Em 2015, o nome de Carli Lloyd tornou-se sinónimo de futebol feminino. Quem acompanhava a modalidade regularmente, já conhecia a capitã da seleção dos Estados Unidos, líder de uma equipa que nesse ano viajou até ao Canadá para reconquistar um Campeonato do Mundo que escapava desde 1999; quem só a conheceu nesse Mundial de 2015, ouviu já o nome de Carli Lloyd enquanto autora de um hat-trick na final contra o Japão e dona de um dos golos mais espetaculares da história da competição — masculina e feminina.

Passaram quatro anos. Lloyd esteve duas temporadas nos Houston Dash, experimentou o futebol inglês durante um empréstimo ao Manchester City e está nos Sky Blue de Nova Jérsia desde o ano passado. Pelo meio, tornou-se não só líder dentro dos relvados como fora deles, encabeçando em conjunto com várias colegas de equipa um processo colocado pelas jogadoras da seleção norte-americana à própria Federação, onde reivindicam igualdade salarial e laboral. Chegou ao Mundial do passado verão, organizado em França, com 37 anos e ainda com a braçadeira colocada. Ainda assim, sabia que o protagonismo conquistado em 2015 tinha trocado de personagem e que a estadia na Europa seria bem diferente da estadia no Canadá — independentemente do resultado final.

A jogadora de 37 anos marcou três golos na final do Mundial de 2015, no Canadá

Os Estados Unidos tornaram-se bicampeões mundiais de futebol feminino de forma algo inequívoca, ultrapassando todos os adversários até à final sem especial dificuldade e deixando bem claro que continuam a ser a maior potência a nível global, qualitativo e quantitativo. Além da reconquista do maior título da modalidade, a presença da seleção norte-americana no Mundial de França revelou-se extraordinariamente política: não só devido à proximidade temporal com o processo colocado à Federação, como também pela postura crítica e quase coletiva da equipa em relação à administração Trump. Nesse prisma, Megan Rapinoe assumiu um papel de liderança mediática e polémica e soube corresponder dentro de campo, marcando seis golos em todo o torneio (melhor marcadora em ex aequo com Ellen White e Alex Morgan) e sendo mesmo eleita a melhor jogadora do Mundial.

Escusado será dizer que, com a ascensão de Megan Rapinoe ao estatuto de líder moral e desportiva da seleção norte-americana, o papel de Carli Lloyd ficou reduzido ao de capitã quando jogava — isto porque, mais vezes do que aquilo que seria de esperar, a jogadora de 37 anos começou várias partidas no banco de suplentes. Por isto e por ser forçada a jogar mais avançada no terreno do que aquilo que lhe é natural (é normalmente média ofensiva e atuou quase sempre na posição de avançada), Lloyd saiu de França sem capacidade para estar totalmente satisfeita, mesmo com a conquista do Mundial. Esta semana, numa entrevista a um podcast da ESPN, a norte-americana não escondeu esse desconforto e revelou mesmo que viveu um período complicado nos últimos três anos.

Lloyd não escondeu a tristeza com a ex-selecionadora norte-americana, Jill Ellis, por ter sido pouco utilizada nos últimos três anos

“Não vou mentir e dourar a pílula. Foi sem qualquer dúvida o pior período da minha vida. Afetou a minha relação com meu marido, com os meus amigos. Foi mesmo o fundo do poço da minha carreira inteira. Mas, de alguma forma, vejo a luz ao fundo do túnel e posso dizer honestamente que me divirto mais a jogar agora do que alguma vez me tinha divertido. Acho que aprendi muito a passar por tudo isto”, explicou Lloyd, que mostrou ainda que não concordou com a opção da ex-selecionadora Jill Ellis — que deixou o cargo na semana passada — de a relegar para o banco. “Não há como negar. Merecia estar no relvado durante o Mundial inteiro e não estive. E acho que cresci como pessoa, como jogadora. Foi uma porcaria. Foi absolutamente uma porcaria”, concluiu.

Ainda assim, Carli Lloyd não guarda ressentimentos em relação às jogadoras que assumiram esse papel de protagonismo que ela própria perdeu — principalmente no que toca a Megan Rapinoe. “Fiquei super feliz pelas minhas colegas e feliz pela Megan, que carregou a equipa às costas. Foi ótimo de ver e fico feliz por ainda assim ter sido parte disso”, garantiu a capitã norte-americana, que apesar dos 37 anos ainda aponta a uma presença nos Jogos Olímpicos de Tóquio, no próximo verão. “Espero que chegue um selecionador que me valorize, que me respeite, que me inclua nos planos olímpicos. Não há dúvidas de que as minhas capacidades ainda existe. Eu sou capaz. Fisicamente, sou capaz. Adoraria fazer parte disso. Mas tenho de ter uma conversa aberta e honesta sobre o assunto, porque se não fizer parte desses planos, não posso passar por aquilo que passei nos últimos três anos”, acrescentou, deixando nas entrelinhas que pode abandonar a seleção caso não seja convocada para os Jogos Olímpicos ou entenda que não vai ser utilizada de forma regular.