Quem olha para o quadro com um homem careca de mãos nos ouvidos e boca aberta reconhece automaticamente a obra O Grito, de Edvard Munch. A pintura expressionista é uma das mais famosas do mundo. Mas quem acha que a imagem representa um homem que está, de facto, a gritar está enganado. Na verdade, tal como explica a CNN, Munch recorda uma memória pessoal de um pôr-do-sol magnífico em Oslo, que deu ao céu tons azuis e alaranjados.

É claro que não podemos saber com certeza o que é que um artista que morreu há mais de 70 anos pensou no momento da criação. Mas esta é a explicação de Giulia Bartrum, curadora de uma exposição dedicada a Munch que se vai realizar em breve no Museu Britânico, em Londres. “O céu vermelho-sangue gerou nele um efeito de muita ansiedade”, explicou Bartrum. “Este trabalho artístico é o reflexo da forma de estar de Munch”. Uma das provas desta interpretação é o facto de o artista ter escrito na versão a preto e branco “Eu senti o fantástico grito em toda a natureza”. Ou seja, a figura e mãos nos ouvidos está praticamente em êxtase, a tentar bloquear o grito da natureza. No fundo, o quadro é uma metáfora para uma emoção muito intensa e muito pessoal.

O ondular da figura é a representação visual do sentimento de Munch e as riscas pretas e brancas são a vibração. “O impacto emotivo é óbvio”, disse a curadora, que refere também que é muito simples interpretar o quadro. Bartum disse ainda que “podemos associar isso à nossa própria forma de estar”, porque “todos temos estes momentos de desespero”.

O quadro também tem sido usado muitas vezes para campanhas políticas ou movimentos, como por exemplo a Campanha para o Desarmamento Nuclear. Mas Munch estava a expressar uma emoção pessoal e não a passar uma mensagem pública de catarse. Segundo Bartum, o pintor era um homem recatado e, hoje em dia, como é mais fácil reproduzir e espalhar imagens, também é mais fácil certos movimentos apropriarem-se delas.

A curadora faz até um aviso: não se deve associar O Grito ao Brexit, já que a exposição vai ser feita no Reino Unido, que se prepara para abandonar a União Europeia. “Nós não planeámos ter a exposição neste momento”, disse Bartum, referindo-se a este momento como “puramente fortuito”.

A exposição Munch: amor e angústia está a ser planeada há 5 anos e vai decorrer de 11 de Abril a 21 de Julho. Nasce do esforço entre o Museu Britânico e o Museu Munch, em Oslo, no país natal do artista. Vão estar expostos quase 50 quadros da coleção, sendo a maior exibição de trabalhos de Munch em 45 anos.