Não há filmes de super heróis sem vilões. Um não vive sem o outro. A esperança contra o medo. A luz contra a escuridão. A vida contra a morte. A verruga contra os dentes perfeitos. Se os Vingadores não tivessem maus da fita vindos do espaço, não passariam de um grupo estranho de pessoas que adora demasiado o Carnaval. O Homem Aranha, um puto que inventa desculpas para não ir à escola porque adora fazer parkour. O Wolverine, um vagabundo que ainda acha que usar patilhas é boa ideia, ao mesmo tempo que tem lâminas que lhe saem das mãos, só para não perder tempo quando cozinha. Com vilões, todos eles tornam-se mais fortes, credíveis e adorados. Principalmente porque ganham no fim. São as regras do jogo, é assim, este universo funciona como uma balança onde, já que na vida real o mal vai ganhando, na ficção o bem pode levar o caneco.

Mas há uma personagem que anda a contrariar esse destino há praticamente oitenta anos e com uma legião de fãs a segui-lo. Primeiro na banda desenhada, depois no cinema, nas séries de animação e nos videojogos. Falamos de Joker que, esta semana, dia 3 de outubro, regressa ao cinema, depois de uma aparição suicida — e excessivamente quitada — em “Suicide Squad” (2016), onde Jared Leto tentou tanto, mas tentou tanto ser “do método”, que acabou por meter o “Príncipe Palhaço do Crime” numa versão que podia muito bem sair da saga “Fast and Furious”. O legado de Heath Ledger — que deu corpo a este vilão no “The Dark Night” (2008) do Christopher Nolan — parece ter deixado uma sina a qualquer um que se atreva a interpretá-lo. E antes de Heath, veio Jack Nicholson, no filme de Tim Burton. Pegar outra vez neste papel é como vir a seguir ao Messi e ao Ronaldo. Mas no novo filme, realizado por Todd Phillips, o papel é de Joaquin Phoenix e só isso, à partida, garante a qualidade. Isso e o Leão de Ouro que o filme conquistou no Festival de Veneza.

Este ano há uma nova esperança. E podemos já adiantar uma certeza, polémicas à parte (que nos EUA têm levantado a questão habitual que pergunta “este filme é um incitamento à violência?”): quer “Joker” seja um filme bom ou não, o protagonista é o melhor vilão de sempre. E porquê? Porque não tem motivações? Porque é imprevisível? Porque tem várias origens? Porque usa a comédia como ninguém? Porque não tem super poderes? Porque dá a ideia de que qualquer um de nós se pode transformar num, especialmente nas filas para a Segurança Social? A ver vamos. O Observador lança as cartas de um baralho onde o bobo é o rei.

[o trailer de “Joker”:]

Um palhaço que é tudo menos palhaço

Muita gente tem medo de palhaços. Diz a psicologia que tudo isto se explica facilmente: o ser humano olha para aquela cara fantasiosa e, como o cérebro não reconhece o que é, fica com medo. Ou então ficamos a rir-nos daquela figura. Com Joker não. Temos de o levar a sério. Este palhaço não sai de um carro pequeno com mais uma dúzia deles, não deita água de uma flor artificial nem faz balões em forma de cachorro. Nem rapta crianças em esgotos (Pennywise, olá, deixa-te estar). Não. Joker, não é assustador. É antes desconcertante, inteligente, mas continua a ser uma pessoa… achamos nós. Reprovamos o que faz, não queremos ser como ele, tapamos a cara quando lemos os crimes que cometeu mas… deixamos os dedos entreabertos porque, no fundo, somos todos voyeuristas. No fundo, queremos ver mais. E agora é melhor parar, como as coisas andam, principalmente nas redes sociais, ainda alguém se lembra de criar uma seita à volta da personagem. Se é que já não existe. Porque não se esqueçam: este homem só quer ver o mundo a arder.

Só este vilão poderia ganhar um Leão de Ouro

Uma pessoa pensa em Veneza e só se lembra de imagens de instagram bonitas, de barcos a vaguear por aqueles canais ao fim do dia, ou de Rosa Mota a ganhar um corta mato aos 61 anos. Não é, portanto, sítio recomendado para espalhar o terror. Menos para o “Joker”, que depois de ganhar o Leão de Ouro, tornou-se no primeiro filme de super-heróis (ou derivado de) a fazê-lo. Melhor ainda? É que neste filme não há bons da fita e este feito já ninguém lhe tira. E tudo sem ter nenhum super poder. Só o da dança (pelo que vimos pelo trailer…).

