É conhecido por padre exorcista, embora tenha sido demitido de funções ainda na década de 70. Humberto Gama, 80 anos, usa ainda as vestes sacerdotais e tem dois consultórios abertos, um deles perto do santuário de Fátima. Por mais que uma vez foi alvo de queixas por comportamentos impróprios durante as sessões, mas só agora foi alvo de uma acusação formal por parte do Ministério Público de Tomar que o acusa de violação.

O padre foi detido e libertado ainda no verão de 2018, depois de uma mulher de 61 anos, residente em Montemor-o-Velho, ter recorrido aos seus serviços em Fátima. Segundo o Correio da Manhã, o arguido sempre negou a acusação e diz agora que vai avançar com um pedido de abertura de instrução para tentar que o caso não avance para julgamento.

“É tudo mentira, uma inventona contra mim, vou apresentar a minha defesa e o tribunal decidirá. Não acredito que chegue a julgamento”, disse padre aquele jornal. O padre é acusado de tentar introduzir o seu pénis na boca da vítima, o que não conseguiu fazer porque ela não abria a boca. “Liberta-te, liberta-te, demónio. Abre a boca, abre a boca, eles estão a libertar”, terá dito, segundo as declarações da vítima.

Até agora todas as pessoas que se queixaram contra o padre decidiram desistir do processo. E o caso que agora resultou numa acusação corre o risco de ir pelo mesmo caminho. O Correio da Manhã cita um documento que consta no processo que diz que a mulher tem “um perfil psicológico fragilizado, de natureza influenciável e facilmente impressionável”, que tem vivido sob grande perturbação e que já demonstrou intenção de desistir do procedimento criminal.

Após a detenção do padre, a Igreja Católica republicou um comunicado que já tinha divulgado em 2011 em que não reconhecia “qualquer legitimidade”  a Humberto Gama para as atividades religiosas ou de alegado exorcismo que realizava. A Igreja considera mesmo “abusivos o título de ‘padre’ com que se apresenta e o uso de vestes sacerdotais.

De acordo com o comunicado assinado pelo Vigário-Geral da Diocese Leiria-Fátima, Jorge Guarda, Marcelino Humberto Gama foi ordenado sacerdote em 1965, tendo pertencido à Congregação Marianos da Imaculada Conceição, mas foi demitido “por motivos graves” em 1972, quando se encontrava em Inglaterra, ao serviço daquela instituição. A decisão “foi confirmada pelo Vaticano, através da Congregação dos Religiosos e Institutos Seculares”, e “desde então, na Igreja Católica, não se reconhece ao senhor Humberto Gama qualquer legitimidade para as atividades religiosas ou de exorcismo”, refere a nota.

“A quem se encontra em dificuldades que julga serem espirituais”, o documento aconselha o recurso “a uma prática cristã regular e a solicitar a ajuda de quem mereça confiança para o poder fazer e tenha o reconhecimento da Igreja, quer seja um sacerdote, um religioso ou religiosa ou mesmo um cristão leigo”.

O exorcismo é um ato de que a Igreja Católica dispõe para ordenar que alguém, lugar ou objeto seja protegido da ação do mal ou liberto do seu domínio, estando previsto, por exemplo, na preparação do Batismo das crianças ou de adultos, lê-se na Ecclesia.

O chamado “grande exorcismo”, reservado aos casos de possessão diabólica, excluindo as situações de doença do foro neurológico, só pode ser feito por um padre com licença do bispo.