composição da lista às Europeias, com o detalhe de que a irmã de Rui Moreira, Maria João Moreira, será a número dois da lista.

Durante a manhã, Fernando Negrão e outros dirigentes da bancada visitaram a ala pediátrica do S.João, o IPO e o estabelecimento prisional de Santa Cruz do Bispo, com várias críticas ao governo.