Heath Ledger

Heath Ledger. Heath Ledger. Heath Ledger. Heath Ledger. Heath Ledger. Heath Ledger. Heath Ledger.Heath Ledger. Heath Ledger. Obrigado.

“You complete me”. Joker é um romântico

Esta frase podia ter sido tirada de uma comédia romântica, certo? Pois, mas não foi. Mas já lá vamos. Geralmente, o vilão quer sempre acabar com o super herói, ou, pelo menos, dizimar a população inteira, com o bom da fita enfiado lá para o meio. É o caso de Thanos (“Avengers: End Game”), por exemplo, que, além de querer acabar com a grupeta liderada pelo Iron Man, quer também “limpar” o planeta Terra, qual Hitler das galáxias. Ou então Voldemort, que  passou oito filmes inteiros a tentar livrar-se do Harry Potter, porque (spoiler alert), mais tarde, percebeu que só um podia existir. Ora, Joker veio baralhar essa narrativa. A personagem da DC Comics, criada por Bill Finger, Bob Kane e Jerry Robinson nos anos 40, nunca quer verdadeiramente matar o Batman, porque: 1) é obcecado por ele 2) porque “o completa”, como o próprio diz (“The Dark Night”) 3) porque são, no fundo, duas almas obscuras e perturbadas. Joker quer levar o seu inimigo ao limite, porque só assim é que o vai conseguir quebrar. A única regra do homem morcego é não matar ninguém. E se matar o seu maior adversário, lá se vai o sentido moral, os códigos de ética, ganha a anarquia, ganha o mal, adeus justiça, adeus democracia, adeus sociedade moderna, adeus filas de espera. Mas atenção, a tal morte já aconteceu, por exemplo, na novela gráfica de Alan Moore, “Batman: The Killing Joke” (1988).

Excerto de “The Killing Joke”

A sua origem é também um caos

Teríamos de encher a homepage do Observador para explicar as várias origens desta personagem. Ou foi um comediante falhado que precisa de pagar as contas em casa e, por ser um comediante falhado, decide infernizar a vida de Gotham (esta é, em parte, a narrativa escolhida para o novo filme). Ou trabalhava num laboratório e, como nunca receberam visitas da ASAE, acaba por cair num caldeirão cheio de químicos. Ou foi ele que matou os pais do Batman. Ou já foi outro vilão, o Red Hood, que, curiosamente, também caiu num caldeirão. Ou foi torturado pelo pai. Ou já era mau em criança e acabou a incendiar os pais. Só sabemos que nada sabemos, nem mesmo o nome verdadeiro. A única certeza é que continua a ressuscitar. E que é maluco. Quer dizer, ou não. Na banda desenhada “In Arkham Asylum: A Serious House on Serious Earth” (1989), é dito que Joker sofre de super sanidade, moldando a sua personalidade a cada dia que passa.  Mas isso também não é ser maluco? Que confusão. Um verdadeiro caos. Queremos mais.

A única certeza é que a inspiração para esta personagem vem do romance de Vitor Hugo, O Homem que Ri, que depois deu um filme mudo. Conta a história de um homem que, graças a uma cirurgia, ficou com um sorriso constante na cara. Não sendo ideal, até dava jeito nas filas de trânsito. Mas esta inspiração traz outra garantia: este vilão é também intelectual, por isso, qualquer dia, ainda acaba numa exposição neosurrealista na Gulbenkian. Ou num ciclo da Cinemateca. Ou com homenagem na Feira do Livro apresentada pelo Eduardo Lourenço.

Joker ganhava qualquer concurso de stand up por cá

Esta é a mais fácil de justificar e o novo filme pode bem deitá-la abaixo, já que a crítica internacional destaca que este Joker é tudo menos cómico. Mas, enquanto não virmos o filme, mais vale justificar. Sim, de facto, existem muitos vilões que usam e abusam da comédia para inferiorizar quem lhes aparece à frente, qual bully da escola. De Scar (“Rei Leão”) a Palpatine (“Guerra das Estrelas”), até passando por Sideshow Bob (“Simpsons”), todos eles se riem às gargalhadas quando enfraquecem o seu némesis. Menos Darth Vader: com aquela rouquidão robótica, talvez levasse o prémio para casa. “Luke, eu sou o teu pai [pausa] estou a brincar. Ah. Ah. Ah.”. Adiante.

