A coligação entre PSD e CDS em 2015 (Portugal à Frente, PàF) foi um sucesso eleitoral principalmente em termos de mandatos. Não foi suficiente para os sociais-democratas governarem, mas o PSD manteve a maior bancada no Parlamento. Na estrutura, e depois de resultados historicamente maus para a direita nas europeias, já há quem sugira a repetição da coligação pré-eleitoral de há cinco anos. Na reunião dos líderes das distritais com Rui Rio — que se realizou na terça-feira à noite na São Caetano à Lapa — o vice-presidente da bancada do PSD e líder distrital da Guarda, Carlos Peixoto, pediu que o partido refletisse sobre a hipótese de voltar a concorrer ao lado do CDS, alertando para as vantagens de ir a votos numa coligação com os centristas. Ao que o Observador apurou houve outros líderes distritais que apoiaram a ideia e também quem criticasse, mas Rui Rio optou pelo silêncio.

O presidente do PSD não apoiou a ideia, mas também não a rejeitou liminarmente, algo que podia ter feito de imediato. Por outro lado, Carlos Peixoto também não faria nada para colocar o líder numa posição incómoda já que é, desde a primeira hora, um dos maiores apoiantes de Rui Rio e um dos seus homens na bancada parlamentar.

Carlos Peixoto, líder da Distrital da Guarda e vice-presidente da bancada do PSD sugeriu na reunião das distritais com Rio a possibilidade de uma coligação com o CDS.

A reunião foi à porta fechada, mas Carlos Peixoto admite ao Observador que levou o tópico a discussão para que as estruturas do PSD tivessem “consciência” do impacto que tem o partido ir sozinho a eleições ou ir coligado com o CDS. A questão foi colocada na “negativa”: “Disse apenas às estruturas que uma não-coligação com o CDS tem impactos que não podemos negar ao nível do número de deputados“, afirma, sublinhando que é importante que o partido tome essa decisão “de forma consciente” e que “assuma as consequências” dela.

Para o deputado social-democrata, eleito pelo círculo da Guarda, “há um grande grau de probabilidade” de, nos círculos mais pequenos, o PSD eleger menos deputados se concorrer sozinho do que se concorrer coligado com o CDS, como aconteceu nas últimas legislativas. A questão é puramente aritmética, já que, com o método de Hondt, segundo Carlos Peixoto, uma mera diferença de 3 pontos percentuais na votação final dos partidos pode implicar a eleição de mais um deputado num determinado círculo.

Segundo o mesmo deputado, o tema foi colocado em cima da mesa na reunião das distritais por ele próprio  para “reflexão”, sem que alguma vez tivesse abordado a questão com Rui Rio. O mesmo foi confirmado ao Observador por outros líderes distritais. Um deles disse mesmo que não considerava “nada descabida a ideia” de o PSD concorrer coligado com o CDS e que esta passa a ser “uma questão que está em cima da mesa”.

Questionado sobre se, a quatro meses das legislativas, ainda há tempo para o PSD e o CDS tomarem uma decisão deste género, Carlos Peixoto afirma que “há sempre tempo”, apesar de o CDS até já ter avançado com os nomes dos seus cabeças de lista. A hipótese de o CDS reabrir o processo é vista como válida para alguns dirigentes do PSD, caso houvesse de facto interesse dos dois partidos em fazer uma aliança pré-eleitoral para unir esforços contra a esquerda. Em todo o caso, o deputado social-democrata que levantou a questão insiste que apenas o fez para suscitar “reflexão” no partido.

Paridade, ex-jornalistas e críticos na lista do CDS às legislativas

Rui Rio tem rejeitado coligações pré-eleitorais com o CDS, dizendo que cada um tem de trilhar o seu caminho, e em abril chegou a acusar Assunção Cristas de falta de sentido de Estado. A ideia de ir cada um por si é pacífica no partido, mas as eleições Europeias levaram alguns dirigentes a repensar a estratégia. Ir em coligação com o CDS pode significar mais deputados e também encurtar distâncias para o PS. Em 2015, deu mesmo em vitória. Cristas também disse em 2018 que as coligações pré-eleitorais foram em circunstâncias excecionais. Resta saber se a “crise da direita”, vaticinada por Marcelo, é uma situação suficientemente excecional para fazer a líder centrista mudar de ideias.

