Houve já um tempo mais simples, mais calmo e mais sensato em que, no cinema, na banda desenhada e na literatura popular, os heróis eram heróis e os vilões eram vilões, sem ambiguidades, meias-tintas, estados de alma ou dores existenciais. Mas os tempos mudaram muito e complicaram-se ainda mais. Hoje, os heróis são desmitificados, desconstruídos e virados do avesso, até serem despidos da sua natureza original, e os vilões passaram a ter “histórias” que os explicam, definem e até justificam o que são e como se comportam. É precisamente o que acontece em “Joker”, de Todd Phillips, onde o escarninho vilão de Gotham City e arqui-inimigo de Batman já não é uma personagem secundária de uma aventura deste. Foi promovido a figura principal, a atração única, e é o alvo das atenções gerais.

[Veja o “trailer” de “Joker”: ]

Se há uma canção que falta na banda sonora de “Joker”, é “Sympathy for the Devil”, dos Rolling Stones. Aliás, se Todd Phillips a tivesse escolhido como canção-tema do filme, tinha-lhe assentado na perfeição. Porque é isso que o realizador faz aqui: pede a nossa simpatia, a nossa compreensão, a nossa comiseração para o vilão do título, ao longo das penosas, redundantes e rebarbativas duas horas que o filme dura. O Joker que Joaquin Phoenix interpreta é esse lugar-comum cansado mas persistente da sociologia de pacotinho, esse “cliché” barbudo da vulgata da piedade desculpabilizadora: a “vítima da sociedade”.

[Veja uma entrevista com Joaquin Phoenix:]

No universo deste “Joker” (as histórias de super-heróis agora têm mais “universos” do que um formigueiro tem formigas), estamos em Gotham City, no início dos anos 80, uma cidade em crise económica e social, onde a qualquer momento pode haver motins nas ruas. Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) é a imagem acabada do pobre diabo. Trabalha como palhaço mas não dá vontade de rir a ninguém, quer ser cómico de “stand up” mas tem tanta graça como uma viola num enterro, já esteve internado num hospício e sofre de uma condição mental que de repente o faz gargalhar como uma hiena, e vive com a mãe doente num pardieiro de um bairro degradado.

[Veja uma entrevista com Todd Phillips:]

E não ficamos por aqui. Fleck perde o direito aos benefícios sociais devido a cortes no orçamento municipal, é gozado na televisão depois da sua desastrosa atuação num clube de comédia ter sido gravada em vídeo e descobre coisas horríveis sobre a sua infância e a sua mãe. A cereja no topo deste bolo de desgraça é posta pelo brutal milionário Thomas Wayne, pai do futuro Batman, que o trata com duas pedras na mão quando um dia se cruzam. Como Fleck diz a certa altura, “Nunca fui feliz nem por um minuto da porra da minha vida”. É Todd Phillips a sublinhar a marcador fluorescente o que já percebemos muito antes. Arthur Fleck é o palhaço trágico, o homem que tenta ganhar a vida a fazer rir mas é um poço sem fundo de tristeza e desespero por dentro. “Joker” rebola-se na vitimização miserabilista, deleita-se na pornografia da desgraça.

[Veja imagens da rodagem:]

Podia dar a Fleck para enfiar um tiro na cabeça. Mas dá-lhe para começar aos tiros aos outros (de reparar que o filme até sugere que todas as suas vítimas “merecem” o que lhes acontece, porque o maltrataram ou humilharam — ver a personagem de Robert De Niro — ou a outras pessoas) quando a sua desdita crónica e a sua instabilidade mental se metaformoseiam em demência criminosa, e Todd Phillips faz uma ligação tudo menos subtil entre a crescente instabilidade do protagonista, que rebenta em violência vingadora, e o mal-estar social em Gotham, que explode em motins, pilhagens e assassínios. E de que o Joker, agora já devidamente maquilhado e uniformizado, se torna na bandeira, no símbolo e no líder, já que Arthur Fleck é tão vítima dos “poderosos”, do “sistema” e de uma abstrata mas sempre conveniente injustiça global, como aqueles que estão nas ruas a protestar e depredar.

[Veja todos os Jokers do cinema e da televisão:]

O Joker de Jack Nicholson era um histrião maligno e o de Heath Ledger um niilista diabólico. O Joker de Joaquin Phoenix não passa de um assassino psicopata com carteirinha de oprimido social. Phoenix, ator de bons recursos quando tem uma mão a dirigi-lo, mas formidável cabotino quando o deixam à solta (e foi o caso), personifica Arthur Fleck no melhor estilo da Escola Sean Penn de Representação: é um catálogo ambulante de caretas, tiques, contorções e risos nervosos e convulsivos, que vai desaguar num Joker muito menos ameaçador do que patético. O filme é banalmente realizado por Phillips, que abusa do estereótipo visual e dramático do negrume generalizado, não tem a menor capacidade de síntese e repete-se grosseiramente. “Joker” é primário, repetitivo, demagógico e queixinhas.