“O homem que desviou um transatlântico, sequestrou um avião e assaltou um banco sem disparar um tiro”. Foi desta forma que o El País descreveu Camilo Mortágua numa reportagem (também disponível em áudio) publicada esta quinta-feira com uma entrevista ao opositor ao Estado Novo e pai das irmãs Mortágua, deputadas do Bloco de Esquerda. O jornal espanhol abriu o baú das histórias de Camilo Mortágua, juntamente com o próprio, e contou a jornada da sua luta contra a ditadura de Salazar, incluindo os detalhes do momento em que assaltou um paquete ou quando utilizou um avião para lançar panfletos contra Salazar.

“Aos 85 anos, o ouvido já lhe falha, mas não a memória para contar as histórias de guerrilhas, agentes secretos e penúrias dos exilados, dignas de serem escritas por um John Le Carré, ainda que a imaginação nunca ultrapasse a realidade, pelo menos a de Camilo Mortágua”, começa por descrever o artigo do El País. Uma das histórias mais memoráveis de Camilo vem logo de seguida no texto: o assalto ao paquete português Santa Maria. Foi quando integrou a Junta Patriótica que, conta, “estava dominada pelo Partido Comunista que queria derrubar Salazar através do povo”, que Mortágua conheceu Henrique Galvão.

“A nossa primeira preocupação era comer, a segunda era a presença do inimigo”, descreveu. Em 1961, nascia a operação Dulcinea, que tinha um único objetivo: ocupar e desviar o paquete Santa Maria. Antes dos portugueses ocuparem o rádio do navio, conta ao jornal espanhol, ouviram-se tiros. Foi “o povo espanhol”, descreveu, referindo que teria sido mal pensado se os portugueses tivessem recorrido à violência, uma vez que “a maioria nem sequer cumpriu o serviço militar”.

Ao longo do artigo Camilo Mortágua foi contando ao detalhe este episódio, até chegar ao momento em que o objetivo passou também a ser sequestrar um avião para sobrevoar o país e lançar panfletos contra Salazar. “Para um combatente da liberdade, não há nada pior que a passividade e o adiamento constante de novas ações”, atirou. A 8 de novembro de 1961, Mortágua e mais seis portugueses assaltaram um avião em Casablanca com destino a Lisboa: os panfletos e as armas passaram sem problema nos poucos controlos de segurança na época.

A polícia marroquina queria colocar os portugueses num avião da Air France com destino a Santiago de Chile. “Começaram pelo mais pequeno, eu, mas resisti de tal forma que nos deixaram em Marrocos até que o Brasil autorizou o refúgio político”, contou. Ali permaneceu até 1965, até ir para França. É em Paris que em conjunto com outros revolucionários decide, já em 1967, vir para Portugal levar a cabo um assalto a um banco que lhes permitisse conseguir resolver o problema da falta de dinheiro para realizar novas ações que contribuíssem para o derrube do regime. Desta forma, o grupo assaltou a sucursal do Banco de Portugal da Figueira da Foz.

No final do artigo, Mortágua deixou uma reflexão sobre estes tempos: “Discutimos muito. Demoramos 50 anos, eles acreditam em coisas que eu deixei de acreditar. Digamos que tenho grandes dúvidas democráticas sobre os partidos políticos. Não é possível que a militância partidária exija a renúncia completa das suas opiniões. Se não estou de acordo, não me calo. Dediquei-me 30 anos a isso”.