O Banco Central Europeu anunciou esta quinta-feira mais um corte da taxa de juro dos depósitos, em 10 pontos-base, para um valor ainda mais negativo (0,5%) e vai, também, ser reiniciado o plano de compras de dívida nos mercados, a um ritmo de 20 mil milhões por mês — uma iniciativa que não foi submetida a votação no conselho do BCE, que inclui membros que nos últimos dias manifestaram publicamente discordância em relação a esta proposta.

Poucas horas depois, a Bloomberg contava os bastidores de uma “revolta sem precedente” e uma reunião “fracturante”, revelando que o governador do Banco Central francês, Francois Villeroy juntou aos banqueiros da linha mais dura, o alemão e o holandês, na oposição às medidas anunciadas por Draghi. Em particular defenderam que era demasiado cedo para a retoma do programa de compra de ativos em mercado.

Os três governadores são de três países que representam cerca de metade da população que vive na zona euro. E segundo a agência financeira, não foram os únicos a levantar reservas. Também dois membros executivos do BCE o fizeram. A Bloomberg diz que este nível de divergências nunca foi visto durante a presidência de Draghi que em outubro vai ceder o seu lugar a Christine Lagarde.

As taxas de juro vão continuar nestes níveis, “ou mais baixos”, até que as expectativas de inflação “convirjam de forma robusta” com o objetivo do banco central, que é de “abaixo, mas perto de 2%”, indicou o BCE, no comunicado colocado no site oficial às 12h45 desta quinta-feira.

Os anúncios correspondem à expectativa dos analistas, embora alguns até admitissem que o Banco Central Europeu (BCE) pudesse ser mais audaz: baixando os juros dos depósitos para -0,6% e avançando com o plano de intervenção a um ritmo de 30 mil milhões. Mas a decisão foi no sentido de 20 mil milhões, embora sem data para terminar: o BCE diz apenas que as compras de dívida vão continuar “enquanto forem necessárias” para “reforçar o impacto acomodatício” das taxas de juro — além disso, indica-se que este novo programa de compras de dívida deverá terminar “pouco tempo antes de o BCE começar a subir as taxas de juro”.

Por outro lado, ao cortar a taxa de juro dos depósitos, como se previa, o BCE anunciou que vai introduzir um sistema segmentado, para tentar mitigar o impacto sobre os bancos desta decisão — o BCE diz que é para “apoiar a transmissão da política monetária”. Na prática, esta nova taxa de juro não será aplicada sobre todas as reservas que os bancos “estacionam” no BCE, mas só a partir de determinada fasquia.

O corte da taxa de juro não se refere à taxa de juro diretora — aquela que, em termos simples, define a taxa que os bancos têm de pagar pela liquidez que vão buscar ao BCE. Essa taxa está há mais de três anos em 0% e lá deverá continuar no futuro próximo. A alteração surge na taxa de juro que, num sinal dos tempos, se tornou a principal ferramenta de política monetária: a taxa dos depósitos — ou seja, aquela que define quanto é que os bancos recebem quando “estacionam” excessos (regulamentares) de liquidez no banco central.

Como essa taxa está fixada num nível negativo, os bancos não recebem, pagam. Essa taxa passa para -0,5%, o que tenderá a fazer baixar ainda mais várias taxas de mercado, desde as Euribor (que indexam as prestações de crédito à habitação de muitos portugueses) até, por exemplo, a taxa de juro da dívida pública de vários países (até de Portugal).

Logo a seguir ao anúncio da decisão, as taxas de juro de Itália afundaram mais de 20 pontos-base:

Na conferência de imprensa do BCE, em Frankfurt, Draghi anunciou uma revisão em baixa das previsões de crescimento na zona euro, tanto para 2019 como para 2020 — 1,1% e 1,2%, respetivamente, são as novas projeções (eram 1,2% e 1,4%). O presidente do BCE reconheceu que os riscos destas previsões tendem a pender para o lado negativo, ou seja, há maior risco de que as projeções falhem por serem demasiado generosas do que o contrário.

Continuamos a achar que a probabilidade de uma recessão na zona euro é pequena, mas subiu”, atirou Draghi.

“Super Mario”, que abandona o cargo no final do próximo mês de outubro, aproveitou para dizer que a recuperação que a zona euro registou se deveu, sobretudo, à ação do BCE — nesta fase, porém, é necessário que a política orçamental entre em cena, num desafio direto a que os países que têm margem para isso decidam avançar com planos de estímulo público. Na opinião de Draghi, isso pode fazer toda a diferença — e noutros países com política monetária comparável tornou-se claro como um papel mais “ativo” da política orçamental foi muito importante para estimular a economia e a inflação.

Houve “unanimidade” no Conselho do BCE em relação à importância de a política orçamental se transforme no “principal instrumento” de estímulo económico, e não a política monetária, diz Draghi. O italiano adiantou, também, que não houve uma votação sobre se se deveria avançar para as compras de dívida, porque havia uma “maioria tão significativa” que nem foi preciso, afiançou o presidente do BCE.

Do outro lado do Atlântico, o Presidente norte-americano comentou o anúncio do BCE aproveitando para criticar a Reserva Federal dos EUA por não fazer o mesmo. Na análise de Trump, na zona euro “eles estão a tentar, com sucesso, depreciar o euro face ao dólar MUITO forte” — ao passo que a Fed está “sentada, sentada, sentada”.

“Nós temos um mandato. Nós temos um objetivo de estabilidade monetária. E não temos como objetivo atingir fasquias no mercado cambial. Ponto”, respondeu Draghi, questionado por uma jornalista sobre o tweet de Donald Trump.

Atualizado às 20.00 com notícias sobre divergências entre os governadores centrais.