FC Porto

Um clássico onde jogou a esperança, mas venceu a desilusão

Era preciso um verdadeiro milagre para que a festa do ano passado se repetisse no mesmo palco. Apesar da esperança do início da tarde, o anoitecer foi sem surpresas e sem o título.

JOSÉ COELHO/LUSA

Autor
  • Maria Martinho

Teresa Antunes foi das primeiras a chegar às imediações do Estádio do Dragão. “Montei a banca às onze da manhã”, diz ao Observador, sorridente e rodeada de cachecóis azuis e brancos. “Estes mais modernos são os que se vendem mais, a 7,50€”. É natural de Póvoa do Lanhoso, portista “de alma e coração” e “há mais de 30 anos” está às portas do estádio sempre que há jogos em casa. “Hoje ainda vai haver festa aqui, tenho essa esperança. Dizem que é a ultima que morre, não é?”. Na verdade, havia 3% de possibilidades de o milagre acontecer e Teresa tinha fé, “muita fé”.

Poucos metros ao lado encontramos a banca de comida “Na volta, cá te espero”, cujo nome podia ser dedicado ao título no Porto. Lá dentro está Maria da Conceição Teles atarefada a ralar cenouras. “É para os cachorros, hambúrgueres e kebabs”, conta ao mesmo tempo que pensa em voz alta dizendo que ainda lhe faltam “as batatas fritas, os cogumelos e o milho” para a montra ficar completa. Maria da Conceição não é portista, mas espera que o FC Porto hoje seja campeão, mais que não seja “para animar o negócio”. É o primeiro ano que vende por estas bandas e gostava de continuar. “Isto resulta bem antes do jogo, claro que se houver vitórias posso ficar aqui até à meia noite. Não me importo.”

Através das redes sociais o clube da casa prometia animação a partir das 14h30 e cumpriu. Soava a música “Liberdade para dentro da cabeça”, dos Natiruts, quando junto às food trucks encontramos um cartaz com uma mensagem de apoio a Alex Telles. Estava enrolado nas mãos de Leonor Bragança. Tem 13 anos e é administradora de uma página de fãs dedicada ao jogador brasileiro. Já esteve com ele várias vezes, confirma a simpatia e traz vestida uma camisola autografada pelo próprio. “Na quinta-feira fui ao Olival e estive com ele”, recorda feliz. Sobre à possibilidade de este ser o último jogo de Telles com as cores azuis e brancas, Leonor lamenta, mas prefere aproveitar a partida de hoje para apoiar o seu ídolo.

Quem também vibra com as prestações do defesa portista é o pequeno Tiago Ribeiro. Tem 9 anos, é de Amarante e hoje vem ao Dragão pela primeira vez. “Já ando a pedir há muitos anos para vir e consegui vir ao último”, revela ao Observador. Tiago também joga futebol e está à procura de Draco, a mascote do FC Porto, para “lhe dar um abraço assim gigante”. Diz que não acredita num “Porto campeão”, pois dois pontos separam o seu clube do grande rival, aquele que em outros tempos perdeu uma mão cheia de golos no Dragão. Tiago lembra-se bem dessa noite. Pelas suas previsões, o clube nortenho “ganha por 2-0, com golos de Marega e Soares”. “A ver vamos”, diz cauteloso o avô ao dar-lhe a mão.

Além das músicas orelhudas que se faziam ouvir da mesa do Dj, entoava também a voz rouca e forte de José Santos a vender camisolas. Tem 58 anos e faz parte da claque dos Super Dragões desde que se lembra “de ser gente”. Para José foi em Guimarães que “o título nos escapou pelas mãos”. Não é fácil mexer no destino e mudar a sorte, mas o adepto “nascido e criado na Ribeira” recorda que “a bola é redonda e, por isso, tudo pode acontecer”. Como adepto fervoroso que é, já só pensa no jogo do Jamor no próximo sábado, disputado com a mesma equipa de hoje, o Sporting. “Ainda temos a Taça e hoje é até aos 92 minutos”, brinca. Sobre o guarda-redes Casillas, afastado forçosamente devido a um enfarte no miocárdio, José acredita que o espanhol “merece uma despedida em grande” e revela que gostava de o ver sentado na estrutura do clube, “seja como treinador de guarda-redes ou na parte internacional”. Iker está a recuperar o seu estado de saúde e tem agora futuro incerto. Visitou os colegas de balneário na véspera deste jogo, numa tentativa de dar sorte.

Relativamente à recente tensão sentida entre claque Super Dragões e a equipa portista, o veterano nestas andanças desvaloriza o episódio, garante que não há motivos para polémicas e compara a situação a uma briga entre vizinhos. “Já lhe aconteceu ameaçar a sua vizinha quando ela estende a roupa do seu lado? Foi o que aconteceu. Temos o coração ao pé da boca, já se sabe, mas já passou.

A sair do centro comercial situado em frente ao estádio encontramos Filipe Teixeira com um cachecol do Sporting ao pescoço. Veio de Penafiel para ver a última partida do campeonato ao vivo e é com uma cerveja na mão, bebida oficial de todos os jogos de futebol, que espera pelo apito inicial. “Um clássico é sempre um clássico e este é um jogo muito incerto. Por mim podem empatar”, diz com pressa para ocupar o seu lugar.

