Título: Entre Viagens. A história suspensa do fotógrafo Júlio Siza
Autora e editora: Teresa Siza
Colaborações: Álvaro Siza, Maria do Carmo Serén
Design: Andrew Howard
Páginas: 248, ilustradas, hardcover
Livraria depositária: STET livros & fotografia (Lisboa)
Preço: 35 €

Muito depois de ter fundado e dirigido, de 1997 a 2007, o Centro Português de Fotografia — hoje uma ínfima sombra de si mesmo, sem que este desastre escandalize ou incomode responsáveis políticos e os meios ditos culturais que temos —, Teresa Siza (1948-) vem fazer o que, talvez por pudor ou prudente cautela, não prosseguiu durante o desempenho daquelas funções primordiais. O mesmo é dizer que, para todos os muitos que não conhecem ou conheciam a sua história familiar profundamente ligada aos primórdios ilustres da fotografia portuguesa, este álbum agora produzido em modo de auto-edição e com circulação livreira especializada e reduzida vem constituir uma surpresa enorme, tanto mais que a carreira profissional do seu bisavô Júlio Augusto Siza (1841-1919) se fez em larga medida em territórios ultramarinos: Belém do Pará, Amazonas, Brasil; Demerara, Guiana Britânica; e — a meio caminho — Funchal, ilha da Madeira. O centenário da sua morte parece ter sido escolhido como ocasião simbólica para esta edição, muito embora, a avaliar pela data do breve prefácio memorialístico do arquitecto Álvaro Siza Vieira (Janeiro de 2008), ela possa ter sido projectada desde a saída de sua irmã do CPF, sediado na Cadeia da Relação do Porto.

O invulgaríssimo raio de acção da sua casa fotográfica tem contornos de aventura lendária e heróica, todavia está bem vinculada ao concreto da vida de diásporas típicas do seu tempo histórico, quando grossos contingentes de emigrantes europeus e asiáticos em busca de melhor sorte — ou de sorte digna desse nome — se deslocaram para vários pontos do continente americano, tornando-os quase extensões físicas e humanas dos lugares de partida. Não admira, por isso, que os negócios de Júlio Siza no ramo dos serviços fotográficos tenham crescido a olhos vistos nos prósperos ambientes em que se fixou. O seu aguçadíssimo sentido da oportunidade comercial encontrava em meios socialmente promovidos clientela interessada em fazer-se representar em demonstrações vívidas de estatuto superior, quer em cartes de visite quer em bilhetes-postais ou álbuns fotográficos de pequena e média dimensão com vistas de meios urbanos tropicais em notória expansão construtiva e viária onde antes, aparentemente, muito pouco haveria ou poderia haver.

Patentada havia poucas décadas e em acelerado progresso técnico e químico, nada como a fotografia — e a sua mobilidade fácil, tantas vezes posta em destaque pelos historiadores dela — conseguiria comprovar o sucesso pessoal de emigrantes ou a escala de viajantes marítimos ou terrestres, e a instalação de estúdios em cidades portuárias activíssimas multiplicava rapidamente a conta bancária de fotográficos “andarilhos” (p. 19) ou “aventureiros” (p. 9), também eles seduzidos por eldorados em voga. Eram evoluções sincronizadas, como na natação artística. Maria do Carmo Serén não tem dúvidas de que Júlio Siza se moveu desde cedo com ambição e inquietude: cinco anos depois de, em 1879, ouro ter sido descoberto na Guiana Britânica, instalou-se lá, aproveitando contactos tidos na Madeira, onde vivia e trabalhava; e em 1897 transferiu para Belém do Pará o seu estúdio, quando o ciclo da borracha e a famosa opulência que ela criou atraiu até à bacia do “máximo rio” Amazonas nada menos do que 1 200 000 emigrantes, o maior contingente desde o fim oficioso da escravatura, uma década antes.

Júlio Augusto Siza nasceu algures no distrito de Braga, saindo da roda de expostos da Sé para os braços de Ana Siza e de Manuel António Alves Costa (ou António Manuel, pois os registos divergem), que o criaram até que documentos biográficos atestam o seu casamento no Porto, em 1865 — tinha 23 anos e era já fotógrafo de profissão. É apenas uma hipótese, mas o seu futuro cunhado, o fotógrafo portuense Henrique Teixeira Nunes, tivera negócios em Braga; o sogro, Thomaz Teixeira Nunes, era carcereiro da Cadeia da Relação desde 1862, onde a noiva, Laurentina Augusta Nunes, residia com o pai, viúvo. Henrique era profissional cotado (ganhara o prestigioso título de “fotógrafo da Casa Real”), fizera a campanha fotográfica da construção do Palácio de Cristal (1864-65), tinha sido sócio de Miguel Novães no Porto e colaborador da famosa Casa Fillon, em Lisboa; os seus negócios estendiam-se até ao Brasil e ele próprio era presença assídua em certames profissionais onde as novidades da indústria fotográfica eram vistas em primeira mão. Júlio já vivia em Lisboa, nos estúdios da antiga Casa Fillon — Rua das Chagas, 9 — e nas ausências habituais do cunhado ganhou cada vez maior calo como operador fotográfico. Em 1877-79 estará a trabalhar na Casa Fritz, e desta transita directamente para o Estúdio Camacho, havia pouco instalado na Rua Nova do Almada. Em 1878 a sua mulher morrera, depois de uma série contínua de oito partos (e apenas três filhos sobreviventes) em treze anos de casamento.

