Televisão

Das exigências de virgindade à estimulação de galinhas. As cenas mais surreais dos programas que inspiraram a SIC e a TVI

Em Portugal as sogras não admitem tatuagens e pedem boas cozinheiras. No estrangeiro exigiam ascendência sérvia e virgindade. Até os concorrentes são parecidos nos reality shows importados.

O agricultor, Matt Neustadt, com as pretendentes na estreia da única temporada norte-americana de Who Wants to Marry a Farmer?

Frederick M. Brown/Getty Images

Se a mãe de Iuri, Ana, quer uma mulher que saiba cozinhar (já que o filho é “rapaz de muito alimento”), a mãe de Vlad, Milena, só aceita noras sérvias. Enquanto Isabel proíbe tatuagens nas pretendentes ao filho (André), Karen recusa “mulheres fáceis” para Matt, e pergunta a cada uma quantas vezes já fez sexo. Pode ser difícil distinguir entre as sogras australianas de “Please Marry My Son” e do novo reality show da TVI, “Quem Quer Casar Com o Meu Filho?”, já que apesar das especificidades de cada um dos destinos, partilham inúmeras afinidades.

“Quem Quer Casar Com o Meu Filho?” concorreu no domingo contra a aposta casamenteira da SIC: “Quem Quer Namorar Com o Agricultor?”. Os dois foram considerados “degradantes para as mulheres“, “filmes de terror“, machistas e sexistas (não demoraram a chegar as queixas à Entidade Reguladora da Comunicação Social). Contas feitas, os dois formatos conquistaram mais de um milhão de telespetadores.

O reality show da SIC teve uma audiência de um milhão e 482 mil pessoas. O concorrente direto ficou por um milhão e 100 mil espetadores. Nem a popularidade nem as polémicas são surpreendentes se olharmos para a inspiração internacional dos novos programas de dating portugueses: bons indicadores comerciais e péssima receção crítica.

“Quem Quer Casar Com o Meu Filho?” deu polémica em França até ser cancelado

Em França, as atenções viraram-se para “Qui veut épouser mon fils?” quando, um dos participantes, Giuseppe, explicou que se opunha à igualdade de género. As audiências subiram e a mãe, Marie-France, tornou-se tão popular que chegou a animadora no canal de televisão AB1.

Ficou célebre o primeiro encontro, em 2014, entre a mãe de Steven e uma das pretendentes, Julian. Segundos após se conhecerem a mãe insistia na promessa de que Julian e Steven ficariam a viver na casa dela: “Eu e o meu filho somos muito próximos. Muito. Muito. Muito próximos. Ele é o meu pequenote e eu quero-o perto“. Minutos depois daria o mote para o desgosto português por tatuagens — a mãe de Steven recusou uma jovem assim que lhe viu um braço tatuado (tão rápido que o programa nem chegou a anunciar o o nome da concorrente).

“Qui veut épouser mon fils?” foi alvo de sátira constante. O programa foi cancelado, mas só na quarta temporada, em 2015, quando o Le Point o considerava “humilhante e provocativo”, o Libération uma “obra audiovisual ultrajante”, e o Rue89 um “produto abjeto“. A versão francesa foi criticada por infantilizar os homens mais do que qualquer outra, uma vez que os filhos chegavam a dormir várias vezes com as mães.

Em Portugal, alguns concorrentes também já estão a dar que falar. A revista Sábado adianta que Sónia, de 33 anos e natural de Barcelos, foi atriz no site pornográfico PornHub, onde assumia o nome de Sónia Kel. E logo no primeiro programa houve uma desistência – uma concorrente, Mafalda Rosa, não apareceu para o encontro com Tomás Alves, um dos participantes.

Em cada episódio, as mães têm sempre a última palavra relativamente à pretendente expulsa. No final, são os rapazes que escolhem se voltam para casa ou se vão morar com a alma gémea que encontraram no programa. Em Portugal, antes de os concorrentes tomarem uma decisão, no último episódio, vão viajar com as mães e com as duas raparigas finalistas.

