Os ateus, os agnósticos e os crentes que não fazem parte de nenhuma religião são mais são instruídos do que a generalidade das pessoas religiosas, indica um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos dedicado à diversidade religiosa na Área Metropolitana de Lisboa, apresentado esta terça-feira na íntegra.

O estudo — que já tinha sido divulgado em dezembro no portal dos jesuítas, o Ponto SJ, e na comunicação social — analisa uma amostra da população da Área Metropolitana de Lisboa (AML), composta por quase 3 milhões de pessoas, no que diz respeito à identidade e às práticas religiosas, para concluir que esta região — por ser uma das que tem mais habitantes estrangeiros (7,3%) — é uma das que menos católicos tem.

Atualmente, de acordo com o estudo, 54,9% dos residentes da AML são católicos — um número que contrasta largamente com os números a nível nacional: de acordo com o último grande estudo sobre a religião em Portugal, em 2011 79,5% dos portugueses identificavam-se como católicos. As estatísticas da Conferência Episcopal de 2014 apontam para 77,03% de católicos em Portugal.

Já no que toca às outras religiões, 5% dos residentes da AML são evangélicos/protestantes; 1,3% são testemunhas de Jeová; 0,8% são muçulmanos; 0,7% são budistas; 0,5% são cristãos ortodoxos; 0,5% pertencem a outra confissão cristã, e 0,4% pertencem a outras religiões não cristãs.

No que toca aos que não pertencem a nenhuma religião, 4,9% são indiferentes à dimensão religiosa; 6,9% são agnósticos e 10% são ateus. O número mais expressivo, porém, é o dos crentes que não se identificam com nenhuma religião: 13,1%.

O estudo, coordenado pelo investigador Alfredo Teixeira, professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica, procurou também caracterizar as diferentes comunidades religiosas da Área Metropolitana de Lisboa em aspetos como as práticas de culto ou as representações do divino, mas também em aspetos sociodemográficos.

No que toca ao grau de instrução, o estudo conclui que é entre os ateus, os agnósticos e os crentes sem religião que há uma maior percentagem de pessoas com mestrados e doutoramentos. A única exceção entre os religiosos é a dos que pertencem a outras confissões cristãs, entre os quais a percentagem de detentores de mestrado e doutoramento é maior.

De acordo com o estudo, 13,7% dos ateus da AML têm mestrado ou doutoramento, bem como 9,4% dos agnósticos e 9,9% dos crentes sem religião. Números que representam mais do dobro do valor registado entre os católicos, por exemplo: apenas 4,7% têm estes graus de instrução. Ao mesmo tempo, 3,8% dos evangélicos e protestantes têm mestrado ou doutoramento.

Entre os muçulmanos, 9,7% têm mestrado ou doutoramento. Nas outras confissões cristãs — que representam 0,5% da população da AML —, 20,6% têm este grau de instrução.

No extremo oposto da tabela a diferença também é evidente. Enquanto só 1,5% dos agnósticos e 2,5% dos ateus se ficaram apenas pelo primeiro ciclo do Ensino Básico, nos católicos este valor é de 21,5%, nos evangélicos e protestantes é de 10,7% e nos muçulmanos é de 26,3%. Também a nível profissional, é entre os agnósticos e ateus que se encontram mais especialistas e técnicos.

O estudo olha também para os hábitos dos moradores da AML ao fim-de-semana, pondo-os em confronto com as práticas religiosas. Por exemplo, a investigação conclui que a percentagem de pessoas que ao fim-de-semana vão à missa ou a um culto religioso (11,4%) é inferior à percentagem daqueles que trabalham (18,6%), que passeiam (33,3%), que leem livros ou jornais (21,5%), que vão às compras (37,1%), que fazem desporto (11,5%) ou que tratam da casa (34,4%).

Porém, a percentagem dos que participam em atividades de culto religioso é superior à dos que vão a espetáculos culturais — apenas 6,4%.

O estudo, que analisa a paisagem religiosa da AML, a socialização religiosa, a distribuição geográfica das diferentes identidades religiosas, os estilos de vida, as crenças, atitudes, valores e práticas de oração, é apresentado esta terça-feira, às 18h30, nos Paços do Concelho de Lisboa.

O estudo, elaborado por Helena Vilaça, Jorge Botelho Moniz, José Pereira Coutinho, Maragarida Franca e Steffen Dix, sob a coordenação de Alfredo Teixeira, é o primeiro grande estudo feito sobre identidades religiosas em Portugal desde 2012.