Mas Joker não se limita só a rir, não. Ele podia muito bem ser um qualquer comediante que ia ao “Levanta-te e Ri”, deixar a audiência a chorar a rir e, provavelmente, a corar de vergonha. Ou de morte porque, enfim, continua a ser um vilão que comete crimes gravíssimos mas sempre com a punchline na ponta da língua. Ri-se quando é agredido, goza com as suas vítimas enquanto as tortura (que o diga o Robin, torturado uma série de vezes nas bandas desenhadas), e até consegue fazer com que Batman se ria de uma piada dele. Digam-me lá outro vilão que tenha feito o mesmo. Digam-me um! Um!

Já no cinema cinema, basta olhar para a versão de Jack Nicholson (1989), ou Jack Napier, um gangster sem qualquer veia humorística, que cai num caldeirão de químicos, e renasce com uma mão cheia de boas piadas. “Jack? Não, esse morreu, chama-me Joker. Sou muito mais feliz assim” [segue-se um riso maléfico enquanto mata o mafioso que o traiu].

Um outfit que nunca sai de moda

O casaco roxo que parece ter sido comprado numa loja de coisas vintage, o cabelo verde com laca de três semanas, a maquilhagem esborratada, o batom vermelho mal pintado. Um conjunto que parece saído de uma má noite da Moda Lisboa, transformou-se num outfit que nunca sairia de moda. É ir a Torres Vedras e perceber que os dedos nas mãos não chegam para contar quantas pessoas decidem encarnar este vilão. E sim, olhando para todas as versões, as roupas mudaram um pouco ao longo dos anos, mas não assim tanto. Está lá tudo. O suficiente para sentirmos a insanidade, o quanto baste para não termos medo dele, qual palhaço do circo.

Basta olhar para a versão de Cesar Romero (1966-1968) e do Batman da altura, naquela que foi a primeira vez desta dupla na televisão. O primeiro, apesar de ter um ar bastante mais galhofeiro (e de o ser, também) que as versões mais recentes, continua cheio de classe — mesmo tendo pintado o bigode. Sim, olhe outra vez para a imagem, vai perceber. O segundo foi nitidamente vestido pela mãe que, já agora, também fez o fato do Robin.

Batman e Robin em 1966

Ah, e claro, Jared Leto, outra vez. Pedimos desculpa. A equipa de guarda roupa desse filme deve ter tido demasiadas noites loucas. Tatuagens, platina nos dentes e cabelo lambido. Tudo errado aqui.

Jared Leto como Joker em 2016

Mark Hamill, Luke SkyJoker

Se escrever o nome deste ator vai logo perceber quem é. Sim, o Luke Skywalker é o Joker do mundo virtual e da animação (“Batman: The Animated Series”, 1992-95). E, já agora, o Chucky. Quem diria? Era como se descobríssemos agora que Ruy de Carvalho foi, afinal, o mestre por detrás de todos os crimes cometidos na série “Inspector Max”.

A rouquidão de Mark dá-lhe a maldade, o tom faz lembrar uma criança que está sempre a jogar à apanhada, a interpretação recorda-nos aquele tio que nos esfrega a cabeça quando o revemos no jantar de Natal. Mas não se deixe enganar, se tentasse dar um rebuçado a este “jovem”, podia acabar sem o braço. Ou sem o escalpe.

Tem mais pinta do que o Batman

Esta razão é, talvez, a mais controversa. Mas, convenhamos, entre um vilão que mostra sempre ao que vem e um homem que se esconde atrás de uma máscara pontiaguda, a escolha é óbvia. O Batman só é assim porque é milionário. E mesmo assim, tem sempre de perseguir o palhaço. E mesmo assim, nunca o vimos a dormir como um morcego. Ou seja, se algum dia quiser ser um vilão com estilo (mas só para o estilo, atenção, esqueça lá as ideias maquiavélicas), sai-lhe mais barato a primeira opção. É que arranjar um batmobile hoje em dia, nem em terceira mão. Já a batcave, bom, é ir ao OLX, que é capaz de arranjar um rés-do-chão a 800 euros.

Hoje podia ser um troll da internet ou o presidente dos EUA

Num dos episódios da série “Gotham” esta personagem acaba por morrer. Nos momentos finais, vemos algumas pessoas a olhar para a televisão, desatando a rir. O corpo deixa de existir, mas o espírito fica. Agora imaginem que esse espírito vivia nas redes sociais. E que se tornava num troll da internet, sempre a gozar com tudo e todos, com a tecla CAPS LOCK encravada, só pelo puro prazer de o poder fazer. E vai que esse troll ganhava a presidência dos Estados Unidos, com o lema “Vamos fazer da América Uma Piada Outra Vez”? Podíamos estar a falar de Donald Trump, mas estamos a falar de Joker.