O programador João Pina, também conhecido pelo nome de guerra “Tomahock”, está a viver esta crise dos combustíveis de forma diferente. Esta terça-feira de manhã, quando começavam a surgir as primeiras notícias que levaram à corrida às bombas de combustível, os “voluntários digitais em situações de emergência” do Vost Portugal entraram em ação. Estes auxiliares digitais que “trabalham para a invisibilidade e sempre com transparência”, como explica o site do projeto, criaram um documento partilhado para que todos pudessem partilhar informação sobre que postos de abastecimento ainda têm gasolina e gasóleo. “Assim que criaram o formulário e o vi, decidi pôr tudo num site”, conta João Pina ao Observador. No final da manhã, o janaodaparaabastecer.vost.pt/ estava criado e estes dias de João ficaram mais preenchidos, além do trabalho que já tem como diretor de tecnologia na startup Fluxio.

Digitalmente, João Pina está habituado a cenários de emergência em que é preciso um teclar especial para ajudar o Estado. Em 2015, “Tomahock” criou o fogos.pt “para ajudar amigos bombeiros”. Nesta plataforma, que se mantém a funcionar, é possível ver os incêndios ativos no país. Além disso, criou também a plataforma suprimidos.pt, na qual é possível ver os comboios suprimidos em Portugal. Criar o “já não dá para abastecer” foi apenas mais um passo nesta programação informática voluntária. Para fazer o site, demorou cerca de meia hora, explica. O problema é a manutenção que tem feito regularmente desde terça-feira quando a página foi publicada.

“Deitei-me mais tarde do que é normal para ir ver se havia problemas nos servidores”, diz Tomahock. Esta quarta-feira, foi apenas à 1h30 da manhã que foi dormir e, às 7h30, já estava a pé a ver como estava o site e garantir que continuava no ar. João Pina refere que sem a ajuda dos cerca de 30 voluntários do Vost Portugal, “que estiveram até às 5 da manhã a limpar dados para evitar os duplicados e asneiras”, não seria possível validar a informação que está na plataforma. Há “imensa gente” que utiliza o formulário para “gozar” e, logo que o “já não dá para abastecer” foi para o ar houve quem criasse um bot — algoritmo que automaticamente faz ações em sites — para deturpar a informação.

“[No Twitter, o programador desabafa de quem utiliza o formulário para deturpar a informação no site]”

Na altura de maior procura, a plataforma de informação teve cerca de 10 mil utilizadores ao mesmo tempo. Ao todo, cerca de 740 mil utilizadores únicos já visitaram “já não dá para abastecer”, num total de cerca de dois milhões de visitas até à tarde desta quarta-feira.

Tudo isto acontece enquanto João Pina está a trabalhar. Como tinha o depósito quase vazio, na terça-feira de manhã ainda foi a tempo de abastecer. Foi para o trabalho, como sempre, de comboio e, depois de chegar, foi “espreitando o que se passa”. “Felizmente não há fogos”, desabafa. Nessas alturas, manter no ar o fogos.pt consegue também tirar bastante tempo ao programador, que agora ajuda a manter informados os condutores à procura de combustível.