“O nosso corpo é o bem mais precioso que temos.” Quem o diz são as irmãs Cátia e Rita Curica, fundadoras da Organii, a primeira empresa em Portugal especializada em cosmética biológica. Este foi o ponto de partida já há uns anos com a loja de cosmética. A partir daqui a história pode ser acelerada mas de forma positiva: Cátia engravidou e sentiu que havia necessidade de explorarem os produtos de bebé e nasceu a loja Bebé Bio. Depois surgiu a ideia do Ecomarket, que vai este ano para a sua terceira edição, onde as irmãs reúnem aquilo em que acreditam: marcas 100% Bio-Eco-Artesanais, palestras, showcookings, workshops, tudo para que as pessoas se informem, experimentem, saboreiem, ouçam falar de outros temas, possam fazer perguntas e que seja um espaço de partilha.

Com o sucesso do mercado, as irmãs decidiram criar uma Concept Store para poderem reunir marcas pequenas, que se vendem longe e que querem ajudar a desenvolver porque acrescentam valor à identidade da Organii e até ao próprio país.

O que é que faltava? Criarem a sua própria marca de cosméticos naturais, toda produzida em Portugal, em Sintra, e que obedece às melhores práticas de fabrico — e este é um marco para a produção portuguesa. A UNII – Organic Skin Food acaba de nascer e o Observador esteve com Cátia Curica para falar sobre produtos naturais, preocupações ecológicas e como o consumidor tem de começar a saber mais sobre aquilo que coloca no corpo.

Com uma loja cheia de produtos naturais, porquê uma marca própria?

A UNII vem responder a algumas necessidades manifestadas por muitos clientes da Organii, explica Cátia: “As pessoas pediam-nos óleos com texturas que absorvessem mais depressa, porque aqui em Portugal temos um clima mais quente e mais húmido. E começámos a pensar que temos muitas matérias-primas que não são exploradas e que nos permitem ter em conta as especificidades do nosso clima e do nosso tipo de pele e conseguir dirigir os nossos produtos para essas necessidades. Há vários usos para o tomilho, mas o tomilho bela-luz, por exemplo, só existe na Península Ibérica e nunca é utilizado. Temos também o melhor eucalipto de toda a Europa, então porque não usarmos os recursos que temos cá? O facto de estarmos em Portugal dá-nos oportunidade de explorar essas matérias-primas e integrá-las nos nossos produtos”, diz Cátia, explicando que nem sempre se consegue ir buscar tudo a produtores locais, como a manteiga de karité que não há cá. “Mas os nossos produtos têm azeite bio de Trás-os-Montes e conseguir este tipo de relação mais próxima com aquilo que é nosso também é uma coisa que nos atrai.”

Cátia Curica conta que tudo começou com os óleos essenciais. Tinham muitos pedidos de manteiga de karité simples, óleo de rosa mosqueta ou de amêndoas doces. Tudo simples. “Se já íamos produzir sabões e íamos precisar mesmo dessas matérias-primas e se as pessoas nos pediam, porque não criar então uma linha apenas de óleos?”, partilha. Essa é a linha dos Puros — óleos essenciais — e a partir daqui as irmãs começaram a fazer as suas próprias criações.

“Claro que há produtos que vão tocar-se com outros que já temos. Mas sempre quisemos ter alternativas para diversos tipos de preço, de pele, de necessidade, assim, a UNII nunca vai ser incompatível com o que já vendemos. Mas também não tínhamos óleos essenciais puros e agora já temos. Não tínhamos champôs ou pastas de dentes deste estilo e agora temos. Viemos colmatar algumas falhas que víamos. É preciso ouvir as pessoas e o que elas procuram e esta relação que se cria com os clientes também nos dá muita informação sobre o que podemos pensar em desenvolver.”

Uma linha de higiene oral sem usar plástico: boião/frasco de vidro âmbar, tampas em alumínio e espátula de madeira (Helena Magalhães/Observador).

