São precisas cinco centenas de gravações, 800 horas de áudios e 10 milhares de fotografias para contar a longa caminhada que levou a humanidade até à Lua — desde o primeiro satélite no espaço até ao “Tranquility Base here, the Eagle has landed”. Mas Tom Jennings pode ser o único realizador a espremer tudo isso em duas horas de um filme onde mais ninguém fala além dos próprios heróis dessa história.

A National Geographic estreou este fim de semana o documentário “Apollo: Caminho para a Lua”, uma viagem por todo o programa espacial americano desde os anos 50 até ao dia em que Gene Cernan, astronauta da missão Apollo 17, se tornou no último humano a pisar a Lua. Não é uma viagem qualquer: Tom Jennings atreveu-se a recordar o orgulho ferido dos americanos nos tempos do Sputnik e de Irui Gagarine; a entrar na vida privada dos astronautas; e a colocar-nos na sala de controlo da NASA em Houston — uma viagem ao passado quase literal.

Não é a primeira vez que o faz. Em 2016, o documentário sobre o desastre da Challenger — uma missão tripulada ao espaço que explodiu poucos segundos depois de levantar voo — valeu-lhe um Emmy para Melhor Investigação. Um ano depois, o mundo rendeu-se a “Princesa Diana: Nas Suas Próprias Palavras”, que revelou pela primeira vez as gravações em que a Princesa do Povo desabafa sobre o sufoco que vivia na família real britânica. Agora, chegou a vez de falar do programa Apollo. Para o bem e para o mal.

O Observador conversou com o realizador Tom Jennings sobre o mais recente documentário com o carimbo da National Geographic, sobre as horas que passou a vaguear pelos arquivos da NASA e sobre o impacto que os seus documentários tiveram no modo de entregar informação ao mundo. Desvendou-nos as mensagens subliminares do filme, confessa que sofreu a produzir “Challenger” e explica porque é que o documentário sobre Diana é o seu favorito.

Quem teve a ideia: o Tom ou a National Geographic?
Nós temos feito programas para a National Geographic há muito tempo. Em 2016, tínhamos feito um sobre o trigésimo aniversário do desastre do Space Shuttle Challenger. Um ano mais tarde fizemos um documentário para o vigésimo aniversário da morte da princesa Diana. Os dois projetos foram muito satisfatórios para o canal. Por isso, contactei-os com a ideia de fazer um programa sobre a alunagem. E eles aceitaram.

Não há ninguém que não esteja a preparar algo sobre a Apollo 11. Como é que este documentário prima pela diferença?
De facto, quando falámos, eles perguntaram: “Está bem, mas como é que podemos fazer isto de forma diferente?”. Nós tínhamos uma vantagem, que era a nossa assinatura de fazer documentários sem narração. Sabíamos que haveria mesmo muitos programas sobre a missão Apollo 11. E percebemos muito cedo que a Apollo 11 não existe no vácuo.  Tinha de haver contexto de onde é que a história veio. Por isso, decidimos documentar todas as missões Apollo, desde a primeira à número 17. E para isso tivemos de recuar até 1957, quando a Rússia lançou o Sputnik e começou a corrida espacial.

A Guerra Fria não é contornada neste documentário?
De todo. Foi o Sputnik que começou o conflito entre os americanos e os soviéticos. Não pudemos ignorar o facto de as pessoas estarem com medo que o espaço se tornasse militarizado. Houve uma grande paranóia com os testes nucleares que estavam a acontecer. Os Estados Unidos queriam garantir que eram os primeiros a conquistar o espaço, mas não estavam a conseguir. Estava muitos passos atrás da Rússia. Então, o presidente Eisenhower disse: “Vamos ter um programa espacial que vai ser o melhor do mundo”. Depois o Kennedy disse: “E, já agora, vamos à Lua antes no fim da década de 60”. O que é notável é que, quando ele disse isso, os Estados Unidos nem sequer tinham um foguetão que os levasse à Lua.

Como é que representam essa vulnerabilidade americana no filme?
Precisávamos de mostrar de onde é que o comportamento americano tinha vindo, desde os anos do Sputnik, porque foi um caminho mesmo muito longo. No início do documentário damos muita ênfase ao facto de a União Soviética estar a conquistar o espaço muito mais rapidamente que os Estados Unidos. Mas depois isso vai desvanecendo ao longo do documentário porque, a meu ver, depois de estudar todo aquele material, para os astronautas e para as pessoas que trabalharam no programa Apollo, aqui tornou-se menos sobre política e mais sobre fazer algo que toda a gente julgava ser impossível.

