Parecia ser apenas um evento de promoção, mas conseguiu ir além disso. O encontro, organizado pela agência Ruela Music na terça-feira à tarde em Lisboa, serviu de antevisão aos concertos que tem agendados para o Coliseu do Porto, a 24 de maio, e Coliseu de Lisboa, a 25, mas também para adensar a dimensão criativa da fadista, em diálogo com as artes visuais. O encontro deu-se na Galeria Cristina Guerra, uma das mais conhecidas galerias portuguesas de arte contemporânea, e entre os convidados contaram-se a mãe de Carminho, Teresa Siqueria, o fadista Camané e o presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, além da própria galerista Cristina Guerra, que é familiar de Carminho.

As cerca de duas dezenas de pessoas entraram numa sala obscura da galeria pouco depois da seis da tarde e viram Carminho numa “chaise-longue”, imóvel e em pose, enquanto soava uma colagem de excertos de conversas, fado, música pop, sons ambiente e outros gostos pessoais da fadista, tendo esta começado por cantar “A Tecedeira”, de sua autoria – exatamente “a capella”, como na abertura do mais recente disco, “Maria”, que servirá de base aos dois concertos anunciados.

Acenderam-se então luzes vermelhas e Carminho passou para uma cadeira ao centro da sala – cadeira em que adormeceu muitas vezes quando era criança e onde agora se encontrava um xaile que a fadista Beatriz da Conceição um dia ofereceu à sua mãe. Contou histórias íntimas, falou da família, da infância, de como descobriu o fado. No fundo, o universo criativo que a levou a “Maria”, registo de estúdio publicado em novembro.

“Foi uma performance e instalação que reuniu as minhas inspirações, porque o disco viveu de uma procura muito grande das raízes. Foi um processo de regressão que se inicia lá atrás, quando ouvia e cantava fado na [casa de fado] Mesa de Frades, de pijama, ao colo do meu pai, enquanto a minha cantava no Algarve”, resumiu mais tarde ao Observador. “Abordei três dimensões da mulher nesta performance: a mulher que está na origem da personalidade portuguesa, e aí digo só em Portugal é que poderia ter nascido o fado, porque o país reúne condições especiais para isso, como se de um microclima se tratasse, mas também a mulher que convive com o espaço da cidade, alheia àquilo que o fado lhe faz, e mais tarde a mulher interior, o seu pensamento, aquilo que ela quer dizer, e aí serve-se do instrumento fado para comunicar.”

Estas três mulheres, que são Carminho e o seu alter-ego Maria, foram acompanhadas da exibição de fotografias dos artistas visuais Inês Gonçalves, José Pedro Cortes e Julião Sarmento, com a fadista como personagem.

A performance propriamente dita, de acordo com a folha de sala, teve texto e encenação de Carminho e de João Botelho. Durou cerca de meia hora e incluiu interpretações de “António Baptista”, de José Luís Gordo e Fontes Rocha, e “O Menino e a Cidade”, de Joana Espadinha, um dos originais do novo álbum. O acompanhamento foi feito por Filipe Monteiro (pedal steel guitar), Luís Guerreiro (guitarra portuguesa), Flávio Cardoso (viola) e Tiago Maia (baixo).

Não é comum que fadistas façam uma aproximação tão evidente às artes visuais contemporâneas, mas para Carminho esse passo é natural porque “o fado é arte contemporânea”, afirmou.

“O fado é uma língua viva que fala sobre hoje. Ser contemporâneo é isso: é ser do meu tempo, é não ser do outro tempo. Foi isso que quis dizer nesta galeria. Estou numa galeria exatamente para dizer às pessoas, de uma forma figurada, criativa, de uma maneira especial, que o fado é hoje, não é uma memória.”

Sobre “Maria”, a fadista afirmou tratar-se de “um disco de pensamento sobre o que é o fado”. Disse que tinha saudades de voltar à canção de Lisboa, depois de um álbum anterior, “Carminho Canta Tom Jobim”, editado há três anos. “Mas para voltar ao fado não poderia ser de qualquer maneira, teria de ser de uma forma pensada, porque o fado é a minha vida”, descreveu. “Este disco serve também para perceber qual é a minha posição enquanto fadista no contexto desta nova geração.” E onde quer ela posicionar-se? “O disco diz isso. É um disco de fado, fala muito sobre a tradição. Comecei por subtrair os elementos que foram somados ao fado, até chegar aos elementos fadistas. Depois subtraí também esses elementos e cheguei apenas à voz como elemento central e primordial. E depois, lentamente, somei outros elementos, aí de forma mais contemporânea, com um pensamento.”

Quer a performance quer as fotografias que se viram na Galeria Cristina Guerra tiveram caráter efémero, apenas para aquele momento de terça à tarde, e não deverão ressurgir juntos nos mesmos moldes, ainda que, nas palavras de Carminho, o evento tenha sido “uma antevisão da experiência” que vai oferecer ao público nos Coliseus. “Uma experiência intimista, controlada, na perspetiva de que o público possa viajar dentro de si em vez de olhar apenas para o que está no palco.”