Todos os produtos são feitos de raiz sem bases pré-feitas

“O que mais nos moveu desde o início foi conseguir fazer uma marca com o mínimo desperdício, que poderíamos controlar em todas as fases do processo de fabrico, sabendo que temos boas matérias-primas, boas formulações, tudo feito por nós desde o início e que permite que as pessoas possam comprar as quantidades que correspondem às suas necessidades pessoais”, partilha Cátia. Isso significa que pode levar os frascos e encher na loja: “Por vezes uma pessoa só quer um óleo para usar numa cicatriz e só necessita de um frasquinho pequenino. Mas uma grávida já vai querer um frasco grande para aplicar na barriga e não faz sentido andar a comprar potinhos de cada vez. O granel permite exatamente que as pessoas adaptem os frascos às quantidades que querem.”

Em toda a fase de criação, Cátia explica-nos que houve a preocupação de fazer algo realmente de raiz para haver a garantia de que o produto final é o melhor que se pode esperar — que, ao contrário do que possa pensar, não é tão comum assim na cosmética. Se uma pessoa quiser criar uma marca, não vai montar uma fábrica. Vai a uma já existente, escolhe os aromas que mais gosta para os seus produtos porque essas bases já estão pré-feitas e em poucos dias consegue ter uma linha de cosméticos na mão. “Na verdade, demora-se muito tempo a desenvolver uma base para um cosmético. Nós demorámos entre seis meses a um ano para ter um produto cá fora. Se tivéssemos ido a uma fábrica para escolher os aromas e as bases, a coisa já teria durado uma semana”, diz Cátia. Ironia à parte, isto é um facto: este processo lento e de desenvolvimento próprio faz toda a diferença na identidade da UNII.

“Desenvolvemos mesmo tudo de raiz, sem qualquer base pré-feita. Quando começámos a fazer os champôs, queríamos um que fosse sólido, claro, mas não podia ter sulfatos e também queríamos que fosse gentil para o couro cabeludo. E isto foi sendo feito processo a processo. Começámos por procurar cada um dos ingredientes e a testá-los para fazer a base. Depois a base já estava boa mas não tinha cheiro. Ou já era uma base boa mas faltava desenvolver para cabelo oleoso, normal ou seco. E por vezes a mistura dos ingredientes simplesmente não resultava. Eu e a Rita usávamos as bases e trocávamos ideias uma com a outra, como tinha agido no cabelo de uma e no cabelo da outra. É mesmo um trabalho muito lento, de diálogo, de experimentação.”

Criar uma marca em Portugal é fácil? Nem por isso

Antes de tudo o resto, foi preciso tratar das licenças e autorizações para a Organii usar um armazém num espaço industrial e assim montar uma fábrica. Um processo burocrático que demorou um ano e dois meses. “Enquanto estávamos nesse processo lento íamos fazendo coisas em casa para testar. Quando finalmente conseguimos montar o laboratório, foi quando sentimos que a marca poderia mesmo arrancar. No laboratório temos equipamentos que cumprem todos os requisitos e onde podemos testar as fórmulas todas. Porque uma coisa é fazer sabonetes em casa, outra é ter medidores de pH, controlo de higiene, garantir fórmulas constantes, ter homogeneizadores para mexer champôs, por exemplo, e onde sabemos que tudo é controlado, tudo é constante. Parecem coisas pequenas porque muito é mesmo feito à mão, mas ter um laboratório foi o grande passo que nos permitiu testar verdadeiramente as formulações a sério. Apenas desta forma poderíamos trazer para o mercado produtos estáveis, exatamente com as características que queremos e que não sigam só na premissa de experimentei e correu tudo bem“, clarifica Cátia.

A linha da UNII tem óleos corporais e óleos puros em frasco e boião (Helena Magalhães/Observador).

