Há um novo processo judicial a visar Jeffrey Epstein — que morreu na prisão em 2019 — por alegadamente colecionar e difundir pornografia infantil. Duas mulheres, que não foram identificadas, interpuseram uma ação no Tribunal Distrital do Sul de Nova Iorque, em que pedem a identificação de todas as vítimas — a maioria das quais ignora estar incluída na coleção pessoal do financeiro — e ainda uma recompensa monetária. A acusação alega que Epstein terá pago a menores para lhes tirar fotografias em que apareciam nuas, com a cumplicidade de assistentes e “coconspiradores”.

A queixa submetida no tribunal federal foi destinada aos antigos advogado e contabilista do empresário, Darren Indyke e Richard Kahn, respetivamente, na condição de coexecutores do património de Epstein. Os dois réus deste processo sempre rejeitaram conhecer os comportamentos sexuais desviantes imputados ao seu cliente e ainda não comentaram a recente acusação.

No processo judicial a que o The Guardian teve acesso lê-se que o financeiro possuiu, transportou, produziu e distribuiu “pornografia infantil e/ou material contendo imagens de abuso sexual de menores”. As duas mulheres que avançaram com a queixa permanecem no anonimato, mas são identificadas com os nomes Jane Doe e Amy nos documentos apresentados ao tribunal.

Quando tinha 12 anos, Jane Doe tirou fotografias quando estava parcialmente nua, para que fossem incluídas num estudo artístico. As mesmas imagens estavam “catalogadas, numeradas e mantidas pelo artista num cofre” quando foram “roubadas” por Epstein, afirma a queixosa. “Após descobrir que Epstein possuiu imagens suas em criança, Jane Doe sofreu e continua a sofrer ansiedade emocional severa“, lê-se no processo.

Já Amy dá conta de que imagens suas em condições idênticas foram distribuídas “entre o fim dos anos 90 e o presente”, assim como fotografias representando outros menores. As mesmas foram integradas num “‘livro de modelos’ com imagens sexualizadas de crianças”, que Epstein escondia num cofre trancado na sua casa de Nova Iorque — avança a acusação. Além disso, “pedia aos seus assistentes para tirar fotografias sexualizadas e representando nudez de múltiplas crianças, a quem pagava pelas imagens, usando-as para a própria gratificação sexual e de terceiros”.

Em declarações prestadas ao The Guardian, uma advogada de acusação admitiu que um relatório contido nos ficheiros Epstein — divulgados na sequência da aprovação do Ato de Transparência, em novembro — identificou 15 ou mais séries de pornografia infantil na coleção apreendida de Epstein. “Daquilo que sabemos, nenhuma das vítimas identificadas nesse relatório ou em qualquer dos materiais contendo imagens de abuso sexual de menores descobertos na coleção de Epstein foi avisada” ou notificada pelo Centro Nacional para Crianças Desaparecidas ou Exploradas, continuou a advogada Margaret Mabie.

A queixa adianta ainda que “empregados de Epstein e coconspiradores tinham acesso, viam ou recebiam as imagens com pornografia de menores que tinha na sua posse, inclusive aquelas que representavam Jane Doe e Amy“.

Além de uma recompensa financeira, as duas mulheres procuram fazer justiça, por elas e por todas as vítimas que desconhecem estar contidas nas imagens colecionadas e difundidas pelo financeiro. “Os sobreviventes esperaram anos por responsabilização, e este caso abre caminho para outras pessoas retratadas na sua coleção que nem sequer sabem que nela aparecem”, afirmou Hillary Nappi, advogada da firma AWK Survivor Advocate Attorneys, dedicada a abusos sexuais.

“Muitos deles não têm ideia de que as suas imagens existem nos ficheiros [do empresário], e merecem sabê-lo, devem ter a oportunidade de procurar justiça.”