Num artigo publicado na semana passada sobre a ascensão de João Félix, por curiosidade no dia em que se comentava o póquer apontado por Cristiano Ronaldo frente à Lituânia, o The New York Times falava dos dois avançados portugueses como o passado, o presente e o futuro da Seleção Nacional. A fronteira onde está cada um agora, essa, acabou por ficar no ar – mas não é difícil de perceber onde se encontra. Entre um e outro, nenhum marcou. E mesmo percebendo-se que o peso do Rei Ronaldo é maior do que o do Príncipe Félix, como ambos são tratados na comparação, nenhum ficou a ganhar no primeiro duelo oficial.

No caso de João Félix, que depois das prometedoras exibições na pré-temporada foi fundamental na reviravolta com o Eibar que deu então a terceira vitória seguida na La Liga ao Atl. Madrid, o caminho até ao estrelato durou menos de um ano mas existe um trilho até se consolidar no topo do futebol europeu e esse choque com a realidade acabou por surgir no passado fim de semana, quando recebeu o primeiro “toque” de Simeone ao ser substituído logo aos 57 minutos na derrota com a Real Sociedad. “Foi o nosso primeiro desaire desde a pré-época, precisamos melhorar e crescer. Há jovens que têm de ganhar mais peso pois isso é sempre a base de tudo”, comentou o técnico no final. Ainda assim, sobraram elogios para o português na antecâmara da estreia na Champions, incluindo do treinador contrário Maurizio Sarri. “Perderam um jogador extraordinário que era Griezmann mas contrataram outro de grande nível”, referiu. “O João tem muita qualidade e vem de uma grande época. Vê-se que está cheio de ganas e que quer crescer. Conta com 19 anos e tem o futuro nas suas mãos”, acrescentou o companheiro Giménez.

Em contrapartida, e depois do nulo da Juventus em Florença diante da Fiorentina nos primeiros pontos perdidos pelos campeões na Serie A, a lógica foi quase inversa: aquilo que mais se comentou não foi propriamente a desinspiração do número 7 (e também ele não esteve num dia nada simpático) mas sim a incapacidade do conjunto de Sarri criar jogo para a sua principal referência no ataque, a mesma que o técnico queria ver a marcar 40 golos na presente temporada. E mesmo tendo apenas um golo marcado nos três encontros iniciais da época (Nápoles, 4-3), os números frente ao Atl. Madrid eram suficientes para colocar em sentido os colchoneros: 126 golos na Champions contra 118 dos espanhóis na prova, 25 golos em 33 confrontos diretos. “É difícil preparar um plano contra ele, é um animal do golo que soma registos tremendos”, comentou Diego Simeone.

O olhar que os dois jogadores trocaram segundos antes do início da partida foi uma espécie de chamariz para o que viria a suceder no primeiro tempo, ainda que nenhum tenha ficado melhor do que o outro: João Félix foi o mais rematador dos espanhóis mas nem por isso criou grande perigo a não ser num remate desviado por Szczesny para canto após jogada individual a galgar metros pelo corredor central (ao contrário do que acontecera no particular em Estocolmo na pré-temporada, quando marcou os dois golos da vitória), Ronaldo foi o mais rematador dos italianos mas as duas tentativas mais perigosas acabaram por ficar nas mãos do Oblak. Num encontro demasiado fechado, chegava a haver mais vida nas bancadas com os assobios ao número 7 da Juventus do que propriamente por emoção pelo que se passava em campo. Mas essa também poderia ser a melhor explicação para a forma como os transalpinos chegariam à vantagem no Wanda Metropolitano logo a abrir.

No seguimento de um corte na sua área, Bonucci arriscou o jogo direto explorando a profundidade nas costas da defesa do Atl. Madrid, Higuaín ganhou espaço na esquerda, aproveitou o arrastamento dos defesas por Ronaldo e encontrou Cuadrado para o golo da noite, num trabalho individual concluído com um fantástico remate ao ângulo de pé esquerdo (48′). Mais tarde, o português teve uma arrancada de trás com bola controlada, soltou para Alex Sandro quando os adversários diretos queriam sobretudo evitar o remate de fora da área e o brasileiro cruzou para o 2-0 de Matuidi (65′). Se o objetivo era fazer com que o número 7 não marcasse, foi cumprido… mas entretanto a Juve já ganhava de forma confortável. E o máximo que os espanhóis conseguiram nessa fase foi reduzir num lance de bola parada em zona frontal muito mal defendido pelos transalpinos, que permitiram que Giménez subisse mais alto para assistir no poste contrário o também central Savic (69′).

Tudo parecia apontar para um triunfo dos visitantes, até pela forma às vezes atabalhoada como o Atl. Madrid tentava chegar ao empate, até que entrou Herrera para uma estreia que tão cedo não esquecerá: em mais uma bola parada, neste caso um canto, o mexicano conseguiu o empate em cima do minuto 90 e fixou o resultado que ficou a centímetros de voltar a mexer quando já nos descontos Ronaldo passou por uma série de adversários e rematou de pé esquerdo cruzado a rasar o poste de Oblak.