Newton. Como dois portugueses criaram um chatbot que vale 5 milhões

Hélder e Rui têm formações diferentes, mas o gosto pela tecnologia em comum. Nos EUA, criaram um bot que ajuda empresas a recrutar. Agora, chegam a Portugal e ao Japão. Newton vale 5,1 milhões.

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Um candidato faz upload do seu currículo e recebe recomendações de ofertas de trabalho. Tudo isto acontece no chat do Facebook, onde um chatbot vai realizar várias perguntas ao candidato

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Um candidato faz upload do seu currículo e recebe recomendações de ofertas de trabalho. Tudo isto acontece no chat do Facebook, onde um chatbot vai realizar várias perguntas ao candidato

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A conversa desenrola-se através do chat do Messenger, no Facebook, e tem um objetivo: conseguir chegar a uma lista reduzida com os melhores “matchs” (encontros) no recrutamento de candidatos para deteminada vaga numa empresa. Só que, em vez de este processo inicial ser feito por uma pessoa e demorar dias na procura e seleção, é realizado através de inteligência artificial, chega a demorar menos de 20 minutos e é livre de qualquer tipo de bias [pensamento enviesado]. É esta a ideia do Newton, uma startup fundada em 2018 por dois portuenses, acelerada nos Estados Unidos, e que está prestes a chegar a Portugal e ao Japão. Não para substituir os humanos, mas para agilizar a fase do recrutamento das empresas.

Ao utilizar um sistema com inteligência artificial que cruza o deep learning e o processamento de linguagem natural, o Newton pretende facilitar a vida das empresas no processo de recrutamento, mas também ajudar os próprios candidatos a conseguirem chegar às ofertas de emprego mais apropriadas para o seu perfil e experiência. Para chegar ao lugar onde a startup está hoje é preciso recuar dois anos para um projeto que não começou a ser pensado exatamente desta forma.

“Começámos a Newton Labs em 2016, depois de nos conhecermos numa hackathon [maratona de programação], no Porto. Na altura, desenvolvemos uma rede alumni para aproximar os antigos alunos das universidades e recrutadores, mas depois começámos a perceber que teríamos muita dificuldade em monitorizar o produto”, recorda ao Observador Hélder Silva, um dos fundadores da startup, juntamente com Rui Costa.

Apesar de a ideia inicial não ter resultado, os dois fundadores perceberam que existia uma lacuna no mercado de trabalho que poderia ser explorada: o processo inicial de recrutamento entre empresas e candidatos demorava demasiado tempo.

Hélder Silva fundou a Newton com o amigo Rui Costa, que conheceu numa maratona de programação

A partir daí, Hélder Silva, formado em Neurociências, e Rui Costa, em Engenharia Informática, juntaram o gosto pela tecnologia e começaram a pensar na melhor forma de resolver o problema que tinham em mãos. Foi aí que chegaram à inteligência artificial. “Numa fase inicial, o problema era de linguagem natural, portanto, tínhamos de perceber muito bem o que é que estava escrito na oferta de emprego, o que estava escrito no currículo e começamos a desenvolver o Newton”, referiu. Em abril de 2018, nascia a startup que no final do ano já valia 5,1 milhões de dólares (cerca de 4,50 milhões de euros).

Começámos por construir um monstro a nível de código e a nível de manutenção da plataforma. Depois, fomos percebendo que não fazia sentido, tínhamos coisas que nunca mais acabavam. E decidimos: ‘Vamos começar do início. Temos uma folha de Excel e temos um telefone. Vamos fazer isto como se fossemos um recruiter tradicional’. Passadas duas semanas decidimos pegar naquilo que já tínhamos feito e automatizar para a realidade em questão”, explicou Hélder Silva ao Observador.