Mães a casar os filhos na televisão é uma ideia holandesa

O ”Quem Quer Casar Com o Meu Filho?” esteve em 18 países ao todo: da Austrália, à Alemanha, da Argentina à Ucrânia, da Bélgica ao Chile, sem esquecer a vizinha Espanha, onde se tornou tão popular que saltou das segundas-feiras para o horário de prime-time dos domingos. A estreia absoluta foi na Holanda, em 2006.

A TVI seguiu um formato semelhante: cinco solteiros que ainda vivem em casa dos pais têm a oportunidade de participar no programa para encontrar a mulher ideal com uma ajuda especial – as mães vão aconselhar os filhos e tomar algumas decisões importantes.

Na noite de estreia no canal Cuatro, a 30 de janeiro de 2012, o programa “¿Quién quiere casarse con mi hijo?” teve quase 1,9 milhões de espetadores e foi um dos temas mais comentados na Internet: logo nos primeiros dez minutos de programa, já estava nas tendências do Twitter, onde também houve alguma polémica, segundo o La Vanguardia.

Os concurso espanhol contou com a polémica figura de Jaime, que se vangloriava regularmente de conquistas com o sexo feminino: “Sou um modelo internacional, portanto já fui com o passaporte a todo o mundo, e aproveitei para espalhar o meu ADN”. A mãe, Mari Carmen, ficou conhecida por levar leite com chocolate ao filho enquanto este dormia com uma das pretendentes.

As pretendentes também se destacavam em Espanha, quer por frases sem lógica, quer pelas formas como tentavam conquistar os potenciais maridos. Logo nos primeiros episódios Victória imitou uma catatua com tamanha precisão que foi de imediato beijada por Ronco (atitude muito reprovada pela mãe por preferir Sara desde que lhe vira “as ancas Bascas” numa prova de vestidos de noiva horas antes). Na quarta temporada, Betty convenceu-se a meio de uma entrevista de que o estúdio estava assombrado, afinal ouvira só o eco da própria voz.

A ideia para “Quem Quer Namorar com o Agricultor?” tem 35 anos

Em 1983, todas as semanas dois desconhecidos procuravam o amor em “Love Connection”, um dos primeiros reality show de encontros às cegas transmitido em simultâneo por várias rádios e canais de televisão norte-americanos. Ao longo de 11 temporadas e 2120 episódios tornou-se no terceiro concurso há mais tempo na televisão e um dos mais vistos episódios após episódio.

Ao mesmo tempo, com boas audiências, estreava na televisão pública suíça “Bauer sucht Bäuerin” (Agricultor Procura Camponesa). Teria uma única temporada na SF DRS, com direito a 6 casamentos e reclamações das associações de agricultores pelo reforço de estereótipos e pela excessiva exposição pública dos participantes. Ainda era novidade casar na televisão, e a ideia de casar agricultores na televisão cairia em desuso durante as décadas seguintes.

Não foi a versão da SIC que deu novo fôlego à experiência. Em 2001 os ingleses da ITV 1 relançaram o formato sem referências ao original: nascia “Farmer Wants a Wife” (Agricultor Procura Mulher). Desta vez a ideia durou oito temporadas (acabaria em 2009, já no Chanel 5) e foi um sucesso de audiências. Nas promoções do programa o canal prometia que o agricultor ia deixar a enxada (trocadilho com hoe — uma ferramenta — e ho — uma prostituta) para casar.

O formato estava fechado: uma série de mulheres competem para conquistar um (ou vários) agricultores do sexo masculino, através de desafios, encontros e conversas ficcionadas em maior ou menor grau. No final há um vencedor, um noivado e, idealmente, um casamento transmitido na televisão.

Mas o grande mérito de “Farmer Wants a Wife” estava além fronteiras: o formato foi licenciado diretamente para 31 países: Bélgica, Noruega e Países Baixos (2004), Áustria, Alemanha e França (2005), Suécia, Dinamarca e Finlândia (2006), Estónia e Austrália (2007), África do Sul, Suíça e Estados Unidos da América (2008), Croácia, Grécia, Espanha e Roménia (2009), Eslováquia, República Checa e Sérvia (2010), Bulgária, Canadá, Eslovénia, Lituânia e Ucrânia (2011), Hungria (2012), Polónia (2014), Itália (2015) e, finalmente, Portugal (2019).

