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Dez anos de Organii. Como as irmãs Curica puseram a cosmética bio no mapa

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Cátia e Rita só queriam abrir uma loja. Hoje, lideram um universo que inclui sete espaços, uma marca própria, produtos para bebé e um mercado anual que é uma montra de projetos sustentáveis.

Rita e Cátia, os rostos da primeira loja de cosmética bio em Portugal © Francisco Romão Pereira

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

A cara do Chiado era outra, menos enrugada pela pressão turística e pelas rendas exorbitantes. Foi em 2009 que as irmãs Rita e Cátia Curica abriram esse espaço pioneiro na Rua Anchieta, chamariz de muitos curiosos e alguns clientes mais atentos. Uma década depois, a literacia dos consumidores portugueses levou um banho de hidratação, apesar de ainda haver muitos mitos por derrubar e muita pedagogia para fazer.

O universo Organii soma hoje sete espaços, continua a apostar no cada vez mais popular Eco Market (uma montra de projetos e práticas sustentáveis que regressa a 26 e 27 de outubro, em Marvila), abrange uma gama própria de produtos, com a marca Unii a sair da fábrica de Pero Pinheiro, vive de spas e artigos para crianças, e dedica-se agora à consolidação do projeto. Parece tudo fácil, óbvio e planeado, mas não podíamos estar mais distantes desse trio de adjetivos, sobretudo para quem se lembrou de deitar mãos à obra em vésperas da crise. “Nunca pensámos algum dia trabalhar juntas. Vimos de áreas diferentes, somos pessoas muito diferentes, eu sempre mais da ciência, a Rita das Artes, da arquitetura. Nunca nos passou pela cabeça que nos pudéssemos cruzar”, garante Cátia, que herdou da mãe o cabelo ruivo e a pele muito reativa.

“A Cátia começou por ser macrobiótica aos 16 anos e como vivíamos juntas, isso influenciou-nos. A cosmética veio a seguir. Estando mais na área da farmácia, percebeu que a reação da sua pele podia estar associada à componente sintética usada na cosmética. Começámos a procurar alternativas”, completa Rita.

É preciso enquadrar que vivíamos no tempo da Biocoop, praticamente o único recurso para quem começava a preocupar-se com o assunto. As respostas chegavam do estrangeiro, através das viagens e do contacto com gamas amplas que permitiam uma transição completa, do creme para a cara ao desodorizante. “Já tínhamos consciência bio mas nunca pensámos que a diferença com estes produtos pudesse ser tão grande”, admite Cátia. Estava dado o mote para começarem a comercializar marcas que não eram vendidas em Portugal. Só faltava o espaço certo.

O sabor das ameixas, ou a primeira loja

Em 2009, o coração da cidade fazia todo o sentido, pela nobreza e autenticidade, pela proximidade e comércio de rua e pelos preços ainda praticáveis. Rita trabalhava num atelier na baixa, Cátia dedicava-se à medicina tradicional chinesa e vivia no Bairro Alto. O meio caminho cabia na perfeição nesse conceito de slow retail e no sonho inicial de trabalharem em part time, algo que rapidamente haveria de ficar pelo caminho. “Foi tudo muito rápido porque também muito inconsciente. Se alguém soubesse o processo de abrir um negócio, não começava. Nunca estamos preparados”, defende Cátia.

@ Instagram Organii

A ideia principal era abrir uma loja bonita, que convidasse a entrar tanto clientes interessados no tema como simples transeuntes seduzidos por um espaço apelativo. Quanto ao recheio, o leque atual inclui marcas como a Mádara, Absolution, Acorelle, John Masters Organics, Less is More (na imagem) ou Voya. “Alguns desses clientes ainda os temos hoje. Tínhamos muitos do bairro. Até tivemos que mudar uma cadeira de sítio porque a vizinha da frente vinha passar as tardes ali sentada e não nos deixava trabalhar. Trazia-nos ameixas biológicas”, ri-se Rita. As irmãs recordam ainda a assiduidade de quem frequentava o vizinho Instituto Macrobiótico e simples curiosos em busca de “produtos naturais”. “Foi uma das razões para falarmos precisamente na ideia de cosmética bio, porque infelizmente o “natural” pode incluir componentes sintéticos. A cosmética bio não tem essa formulação sintética”, esclarece Cátia. E se ao longo dos anos a procura se baseou muitas vezes na tentativa de resolução de problemas de pele e prevenção em termos de saúde, com o conhecimento sobre a área a crescer a olhos vistos, ainda persistem algumas crenças, mais difíceis de desmontar.