Mas como funciona tudo isto? O candidato começa por fazer upload do seu currículo no Newton e vai recebendo recomendações de ofertas de trabalho que correspondem ao seu perfil, podendo depois mostrar interesse em determinada oferta. Tudo isto se passa no chat do Facebook, no qual um chatbot faz várias perguntas ao candidato e tem uma call de cinco minutos com ele, para garantir que o candidato tem tudo o que a empresa procura.

A partir daqui, o sistema do Newton elabora uma espécie de lista final mais reduzida e entrega à empresa em questão, que fica responsável por fazer o resto do recrutamento. “Há também casos em que os candidatos já estão no mercado de trabalho e nós entramos em contacto diretamente e, se eles tiverem interesse, mandamos o currículo deles e metemos na base de dados”, explicou o cofundador da startup. Do lado das empresas, basta enviar para o Newton a oferta de trabalho.

Há há sempre um toque humano na fase final do processo. No início, aquilo que usamos são chatbots porque é o que nos permite escalar, porque senão era impossível. Sem isso seríamos uma empresa tradicional de recrutamento. Conseguimos contactar cerca de 600 candidatos em menos de uma hora, por exemplo. Através de um humano não conseguiríamos fazer. Usamos a tecnologia para perceber se o currículo faz sentido, se é um bom match para esta oferta, e depois para ver se o candidato tem interesse’”, acrescentou Hélder Silva.

É através do processamento de linguagem natural que se torna possível ler a informação presente nas ofertas de trabalho – posição, localização, salário, competências e nível de senioridade –, para de seguida fazer correr o algoritmo e encontrar possíveis candidatos na base de dados da startup, baseado também no seu currículo. Caso não sejam encontrados matchs na base de dados da startup — que está em constante desenvolvimento –, o Newton pode recorrer a outras plataformas como o Linkedin ou o Indeed. “Aquilo que aproveitamos é um bocadinho a eficiência de todos os outros motores de pesquisa que existem no mercado e tornamo-los mais eficientes”, explica Hélder, acrescentando que depois recomendam às empresas “os candidatos que já são ready to go, ou seja, que estão disponíveis e têm interesse naquela oferta de trabalho e naquela empresa”.

O início em São Francisco

Depois de um investimento inicial de cerca de 50 mil dólares que veio maioritariamente de capitais próprios, o Newton já conseguiu um investimento de mais de 400 mil dólares através entidades como a Universidade de Oxford ou a Will Group, uma das maiores empresas de recrutamento no Japão. Antes desse investimento, a verdadeira aventura começou em São Francisco, nos Estados Unidos.

Enquanto a ideia estava a ser trabalhada entre Portugal e Reino Unido, onde os dois fundadores estavam numa aceleradora da Universidade de Oxford, Hélder candidatou o Newton a um programa da aceleradora Plug and Play. A partir daí, tudo se passou a correr: uma semana depois recebeu um telefonema do seu atual mentor, que convidou os dois a fazer um pitch sobre a sua ideia. “Eu e o Rui mandámo-nos para São Francisco, fizemos o pitch e passado três minutos ele disse ‘Ok, eu invisto, mas vocês vêm para cá na próxima semana’”.

Hélder e Rui fizeram as malas e partiram para território norte-americano. Sem a família, sem os amigos, “mas extremamente focados”. E foi nos Estados Unidos que também tiveram a oportunidade de fazer os primeiros testes piloto do Newton. Começaram a testar o sistema com startups tecnológicas e a seleção de estagiários até chegarem a scaleups de incubadoras e a grandes empresas “que precisam de crescer rapidamente e precisam de recrutar perfis mais tecnológicos, de marketing ou business development”. Foi o caso da Nike Innovation, que utilizou os serviços do Newton para fazer o recrutamento de uma posição mais técnica.

Do lado da empresa, o Newton também permite agendar entrevistas para o recrutamento de candidatos

Nos Estados Unidos, os dois fundadores encontraram um mercado muito volátil, tendo em conta que os profissionais “estão sempre a trocar de carreira”. “Se calhar existe um bocado mais de ambição e também existem mais oportunidades reais para que as pessoas possam efetivamente fazer isso”, acrescentou Hélder ao Observador. A atividade em São Francisco já trouxe mais de 80 mil candidatos à plataforma.