Embalagens, reciclagem e a verdade “cinzenta” dos temos “natural” e “orgânico”

As embalagens dos produtos da UNII são todos em vidro e se os clientes as devolverem depois de usados, a Organii consegue voltar a colocá-las no circuito. Mas mesmo em termos de reciclagem, o vidro não perde valor como o plástico. “Garantidamente, aquilo que não queríamos era estar a contribuir para haver mais lixo no nosso planeta. E o plástico não se recicla nem metade. Claro que não vamos conseguir ter tudo em vidro porque um champô em vidro pode tornar-se perigoso mas também foi por isso que começámos pelos sólidos. Eventualmente, vamos ter líquidos no futuro e aí vamos ter de procurar plástico 100% reciclado”, partilha. E mesmo nos rótulos, verificou-se que o papel não servia porque, além de se sujar, as informações desapareciam. Como plastificar estava fora de questão, os rótulos dos produtos da UNII são feitos com um tipo de papel que é um aglomerado de desperdícios de pedra. Mesmo molhado, não perde as informações.

Sobre os termos “natural” ou “orgânico”, há muito que são discutidos como uma verdade “cinzenta” e Cátia confirma-nos estas ideias: “O mercado usa estes chavões como chamariz para vender. Hoje, uma marca que tem apenas 10% de plástico reciclado já diz que tem embalagens recicladas. Mas há pior: agora a legislação europeia quer proibir que se diga que um produto não tem parabenos porque são permitidos por lei e as marcas não podem estar a denegri-los. Mas uma marca pode dizer que é natural e ter parabenos ou dizer que é natural e ter ingredientes sintéticos. Também está a denegrir a imagem do que é natural, mas com isto a legislação já não se preocupa. Há marcas que se chamam ‘qualquer coisa organic’ e nem sequer são verdadeiramente orgânicas”, explica.

Cabe ao consumidor informar-se sobre aquilo que está a comprar. E é bom que já haja tanta informação disponível. As pessoas já se preocupam com o que usam, o que têm em casa, já procuram outras alternativas. “Mas também há muita desinformação”, salienta Cátia. “Há muita coisa à mistura e as pessoas confundem tudo. É vegan? É bio? É sem desperdício? É cruelty-free? Tem glúten? As pessoas juntam estes conceitos todos e há um grande baralhar de todas estas noções. Por isso explicamos que somos vegan, somos bio, somos zero waste e somos portugueses. Quisemos juntar isto tudo porque acreditamos que conseguimos fazer um bom produto que não vai precisar de coisas más para ser seguro.”

Desperdício, preocupações ecológicas e como funciona a fábrica

“A nossa primeira preocupação foram as embalagens, claro, mas essa não pode ser a única preocupação de uma marca”, explica Cátia. Assim, tudo na fábrica da UNII é pensado ao pormenor para garantir o mínimo desperdício. O azeite é comprado em bidons que são utilizados e devolvidos na próxima entrega para que se possam reutilizar. As caixas de cartão são as mesmas caixas que a Organii usa para fazer exposições para os clientes. Algumas das paletes são utilizadas nas lojas, as outras são “reutilizadas por um senhor que as vai buscar”. “Pensamos sempre nestas formas de criar reutilização para tudo. Era mais fácil deixar tudo na rua para o lixo, recolher mas a nossa filosofia passa por encontrar pessoas que pegam nas coisas que nós já não utilizamos porque podem ser úteis para outra coisa”, conta.

Para fazer os produtos de amêndoa, Cátia diz-nos que acabavam por sobrar as cascas e alguma polpa de amêndoa e foi daí que veio a ideia de integrá-los noutros produtos, como o esfoliante. Os resíduos que ficam quando fazem o sabão são juntados para fazer pequenos sabonetes para se lavar as mãos e as louças da fábrica. “É ir olhando nas várias perspetivas e ver o que conseguimos fazer para diminuir a nossa pegada e aquilo que é o nosso impacto.”