Sim, mas os soviéticos não estavam a abrandar apesar dos avanços americanos.
É verdade, mas isso também está representado no filme. Só que na música! Nós trabalhámos com o Hans Zimmer e com a companhia dele, a Bleeding Fingers Music. E tínhamos um compositor, o James Everingham. Fomos ao estúdio deles para ouvir a música deles e ver se batia bem com a imagem. Estava ótimo. E eles puseram um som — beep… beep… beep… — à medida que o Sputnik era lançado. Esse som repete-se ao longo de todo o documentário. Quando reparei nisso, comentei com eles: “Foi muito inteligente da vossa parte terem criado um som para o Sputnik e terem-no posto na banda sonora”. E eles disseram-me: “Não criámos esse som. Este é o Sputnik, o som que ele fazia em 1957”. O facto de o beep se repetir ao longo de todo o documentário significa que os soviéticos continuavam mesmo atrás dos americanos, ameaçando o sucesso deles.

Que material analisaram para fazer este documentário?
Muitas, muitas, muitas horas de gravações, milhares de horas de áudios. As gravações áudio são realmente as mais importantes porque é delas que precisamos primeiro. Como não temos narrador, como num típico documentário, os áudios são essenciais. Os nossos documentários são construídos como máquinas do tempo, que nos levem ao passado. A única forma de fazer isto é ter pessoas desse tempo a contar a história, como se fosse tudo em tempo real.

A NASA ajudou?
Sim, na medida em que nos facilitou a tarefa porque anda a trabalhar com as universidades para digitalizar aquilo a que nós chamamos “Thirty Track”. Quando vemos fotografias da sala de controlo há centenas de pessoas lá sentadas. Mas, no passado, só ouvíamos uma pessoa, o CAPCOM. Ele seria o único a falar diretamente com os astronautas. Mas todas as outras pessoas sentadas na sala, e eram 30, estavam a ser gravadas. Essas gravações têm, no total, 10 mil horas. E nunca tinham sido transcritas porque eram 30 pessoas em cada uma das 12 missões tripuladas a serem gravadas 24 horas por dia, sete dias por semana. É fazer as contas.

Então a agência não mantém esse material em segredo?
Não, aliás, a NASA tem colocado online muito do material que tem guardado e que nunca analisou. Têm um bom arquivo, mas não têm mãos a medir. Só que nós pegámos nestes áudios que nunca tinham sido ouvidos antes, trabalhámos em conjunto com investigadores que se especializaram neste assunto e narrámos as imagens do interior da sala de controlo com essas gravações. Graças a isso, o que em tempos era um filme silencioso, agora tinha som. E não era encenado, era o verdadeiro. Dá-nos a sensação que estamos mesmo com eles na sala. Somos parte da história.

De quanto tempo precisou para fazer isso?
Dezoito meses. Começámos as investigações ao segundo dia e só parámos no dia anterior à data combinada para entregar a versão inicial à National Geographic. É que nós encontrámos sempre mais alguma coisa: “Espera, há mais uma fotografia!”. Foi por isso que dividimos o documentário em pedaços de história. Um bom exemplo disso foi com a Apollo 7, a primeira missão tripulada depois do incêndio na Apollo 1, que matou os três astronautas. Encontrámos um vídeo em que o representante da NASA estava a ser entrevistado e estava a falar sobre estarem a por uma nova câmara no veículo espacial para poderem fazer um direto para a televisão. Não estava no nosso plano, mas pensámos: “Isto é interessante, devíamos encontrar esse direto”. Encontrámo-lo e era muito engraçado. E, à conta disso, descobrimos que, quando voltaram à Terra, os astronautas foram ao programa de um comediante muito famoso da época chamado Bob Hope. Isto para dizer que toda esta volta foi só porque encontrámos um pequeno vídeo com uma informação que podia ser irrelevante para outras pessoas. E foi por causa disto que demorou tanto tempo a fazer o documentário.