Considerável mudança profissional ocorre em 1881, quando Augusto Camacho o coloca à cabeça da casa-mãe, no Funchal, após reabilitação do estúdio devastado pelo fogo um ano antes. Contudo, em Novembro do ano seguinte, Siza encontra-se já na direcção do concorrente — entre outros — Estúdio Vicente (fundado em 1862), também ele renovado e reabilitado. Na p. 26 o fotógrafo aparece-nos num auto-retrato em albumina — claramente a sua preferência técnica —, elegantemente vestido, sentado no banco de jardim do seu novo estúdio, corrente de relógio de bolso, grosso anel no dedo mindinho e botim assente sobre pedra cinzelada convenientemente colocada para o efeito. Tinha 40 anos, era sócio de Vicente Gomes da Silva (o que incluía os estabelecimentos de Lisboa e Porto), proprietário arrendatário de alguns prédios na capital madeirense, e destacado militante republicano do Club Washington.

Mas não lhe chegava: dois anos depois, em 1884, parte para a Guiana Inglesa para fundar em Georgetown a Photographia Lusitana de Siza & Mendes, “em sociedade com um rico negociante da colónia” (p. 28), e três anos a Lusitânia Photographic Art Gallery. A exploração mineira de bauxite por abundante mão-de-obra indiana e chinesa, acelerada pelo progresso técnico na produção de alumínio, tornara-se “fundamental no império britânico” (p. 38). Trabalhos seus, admiráveis vistas ou edifícios públicos e comerciais de Georgetown, serão premiados nos Estados Unidos e na Inglaterra, e estão ainda hoje em colecções destacadas nesses países, como valiosos documentos históricos. Mas há também belíssimas fotografias do interior da floresta, de aldeamentos indígenas, de garimpeiros chineses de ouro (pp. 121, 124), de frutas e flores tropicais, e de largas avenidas ladeadas por palmeiras altas.

Casa em segundas núpcias com Guilhermina Alves da Silva, antiga empregada familiar que no Funchal cuidara de sua filha Júlia  — a avó de Teresa e Álvaro —, e chama até si os seus filhos Henrique e Manoel, formando uma dinastia profissional que se esticaria até Barbados e Paramaribo — mas também, como já se sabe, a Belém do Pará, onde em Maio de 1897 funda a Photographia Amazónia, que concorrerá com casas da especialidade há muito estabelecidas na região. Além dos retratos de estúdio (incluindo uma série familiar, com filhos e netos — e vejam-se os dois magníficos Adão e Eva no Paraíso, p. 185), dedica-se com enorme sucesso à produção de bilhetes-postais de vistas de Belém e de Manaus, onde se crê também possa ter tido um estúdio fotográfico (Serén, p. 45).

Este novo ciclo empresarial e comercial durará treze anos, entre viagens comerciais à Madeira e de representação a Paris, por ocasião de grandes feiras universais. Júlio Siza não voltará a ganhar os prémios — e os correspondentes reconhecimento artístico e impulso comercial — que recolhera em Chicago e Londres, do mesmo modo que o contraste entre virtudes e fraquezas de dois ambientes tropicais em expansão económica e urbana fulgurante — e contemporânea — saltam à vista nas imagens que um mesmo fotógrafo captou ao longo de permanência demorada nos respectivos territórios. Às imagens de grandes e vigorosas estruturas do assentamento colonial britânico em Georgetown vão corresponder, na brasileira Belém, as de edifícios públicos modestos, momentos de ócio em lagos e bosques urbanos ou de embarque portuário, estreitas ruas comerciais e alamedas sem brilho, o exibicionismo de uma família em charrete movida a cavalo branco e condutor negro de cartola (p. 171) — e a própria pacatez doméstica, em que filhos fazem trabalhos escolares, pai lê e mulher borda (p. 192).

Júlio Siza acabaria por voltar a Portugal em 1910, e embora Maria do Carmo Serén sublinhe amiúde o seu muito intrincado republicanismo — até no anedótico “Casaram no Funchal a 5 de Outubro de 1885, uma data premonitória para o republicanismo” (p. 38) —, a verdade é que, nos nove anos que ainda viveu, não fotografou o novo e supostamente hiper-radiante regime. Ou tais imagens não são conhecidas ou reveladas, ou ele simplesmente, sensatamente, não achou motivos para isso.