Mitos e entraves

Palavra de Curica: há dois grandes mitos associados à cosmética bio e um deles é o preço, apesar de a dupla salientar que nas prateleiras podemos encontrar linhas económicas e familiares, com champôs e gel de banho a cinco euros, ou cosmética seletiva, com valores menos acessíveis. “Não trabalhamos para uma elite, o nosso cliente é a classe média. Temos desde deputados a um senhor que viveu na rua e veio comprar um creme e um shampô. Incrível, não é?  Mas o grosso dos nossos clientes é gente normal, como nós, que tem que fazer escolhas ao final do mês, pensar no equilíbrio”, descreve Cátia.

Outro ponto nuclear está ligado à ideia de envelhecimento, “dizerem que os produtos não são eficazes”, e para essa crítica também não falta argumento na manga. “Assim que nascemos estamos a envelhecer. Ninguém consegue pará-lo. Conseguimos evitar aqui é o envelhecimento precoce, que está a ser acelerado pelo nosso estilo de vida. Nesse aspeto, a cosmética bio até é mais eficaz. A convencional está sempre muito focada em disfarçar, a pensar no agora. Queremos uma pele funcional durante mais tempo, pensar a longo prazo.”

Nem é preciso entrar na galáxia dos sulfatos, parabenos e outras possíveis ameaças para ficar pelo menos um pouco em sentido com o número: “95% dos cosméticos tradicionais alimenta-se de petróleo. Qual é a parte do nosso corpo que se alimenta de petróleo? Ainda não funcionamos a diesel”, acrescenta Rita, notando ainda como as preocupações com o efeito da poluição na nossa pele ainda não merecem a mesma atenção que o efeito nocivo do sol.

O espaço Organii na Lx Factory @ Francisco Romão Pereira

Numa indústria da cosmética convencional com um peso enorme, ler um rótulo, apesar de toda a formação, também continua a ser um exame de fogo, até para quem se movimenta na área (agora imagine o consumidor). Outro desafio, agora para marcas como a Organni, prende-se com a “ausência de legislação específica”. “Há imensos produtos com o rótulo bio sem cumprirem as regras”, sublinha Rita, assinalando a lacuna ao nível da cosmética e dos detergentes, por exemplo.

Para Rita e Cátia não estamos apenas a falar de cremes, mas sim do compromisso com um estilo de vida que vai muito além disto. “Existem grandes marcas a criar linhas bio, mas não nos identificamos, porque o conceito tem a ver com uma série de valores, com o comércio justo, com as preocupações ambientais, com o cruelty free. Não conseguimos estar em dois lados. Não podemos trabalhar em prol disso e ao mesmo tempo pagar testes em animais para pôr o nosso produto na China, e para poupar dinheiro. Ainda há muito consumidor que não quer saber, mas também há muitos em mudança, claramente”, confia Cátia.

O tempo da expansão

Nunca houve um bussiness plan em cima da mesa e assim continua a ser. “Só queríamos abrir uma loja”, lembram. A verdade é que uma década depois têm mais de vinte pessoas a trabalhar consigo, conheceram rostos de marcas com histórias incríveis, viram algumas delas começarem a ser cotadas em bolsa, e continuam a acreditar que é possível “fazer um negócio sustentável com uma ética diferente”. Chegados a 2019, a marca Organni fatura cerca de um milhão de euros por ano, apesar de, nota Cátia, “as nossas margens são muito pequenas. Tudo isto é feito com outra lógica. O projeto tem que ser viável. Claro que é mais demorado, mais caro, mas estas marcas querem trabalhar a nível local, com menos pessoas, produzindo produtos 100% seguros, em comunhão com o planeta. Ninguém quer ser milionário. E até se provar que isto ou aquilo é seguro, não usamos”.