Qual é a história mais importante do documentário?
Aquela que me impressionou mais foi as gravações com as mulheres dos astronautas. Eles tinham uma confiança silenciosa, personalidades tipo A, certos de que iam sair daqui, iam à Lua e iam cumprir a missão sem espinhas. Mas o que nem sempre vemos ou sequer pensamos são as pessoas por detrás deles. E as pessoas que vivem com o verdadeiro medo do perigo e do desconhecido, apesar de não serem elas as que vão enfrentar isso tudo. Usar essas gravações ajudou a criar uma imagem muito mais humana do que mostrar os astronautas a falar simplesmente de ciência. Esta era a história emocional que estava a acontecer nos bastidores. Achámos que era muito importante mostrar isso. Principalmente porque eu nunca tinha visto nenhuma das entrevistas com as mulheres dos astronautas. Foi surpreendente para mim ver quão inabaláveis estavam, apesar de estarem muito nervosas.

Os documentários sobre a exploração espacial já lhe valeram grandes alegrias.
Sim, foi graças ao documentário sobre o desastre do Challenger que ganhei o Emmy para Melhor Investigação. Uma das grandes descobertas tinha a ver com a professora que morreu na explosão, Christa McAuliffe. No meio das gravações que a NASA nos deus sobre o Challenger — e eles deram-nos mesmo todas –, encontrámos os treinos que a Christa tinha feito das aulas que ia dar a partir do espaço para todo o mundo. Nunca se tinha visto aquele material em nenhum outro documentário. Perguntámos à NASA: “Olhem, o que é isto? Encontrámos isto na gravação número 38 das 40 que nos deram”. E eles responderam: “Sempre esteve aí, mas nunca ninguém usou. Os outros realizadores nunca tinham explorado mais do que três ou quatro gravações”. Acredite em mim: nós varremos tudo! Há sempre mais alguma coisa.

Esse documentário foi impactante a nível profissional. Foi-o também a nível pessoal?
Partiu-me o coração, sobretudo essas gravações de Christa McAuliffe. Nós vimos em primeira mão aquilo que ela planeava fazer e o quão entusiasmada estava.

Foi o seu melhor trabalho?
Está no meu top dois. O Challenger é o melhor exemplo do formato que nós fazemos. É o mais limpo que já fizemos. É a história mais bem contada. Tudo correu sem problemas, sem grandes obstáculos. Se algum dos meus documentários for perfeito, é esse. Aliás, descobrimos que a National Geographic vai passá-lo outra vez, mas que adicionou três minutos ao final porque, ao longo do próximo ano, os astronautas da Estação Espacial Internacional vão fazer as experiências que a Christa McAuliffe deviam ter feito no espaço. Agrada-me que o documentário possa ter contribuído para esse interesse.

Mas não é o seu favorito.
Não. O meu favorito é capaz de ser o “Princess Diana:In Her Own Words”. Porque tínhamos as gravações em que a própria Diana falava com Andrew Morton. Nesse ano, houve dois documentários com o mesmo nome. Um era o nosso, para a National Geographic. E o outro era para o Channel 4, no Reino Unido. Só que, no nosso, tínhamos a princesa Diana a narrar o filme inteiro. Mais ninguém. Ninguém foi entrevistado para falar sobre como é que ela era. Criámos o filme de forma a que soasse como se a Diana se tivesse sentado connosco para nos narrar o documentário. Recolhemos imagens reais que batessem certo com as histórias que ela conta nos áudios ao Andrew Morton. Tudo ganhou vida e significado. Foi muito bem feito.

Alguma vez recebeu alguma reação da família real britânica?
Não, nunca, embora saiba de muita gente que disse que aquele documentário era o filme mais bonito sobre Diana. Nós fomos muito cuidadosos com esse filme porque… Bem, a minha mãe morreu quando eu era muito novo, por isso sei como é aquilo que o William e o Harry passaram. Não me posso por no lugar dos dois miúdos, mas queria ter a certeza que nós éramos o mais justos possíveis. Claro que somos cuidados com tudo o que fazemos, mas acho que, com esse, revimos todos cem vezes mais.

“Apollo: O Caminho para a Lua” estreou no domingo na National Geographic, mas será exibido novamente a 20 de julho — dia dos 50 anos da chegada do Homem à Lua — às 22h30. Até lá, todos os domingos às 22h30, o canal vai emitir uma programação especial dedicado ao espaço — que inclui filmes como “Apollo: De Volta à Lua”, “Neil Armstrong: Retrato de um Ícone”, “Expedição Marte” e “Missão Saturno”.