Depois há os programas derivados. Se os suíços se esqueceram de que já tinham tido o mesmo programa 36 anos antes, os Britânicos lembraram-se dez anos depois. A televisão pública do Reino Unido lançou em 2018, na BBC 2, uma versão renovada do programa, “Love in the Countryside” (Amor no Campo).

A versão da BBC deu polémica quando as vizinhas do agricultor Ed explicaram à pretendente Rebecca a necessidade de dar mais apoio ao futuro marido: “Quando chegas a casa ao fim do dia tens de alimentar dez homens duas vezes, e tens de te colocar em segundo lugar para ser uma boa mulher”.

“O teu marido é a tua vida, é tudo o que tens para fazer”, acrescentou outra mulher. Uma tia de Ed concluiu: “Tens de apoiar o teu parceiro nas alturas difíceis, e às vezes isso implica fazer-lhe sandes“. Rebecca recusou, foi gozada pelos presentes e acabou eliminada do programa.

O programa variou em título, estilo, número de apresentadores, polémica e sucesso. Na Bélgica “Boer zoekt Vrouw” foi líder de audiências. Na Noruega, “Jakten på kjærligheten” recebeu o maior índice de aprovação do público (60% gostaram da primeira temporada do programa). Na Austrália, o formato chegou às nove temporadas. Nos EUA, nem passou da primeira — o Pittsburg Post-Gazzete resumiu o consenso da crítica sobre a versão norte-americana: “As televisões já mostraram muitos programas ridículos nos EUA, mas “Farmer Wants a Wife” é uma aula de mestre inanidade“.

A curta versão americana foi a que teve uma maior componente de ficção, com desafios que incluíam encontrar ovos, ganhar um jogo de Bingo, verificar a gravidez de uma vaca (inserindo o braço no reto do animal) ou misturar o cocktail perfeito para o marido. Mas a versão que mais problemas deu foi a alemã: A PETA fez queixa do programa por um dos concorrentes — um agricultor nudista de 71 anos — ter “estimulado sexualmente uma galinha”. O episódio foi visto por 8,6 milhões de pessoas.

Se o formato da SIC não é novo, as críticas à SIC também já se viram. O presidente da Associação Alemã de Agricultores, Gerd Sonnleitner, considerou o programa “um estereótipo estúpido e falso” que apresentava os agricultores como “tolos solitários que não se sabem comportar”. Em França — cuja temporada de 2019 de “L’amour est dans le pré” (Amor no Campo) chegou a 6 milhões de pessoas — o Liberátion diz que os agricultores eram tratados como “aberrações expostas para a diversão do espetador”.

Ter várias mulheres a competir pela atenção de um homem é um formato habitual e criticado noutros reality shows, como o “The Bachelor” (lançado em 2002 nos EUA). Na Polónia, “Rolnik szuka żony” foi considerado pelos críticos uma promoção do “tratamento das mulheres como uma força de trabalho para empregos que o agricultor despreza” e um “caldeirão de estereótipos”.

Portugal, 2019 Dois dias depois de assinalarmos com estrondo o Dia Internacional das Mulheres e a importância da luta…

Posted by Capazes on Sunday, March 10, 2019

Algumas das versões de “Quem Quer Namorar com o Agricultor” fizeram por combater as acusações de sexismo. O sueco “Bonde söker fru” passou a incluir mulheres agricultoras logo na segunda temporada (2007). Na terceira, em 2008, entrou um agricultor homossexual. A versão finlandesa fez o mesmo em 2009.

Em Espanha, “Granjero busca esposa” foi cancelado em 2018. O programa, apresentado por Carlos Lozano, estava a meio da produção da sétima temporada quando o canal Cuatro considerou o formato “esgotado” e “sem interesse”. O programa tinha as audiências em queda há vários anos. Meses depois, estreou em Portugal “Quem Quer Namorar com o Agricultor?”.

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