Outras das preocupações de Cátia e de Rita era a forma de produção em fábrica, para garantir as melhores técnicas. “Queremos sempre que os produtos sejam bio, sem ingredientes sintéticos, o mais puro possível, com o mínimo de manipulações e o mais perto da origem e da natureza. Só extraímos os óleos a frio porque, se for preciso aquecimento ou um solvente, isso já vai buscar partes do óleo que não interessam. Preferimos fazer a frio e dar outro uso ao que sobra, como para os esfoliantes. Claro que há coisas que têm de se fazer. Para fazer sabões, por exemplo, temos de partir da matéria-prima e fazer reação de saponificação, caso contrário não conseguimos obter o produto final. Mas neste processo também acabamos por respeitar tudo: é a frio, a baixas temperaturas, pomos mais gordura para nutrir a pele e a segurança ser ainda maior. Todas estas pequenas grandes coisas têm de ser pensadas e testadas.”

Os sabonetes da Unii são todos feitos com Azeite bio de Trás-os-Montes (Fotografia: Organii).

Comprar produtos naturais é mais caro?

Esta parece ser a ideia mais consensual: é mais caro e, por isso, inacessível a muita gente. Mas Cátia desmistifica esta ideia. “Isto de ser mais caro é muito relativo. Devemos é questionar o que estamos a colocar na pele. Se temos um litro de gel de duche por um euro, será que está lá algo que a pele verdadeiramente precise? O problema é que vivemos numa fase em que estamos tão viciados em ter preços baixos que fica difícil mudar a mentalidade. Hoje temos desmaquilhantes por um euro. Honestamente, acho que o azeite que as pessoas têm na cozinha de certeza que é melhor que esse desmaquilhante”, partilha.

Cátia acrescenta ainda que, nos produtos de mais utilidade, conseguem ter embalagens de meio litro e até de um litro que custam menos de dez euros. E há produtos para as diversas gamas de preços. “Não sentimos que somos uma loja de elite, muito pelo contrário. Somos uma loja muito democrática.”

Mas as irmãs Curica vão mais longe. Cátia fala do incentivo comercial que parte da indústria da beleza para os consumidores, com “bombardeamento de informação” sobre “o que precisamos e não precisamos, quando, na verdade, não precisamos de muita coisa”. “Às vezes ficamos surpresas com as coisas que as pessoas nos pedem. Se apenas se querem desmaquilhar, dizemos para comprar um óleo de coco ou de amêndoas doces porque vai tirar a maquilhagem toda. E com um produto está tudo feito. As pessoas têm, na verdade, de perceber exatamente o que precisam, racionar a forma como utilizam os produtos [não é preciso encher a mão de gel de duche, não é?] e as quantidades que a pele precisa. Se estão a colocar um creme mas metade for petróleo ou ingredientes sintéticos que a pele não aproveita, claro que ela vai precisar de muito mais produto. E a pessoa tem de aplicar sempre mais. Quando se usa um produto em que a pele o aproveita no seu todo, não se precisa de usar tanta quantidade de uma só vez.

Na UNII especificamente, há sempre vários usos possíveis para um produto. Há óleos que se podem usar no cabelo, no rosto, no corpo. As águas florais também são águas termais, tónicos ou para fixar a maquilhagem. O frasco de pasta de dentes, por exemplo, custa seis euros e dura para cerca de três meses.

As pastas de dentes da UNII. Veja mais produtos na fotogaleria (Fotografia: Organii).

E para o futuro? Qual é o sonho?

“O nosso sonho até é bem simples”, diz Cátia. “Continuar a conseguir manter a nossa identidade onde não nos passa sequer pela cabeça comprar ou vender produtos que fazem mal à pele, ao ambiente, que foram testados em animais… são coisas que fogem completamente da filosofia que seguimos há muitos anos.”

Para o futuro, querem desenvolver tudo o que conseguirem. O céu é o limite. Mas garantidamente, amaciadores sólidos, champôs líquidos com embalagens 100% recicladas, gel de duche, cremes de corpo. “Estas vão ser as próximas coisas da UNII, mas temos ainda muito caminho pela frente”, conclui.

Na fotogaleria, em cima, conheça alguns dos produtos da UNII – Organic Skin Food que já pode encontrar nas lojas e no site.

Nome: UNII – Organic Skin Food
Data: 2018
Pontos de venda: Organii e loja online
Preços: entre 6,55€ e 9,90€