No ano passado, na sequência de um escândalo sexual envolvendo o marido da escritora Katarina Frostenson, membro da Academia Sueca, foi decidido que o Prémio Nobel da Literatura não seria atribuído. Não foi a primeira vez que o galardão ficou por entregar, mas foi a primeira vez que isso aconteceu por causa de uma polémica, tão grave que o presidente da Fundação Nobel, Carl-Henrik Heldin, declarou que se tinha perdido toda a credibilidade. Heldin anunciou, também na altura, que seria levada a cabo uma “reforma” e que a “estrutura organizacional” passaria a contar com “uma maior abertura ao exterior”.

Para compensar a suspensão do mais alto prémio literário em 2018, a Fundação Nobel anunciou que, este ano, seriam galardoados dois autores e não um, uma decisão inédita. À medida que a data do anúncio se aproxima (esta quinta-feira, pela hora de almoço), tem surgido na imprensa internacional listas de possíveis vencedores — ainda que, como apontaram os críticos do The New York Times, tentar adivinhar quem vencerá o Nobel da Literatura é mais ou menos como tentar decifrar uma charada. Entre os favoritos deste ano contam-se a canadiana Anne Carson, a francesa Maryse Condé e a polaca Olga Tokarczuk, mulheres que conseguiram vingar num mundo que ainda é predominantemente masculino. As apostas raramente estão certas (quem é que diria que Bob Dylan ganharia em 2016?), mas parece existir a crença mais ou menos generalizada de que, entre os felizes contemplados desta quinta-feira, estará pelo menos uma mulher.

A atribuição do Prémio Nobel a uma mulher é um momento raro. Basta olhar para as estatísticas. Desde a sua criação, em 1901, foram premiados 908 indivíduos e 27 organizações. Destes, 51 eram mulheres. Apenas uma, Marie Curie, recebeu dois prémios Nobel, o da Física e da Química, nos anos de 1903 e 1911. Na literatura, até 2017, foram galardoados 114 autores, dos quais 14 eram mulheres. Foi a sueca Selma Lagerlöf que abriu o caminho. Há 110 anos, a escritora quebrou com uma linha ininterrupta de homens vencedores e recebeu, não sem polémica, o Prémio Nobel da Literatura. Um feito que só voltaria a ser repetido 19 anos depois, pela italiana Grazia Deledda.

O difícil caminho até ao Nobel

Selma Lagerlöf nasceu a 20 de novembro de 1858, em Mårbacka, junto à fronteira da Suécia com a Noruega. Aos três anos, ficou parcialmente paralisada da cintura para baixo devido a um problema na anca, acabando por recuperar. Leitora ávida, começou a escrever poesia na infância, com o incentivo da avó, que lhe contava lendas e histórias fantásticas. Na adolescência, frequentou uma escola para raparigas em Estocolmo, onde estudou para ser professora, a única profissão acessível naquele tempo a uma mulher. Exerceu-a durante dez anos, dedicando-se à escrita nos tempos livres enquanto trabalhava numa escola em Landskrona. O seu primeiro livro, A Saga de Gösta Berling, foi publicado em 1891.

Quatro anos depois, mudou-se para Falun e passou a dedicar-se inteiramente à literatura. Foi nessa localidade, no centro da Suécia, que conheceu Valborg Olander, professora e sufragista que se tornou sua assistente — para grande irritação de Sophie Elkan, que costumava fazer cenas de ciúmes. Lagerlöf tinha conhecido Elkan, uma escritora sueca de origem alemã, alguns anos antes. Inseparáveis até ao final da vida, foram acompanhando criticamente o trabalho uma da outra. Elkan costumava discordar fortemente com o rumo que Lagerlöf tentava tomar nos seus livros, mas a futura Nobel viria a admitir a sua forte influência, numa altura em que não era comum tomar uma mulher como mentora, como frisou Anna-Karin Palm. “É impressionante que ela não tenha tido um mentor e que tenha sido acompanhada apenas por mulheres”, disse a autora, que está a terminar uma biografia da autora de A Saga de Gösta Berling, à rádio pública sueca. “Esta foi a primeira geração que pôde educar-se e tornar-se auto-suficiente. Elas viam-se a elas próprias como ‘as novas mulheres’. Queriam melhorar o mundo.”

Não foi apenas nisto que Lagerlöf foi pioneira. Apoiante dos primeiros movimentos feministas na Suécia, foi porta-voz ativa da Associação Nacional de Mulheres Sufragistas, tendo falado publicamente durante a abertura do congresso decorrido em Estocolmo, no verão de 1911. A escritora foi também uma das caras da campanha pelo sufrágio feminino, aprovado em maio de 1919, dez anos depois da atribuição de uma honra que era há muito merecida — o Prémio Nobel da Literatura.

Selma Lagerlöf rodeada de outros laureados, todos homens, na cerimónia do Prémio Nobel em dezembro de 1939 (GETTY IMAGES)

Selma Lagerlöf tinha 51 anos e uma lista extensa de obras publicadas quando recebeu o prémio. O seu nome já tinha sido sugerido cinco vezes, mas tinha sido sempre afastado pelo seu principal opositor na Academia Sueca, Carl David af Wirsén. Secretário do organismo durante 29 anos, Wirsén não gostava do estilo moderno de Lagerlöf. Conhecido pelas duras críticas, o seu alvo preferencial era a nova geração de autores suecos que viriam, em muitos casos, a ocupar um lugar fundamental na história da literatura e língua do país, como foi o caso de August Strindberg ou Verner von Heidenstam. No caso de Lagerlöf, havia ainda um outro problema — era mulher. Na opinião, do secretário da Academia, apenas homens deviam receber o Prémio Nobel e, de preferência, homens que ele próprio tinha sugerido. Foi exatamente isso que aconteceu durante os oito anos que antecederam a entrega do galardão à escritora.

Eventualmente, Carl David af Wirsén acabou por perder. Selma Langerlöf recebeu o Prémio Nobel da Literatura a 10 de dezembro de 1909, tornando-se assim na primeira mulher a ser galardoada. Por altura do anúncio, o júri salientou a sua “imaginação vivida”, mais evidente nas obras de inspiração folclórica em que quebrou com a tradição realista e naturalista de escritores como August Strindberg, que tinha começado a rejeitar quando estudava. Apesar disso, e como salienta o site do Nobel, é possível encontrar nos seus trabalhos descrições realistas, mas cativantes, da vida e ideais do revivalismo religioso do século XIX. 

Langerlöf voltou a romper barreiras cinco anos depois, ao ser a apontada membro da Academia Sueca. Foi a primeira mulher a ter esta oportunidade. “Ela sentiu uma grande responsabilidade por ser a primeira mulher”, disse Anna-Karin Palm. “Ela foi muitas vezes a primeira mulher em diferentes contextos, e sentiu que tinha de abrir caminho para outras mulheres nestas instituições e fundações masculinas.” E assim, graças a ela, talvez esta quinta-feira se acrescente mais uma mulher à longa história do Prémio Nobel.