Além do mercado ser diferente, também a forma de pensar não era a que tinham visto na Europa. “O mindset americano é muito focado no cliente, no tentar aprender com ele o mais rápido possível e construir a partir disso”, referiu o cofundador, acrescentando que também ele trazia a ideia de que o projeto iria crescer por si só.

“Mas não funciona assim. O que nos dizem cá é precisamente o contrário. Foca-te numa coisa, tenta resolver um problema muito pequeno, entrega a tua solução e a partir daí constróis em cima disso”, referiu Hélder.

Neste momento, a utilização da plataforma é totalmente grátis para os candidatos, que mesmo não tendo sido selecionados são informados disso e têm a opção de procurar outras ofertas através do Newton. No caso das empresas, a startup portuguesa cobra uma taxa por recrutamento, ou seja, se o candidato for recrutado, a empresa paga um determinado valor. “Neste momento estamos em 5% de um salário anual, que até é um bocadinho inferior à média para o recrutamento”.

Próximas paragens: Japão e Portugal

Depois dos Estados Unidos, o Newton vai chegar também ao Japão, onde já tem um cliente, e a Portugal, onde já está incubado na Startup Lisboa e está em fase de teste piloto. Ao todo, serão seis pessoas na equipa: os dois fundadores, dois business developers nos Estados Unidos, um no Japão e mais um em Portugal. A plataforma vai funcionar na língua de cada país, ainda que numa fase inicial possa ser apenas em inglês, e com esta expansão para o continente europeu e asiático, o Newton estima um retorno de 10 milhões de euros para este ano.

Mas, porquê o Japão? “Já temos um investidor lá, que é uma empresa de recursos humanos que opera em toda a Ásia, cotada em bolsa. Foram os primeiros interessados na nossa tecnologia e vão ser também o nosso primeiro cliente. Portanto, fazia todo o sentido”, responde Hélder. Também lá o mercado é “muito apetecível e dinâmico” para a solução que o Newton apresenta.

Já a escolha de Portugal, além de ser o país de origem, teve por base uma conjugação de vários fatores e também a uma visão diferente do negócio. “Temos recursos incrivelmente bons, mas mais baratos atendendo à realidade dos Estados Unidos. Além disso, o interesse no recrutamento é muito mais competitivo do que nos outros países”, explicou o cofundador, acrescentando que “toda a realidade portuguesa vai continuar a aumentar a nível de procura, porque há várias empresas tecnológicas que estão a colocar os seus centros de desenvolvimento em Portugal”.

Em relação ao negócio, queremos ter uma estrutura em Portugal, mas queremos que ela seja paga por si só. Nós garantidamente não vamos ficar milionários em Portugal nem nada que se pareça, mas se conseguirmos pagar a estrutura seria excelente. Não terá que ser sempre assim, mas esse é o mindset inicial”, referiu o fundador do Newton.

Apesar de ainda estarem no início, Hélder e Rui consideram que a reação ao projeto tem sido positiva. “Com a nossa tecnologia, não olhamos à étnica, à cor ou a outro aspeto qualquer. Somos livres de bias”, referiu um dos fundadores, acrescentando ainda que aquilo que diferencia o projeto é também a rapidez do sistema. “É isso que as empresas querem: ter candidatos com qualidade para entrevistar, para não andarem ali a perder tempo. Porque o grande problema da maior parte das empresas é o tempo que demoram na fase inicial”.

E se no início as pessoas, incluindo a família, pensavam que os dois jovens “eram um bocadinho malucos”, agora já levam a ideia mais a sério. “Eu podia estar a trabalhar num hospital em Portugal, mas quis ir para São Francisco com o Newton”.

*Tive uma ideia! é uma rubrica do Observador destinada a novos negócios com ADN português.

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