As ambições para o futuro continuam a ser moderadas, e sem urgência de replicar fora de portas o conceito, algo que obrigaria a um investimento avultado. De resto, as contas por cá têm um resultado simpático: cinco lojas de cosmética, duas delas com spa, duas de bebé e ainda a parte do armazém e empresa de distribuição, função que passaram a assegurar a pedido das marcas com quem trabalham. “Foi aí que sentimos a necessidade de ter um departamento comercial”, recorda Rita, sem deixar de observar que ainda hoje falam das dificuldades, e que a sobrevivência nunca é um dado garantido. “Começámos bem mas apanhámos logo a crise a seguir. Quando dissemos a amigos, eles diziam que estávamos loucas, que não líamos jornais. Tivemos dificuldades, mas acreditámos que a nossa loja funcionaria”.

Uma das primeiras ideias, de abrir uma loja em Cascais, ficou sempre em banho maria porque o destino acabou por traçar outros planos, como a chegada da Organii ao Porto, através de uma amiga de infância que quis lançar o projeto a norte. Para trás, fica a rotina louca e o desafio da conciliação. “Nos primeiros cinco anos trabalhei todos os dias da semana, depois estivemos as duas grávidas ao mesmo tempo. “Toda a gente fala do empreendedorismo, mas é duro”, alerta Rita. Entretanto, dos problemas nasceria mais uma solução: a gama Organii para bebés.

Azeite, argão e outras aventuras na fábrica

Depois de vários anos a venderem marcas de terceiros, concretizavam uma vontade. Foi assim que no final de 2018 nasceu a marca própria, a “Unii”, de universo e de união, e uma linha composta por óleos de laranja doce, água floral de alfazema, sabonetes de argila e alecrim, pastas de dentes de funcho e menta, entre outros artigos.

“Sentimos que não havia muitas marcas produzidas cá a fazer jus aos bons ingredientes portugueses. Mas quando começámos a montar a produção percebemos porque é que não há mais: é tudo muito difícil e moroso”, confessam. Rita recorda como estiveram um ano e dois meses à espera de uma mudança numa legenda no armazém para poderem começar a fazer produção. “Se não tivéssemos a distribuição já a funcionar no armazém como se pagaria aquela renda toda? Vamos ao nosso ritmo. Gostamos de ter esta independência de fazer o creme com substâncias que gostamos”.

Quanto ao processo de fabrico, é fácil prever que dificilmente um produto sairá à primeira, mas será que imagina que as versões de um creme de dia podem chegar ao número 60 ou 70? “Acho que tenho em casa o 83!”, diz Rita. “São várias tentativas. Poderíamos lá estar eternamente. Quando começa a estar funcional, afinamos as pequenas coisas, pensamos nos orçamentos. Há uma estabilidade na formulação”, explica Cátia.

Como em todos os caso, há favoritos e soluções que custam mais a entranhar. Os protetores solares têm tido especial saída, a começar pela sensibilidade em relação aos oceanos, notam as irmãs. Também o óleo de argão, os champôs sólidos (uma das sensações mais recentes), os desodorizantes (que dispensam sais de alumínio), os cremes de dia, e os produtos para o escalpe, são bastante solicitados. Quanto à linha dentífrica, apesar de correr bem, é das menos comerciais.

O champô sólido é um dos produtos sensação mais recentes © Instagram Organii

“Quando aqui a testaram não perceberam que era produto acabado. As pessoas não estão habituadas a lavar os dentes sem espuma, sem sulfatos. Mas aqui o que importa é mineralizar, eliminar os resíduos, não ficar com a boca a arder. O meu filho detestou no início e hoje é um completo fã”, confirma Cátia.

Sobre os próximos passos, crescer no granel é um dos objetivos, algo que vai implicar algumas alterações nas lojas e há merchandising no horizonte.

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