Do ponto de vista do resultado, poderia haver algumas vantagens. Nas eleições Europeias, por exemplo, o PS teve um resultado apenas 1,9 pontos percentuais acima do “poucochinho” de Assis e Seguro em 2014, mas o facto de ter ficado 11,5 pontos percentuais à frente da segunda força mais votada permitiu ao PS festejar uma vitória folgada. Apesar dos resultados paupérrimos de PSD (21,9%) e CDS (6,2%), juntos teriam tido 28,1% e o PS só teria ficado 5,3 pontos percentuais à frente da segunda força política. Além disso, poderia reivindicar uma subida, já que cinco anos antes tinha-se ficado pelos 27,7%.

A vantagem dos dois partidos irem coligados tem a ver com o aproveitamento de votos. Em círculos mais pequenos, onde o CDS não elege, os votos não contam para a eleição de deputados, sendo desperdiçados. Mas, juntando aos votos que o PSD tem nesse distrito, pode potenciar a eleição de mais um deputado. Mesmo que perca as eleições, se liderar uma força partidária (coligação) que fique a pouca distância do PS, Rio teria mais argumentos para continuar à frente do PSD.

A culpa (do resultado das Europeias) não morreu solteira

Apesar de estar previsto que o líder, com base nos estatutos, reúna com as distritais de dois em dois meses, Rio fê-lo apenas pela quarta vez em ano e meio. E, de todas as reuniões, como lembra um líder distrital ao Observador esta foi “a mais política, em que o presidente teve intervenções mais políticas”.

Na mesma reunião, e tal como o Expresso e o Público já tinham avançado, Rui Rio fez uma análise aos resultados das eleições Europeias, distribuindo culpas por todos menos por ele próprio. A crise dos professores, disse aos líderes distritais, foi culpa da manipulação de António Costa, “amplificada” pela uma comunicação social, a quem também atribui culpas no processo.

Quanto à estratégia de campanha, segundo o que apurou o Observador, o presidente do PSD disse que Rangel foi um bom candidato, tal como os restantes membros da lista, mas ficou provado que ele próprio tinha razão na ideia de não hostilizar o PS. O presidente do PSD, tal como já tinha feito na noite eleitoral, quis reiterar que não cometeu nenhum erro na estratégia que tinha seguido até às Europeias (de criticar com menos agressividade e elogiar o que os socialistas fazem bem).

Rui Rio à saída do Palácio de Belém esta quinta-feira, depois da audiência com o Presidente da República

Ao contrário do que fez na noite eleitoral, Rio colocou também o ónus na oposição interna, lembrando que teve dificuldades em passar a mensagem porque andou “a levar pontapés” durante um ano e meio. Depois de terem saído artigos na imprensa sobre a versão Pôncio Pilatos de Rio na reunião de terça-feira, o presidente do PSD veio esta quinta-feira explicar que também se considerava culpado pelo resultado de 26 de maio.

Após a reunião com o presidente Marcelo Rebelo de Sousa no Palácio de Belém, Rio foi esclarecedor: “É evidente que se eu sou líder do partido e o partido vai a eleições e tem um dado resultado, bom ou mau, eu tenho uma quota parte de responsabilidade grande. Isso é evidente. Só se eu tivesse perdido o juízo é que não dizia uma coisa destas”. E acrescentou: “Agora também não sou hipócrita ao ponto de dizer a culpa é toda minha. Fica bem dizer, mas não é. É repartida e a minha também lá está, como é lógico.”

Rio voltou a atirar aos jornalistas do Público e do Expresso, sugerindo que tinham interesses ocultos e disse “o que vem nas duas notícias, que eu penso que são duas notícias muito cirúrgicas, com jornalistas cirúrgicos, é metade verdade e metade mentira.” O líder social-democrata destacou ainda que “a reunião das distritais é uma reunião fechada, não é para as conclusões virem a público. As conclusões não vêm a público, nem as conclusões vieram a público. Aquilo que veio a público é 50% verdade e 50% mentira, sendo que a parte que é mentira, quem passou a mentira tinha interesse que ela fosse dita assim.”