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“Não é um franchising, é a nossa versão”: vem aí o musical “Chicago” encenado por Diogo Infante

É um dos mais famosos musicais de sempre e contra a história de duas bailarinas que tentam escapar da prisão. O encenador destaca a atualidade do texto. Estreia-se quarta-feira no Teatro da Trindade.

Autor
  • Bruno Horta
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O espetáculo começa com um aviso sobre aquilo que se segue: uma história de crime, ambição, corrupção, violência, abuso, adultério e traição. Uma história de humor negro, também, numa cidade violenta e corrupta, com mulheres vividas, mas muito jovens, que matam a sangue frio e procuram tornar-se celebridades para assim manipularem a justiça. “É tudo um circo de três pistas. A justiça e o mundo: tudo um espetáculo”, canta uma personagem.

“Chicago” é um dos mais famosos musicais de todos os tempos e tem agora uma versão portuguesa encenada por Diogo Infante – trágica, cómica e amoral, a apontar para a atualidade do texto no que respeita à corrupção e ao preço da fama. Estreia-se na quarta-feira, dia 11, no Teatro da Trindade, em Lisboa, e fica em cena pelo menos até 29 de dezembro, de quarta a domingo, com quase duas horas de duração. Já esta terça-feira, às 21h00, tem lugar uma “estreia solidária”, em que a receita da bilheteira, segundo os organizadores, reverte na íntegra para a Casa do Artista, instituição de solidariedade social para artistas idosos.

O projeto tem a participação da produtora Força de Produção e iniciou-se há um ano e meio. Implicou audições a que concorreram mais de 400 pessoas. Os ensaios duraram apenas seis semanas. Um “trabalho muito intensivo”, segundo o encenador, que é também programador e diretor artístico do Teatro da Trindade desde dezembro de 2017. O resultado é “um produto que, sendo português e à nossa escala, não nos envergonharia em parte nenhuma do mundo”.

Escrito, encenado e coreografado por Fred Ebb (1928-2004) e Bob Fosse (1927-1987), com música de John Kander (1927-), “Chicago” estreou-se na Broadway em 1975 e conheceu remontagens ao longo das décadas, incluindo uma de 1996, igualmente no circuito teatral nova-iorquino, que se mantém em cartaz até hoje, com digressões internacionais. O original baseia-se numa peça de 1926 da jornalista do “Chicago Tribune” Maurine Dallas Watkins e é esse original que Diogo Infante agora recria. Em 2002, deu origem a um filme homónimo, realizado por Rob Marshall, com Renée Zellweger, Catherine Zeta-Jones e Richard Gere nos papéis principais.

[vídeo promocional de “Chicago”]

“Que ninguém estivesse em esforço”

Estamos nos Loucos Anos Vinte americanos, cabarets em todas as esquinas, mulheres poderosas e violentas, o culto da fama a qualquer preço. Velma e Roxie são bailarinas da noite, detidas por homicídio e a tentar escapar à condenação. Manipulam e são manipuladas por Mama Morton, uma guarda prisional perversa, e por Billy Flynn, um advogado astuto. Gabriela Barros, Soraia Tavares, Miguel Raposo e Catarina Guerreiro dão vida a estas personagens.

Não queria um franchising do ‘Chicago’, não queria a reprodução feita na Broadway, no West End e um pouco por todo o mundo. Queria fazer a nossa versão”, explicou o encenador. “A última versão que esteve na Broadway tem direitos de autor, disseram-nos que não poderia haver qualquer semelhança com essa versão, ainda hoje em cena, e que teríamos de pegar no texto dos anos 70, com canções e diálogos que foram cortados na montagem mais recente. Isso acabou por ser uma licença para a nossa criatividade”, acrescentou.

Na semana passada, durante um ensaio para a imprensa, o espetáculo surgiu não como um objeto estridente em termos visuais e sonoros, mas como uma proposta sobretudo assente na performance dos atores, bailarinos e músicos. O cenário foi criado sobre as janelas do próprio Trindade, parte da famosa fachada do edifício, que dá para a Rua da Misericórdia. Em cena, à direita, encontrava-se uma orquestra de seis músicos, também eles personagens pontuais: piano, trombone, contrabaixo, saxofone, trompete e bateria. A tradução foi de Ana Sampaio e Rui Melo, a cenografia vem assinada por F. Ribeiro e os figurinos, por José António Tenente. Rita Spider criou a coreografia e Artur Guimarães fez a direção musical. José Raposo é o veterano do elenco e foi convidado pelo encenador, tal como Gabriela Barros e Catarina Guerreiro. Os restantes intérpretes saíram de uma concorrida audição, no início deste ano.

Aos jornalistas, depois do ensaio, o encenador falou em “afinidade pelos códigos e pelo imaginário” dos musicais e citou “Música no Coração” e “Serenata à Chuva” com referências fundamentais. No caso de “Chicago”, viu o filme e a versão da Broadway, mas ficou “desiludido com a solução cénica pobre”. “Quis que houvesse cuidado na interpretação, tendencialmente desvalorizada num musical, e pedi que ninguém estivesse em esforço, nem esforço vocal, nem esforço físico, tudo deveria ser orgânico, natural e fácil”, acrescentou Diogo Infante. “Claro que não é fácil, mas é preciso eles terem um domínio sobre o que estão a fazer”. Sublinhou ainda o gosto pessoal pelo “humor negro”, pela “crítica mordaz” e pela “provocação” contidas no texto.

Há uma leitura que é a minha”, afirmou o encenador. “Por um lado, é uma sátira a um sistema judicial, a personagem Billy Flynn manipula e contorna as leis, o que é delicioso, porque todos somos bombardeados diariamente com situações de corrupção e de como os poderosos tendem a safar-se, usando artifícios que têm à sua disposição. Por outro lado, há aqui um tema muito atrativo e muito contemporâneo que é o dos criminosos promovidos ao estatuto de estrela, tal como nos anos 1920, quando a autora escreveu a peça de teatro original. Continua a ser de enorme atualidade. Hoje há uma avidez tão grande para se ser notado, referido, mencionado, seja nas redes sociais, seja na imprensa. É um sistema perverso de que nos alimentamos.”

“Chicago” é claramente uma aposta de grande público, daí que surja como peça de abertura da temporada 2019/2020 no Teatro da Trindade. O encenador disse que desde o musical “Cabaret”, que levou a cena em 2008 no Teatro Municipal Maria Matos, quando então dirigia a sala, sempre pensou numa montagem de “Chicago” e só agora o conseguiu devido ao apoio de Sandra Faria, da Força de Produção, e dos administradores do INATEL, fundação que gere a Trindade. “Quando saí do Maria Matos, fui para o D. Maria II, que não era o sítio certo para fazer o ‘Chicago’”, referiu. “Já o ‘Cabaret’ tinha levantado a polémica sobre se um teatro municipal deveria ter tanto tempo em cena um espetáculo como aquele. Durante anos, não estive associado a nenhum teatro e nunca senti da parte de nenhuma estrutura a disponibilidade para receberem uma proposta desta natureza.”

Sem divulgar valores de investimento, Diogo Infante informou que a peça será apenas apresentada em Lisboa, mas pode prolongar-se para lá de dezembro, se houver interesse do público. “É possível produzir espetáculos de qualidade que sejam abrangentes, transversais, que cheguem ao grande público. É o que tento fazer aqui no Trindade, de resto contrariando uma lógica de carreiras cada vez mais curtas nas várias estruturas de produção neste país”, defendeu o responsável. “Não me revejo nessa linha programática, não é isso que desejo para o Trindade. Aqui temos tentado espetáculos com carreiras de longa duração.”

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