Em vez do cachecol, António Canotilho preferiu vestir uma camisola do Sporting para apoiar a equipa. É de Coimbra, está a trabalhar no Porto desde o início do ano e hoje é a primeira vez que pisa o Dragão. “Para já estou a gostar do ambiente, está calmo e tranquilo. Ainda não me mandaram nenhuma boca, só me apercebi de alguns olhares por estar vestido de verde”, confessa ao Observador. António e os amigos, que se dividiam entre sportinguistas e portistas, “numa convivência pacífica”, sentiram algumas dificuldades a entrar no estádio. “Falámos agora com os seguranças e disseram-nos que temos que entrar com os restantes adeptos na caixa, por isso vamos ter que nos separar”, lamenta. Sobre o resultado desta tarde, António espera que o Sporting vença, apesar de admitir “que nada vai alterar a classificação final”. Para ganhar o campeonato, o jovem prefere que seja o Benfica porque não aprecia “o mau perder do Sérgio Conceição”. Tal como o elemento dos Super Dragões, o sportinguista já está a pensar na final da Taça de Portugal, pois considera ser “um jogo bem mais importante do que este”.

A Taça de Portugal é o rebuçado que resta aos adeptos azuis e brancos. A bússola, tal como o campeonato, não engana e marca mesmo para sul, onde no próximo sábado há jogo no Jamor. O adversário é o mesmo, o espírito talvez seja outro.

Um jogo quente e frio

Ainda não tinha passado meia hora desde o apito inicial e já o principal rival vencia por duas bolas a zero na Luz. “O Santa Clara é uma filial do Benfica”, ouvia-se nas bancadas. Quando Fábio Veríssimo consultou o vídeo árbitro pela primeira vez foram muitos os assobios e as críticas “à equipa que joga de preto no relvado”. “Hoje até veio de florescente”, respondeu um adepto de uma fila para a outra. Uma expulsão, assobios. Um golo anulado, ainda mais assobios.

Já não há unhas para roer, cigarros no bolso ou cerveja na mão, mas há telemóveis ligados e auriculares nos ouvidos para saber o que acontece a 300 quilómetros de distância. Ali mais perto estão os adeptos do Sporting, não chegam para encher uma bancada e são mais as faixas do que gente. Numa delas lê-se “Juve Leo Boys” e está virada ao contrário, consequência da detenção do Mustafá, líder da claque sportinguista. O cheiro a pipocas, o coro da claque, que não perdeu o fôlego nem descansou as pernas, alimentaram uma primeira parte onde os assobios às decisões do árbitro prevaleceram sobre os aplausos aos remates à baliza do Sporting.

A segunda parte começa com cânticos insultuosos ao Benfica, que já ganhava por 3-0 ao Santa Clara. É estendida uma tarja preta e branca com uma equipa vestida com o símbolo das águias ao peito. Em vez de 11 jogadores, estão rostos de árbitros, como Bruno Paixão ou Fábio Veríssimo, mas também do primeiro-ministro, António Costa. Dizia “Campeões Nacionais 18/19” e mereceu muitos aplausos e fotografias.

Aos 60 minutos o Sporting inaugura o marcador, o céu azul ficava manchado pelas nuvens, ora brancas ora escuras, a prometer chuva. As bandeiras verdes e brancas levantam-se e há portistas que já abandonam o estádio de cabeça baixa. “Vou esperar para quê? Está frio”, reclama um adepto enquanto desce as escadas. Começa a anoitecer e muitos já não encontram uma posição confortável na cadeira. O vento que vem de Norte é suficiente para fazer mexer as bandeiras, mas não chega para alterar o resultado visível nos dois ecrãs.

Alex Telles é substituído por Vincent Aboubakar e é aplaudido de pé, provavelmente por Tiago e por Leonor, de cartaz nas mãos. A verdadeira explosão no Dragão dava-se pouco tempo depois com o golo de Danilo Pereira. O dono da camisola número 22 fez o chão tremer e o speaker gritar “Porto” várias vezes. Os aplausos multiplicam-se com as tentativas de mais golos e nas bancadas ouve-se “Força Porto, vence por nós”. Herrera fez a vontade a todos aos 86 minutos e dedicou o feito ao treinador, Sérgio Conceição. O capitão, que no ano passado garantiu o campeonato ao marcar na Luz, despede-se agora do Dragão de cabeça erguida e com muito suor na camisola. As bandeiras dos Super Dragões voltam a agitar-se, ouvem-se petardos e a confusão instala-se, tanto no campo como nas bancadas. “Isto afinal está quente”, ouve-se entre a sinfonia de assobios devido à expulsão de Corona, já na reta final. O Benfica é oficialmente o campeão nacional e num misto de revolta, tristeza e desilusão os portistas deixam o estádio do Dragão, não sem antes aplaudir de pé a equipa que fez questão de dar uma volta ao relvado.

No futebol não interessa como se começa, mas sim como se acaba. Este acabou como todos os jogos, com uma roda da equipa do FC Porto no relvado. Só o treinador sabe o que disse e sentiu, mas hoje, ao contrário do que o cântico pede, Conceição não fez do Porto campeão.

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