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Um Mundial que não tem a melhor do mundo e é o mais importante de sempre. Mas porquê? /premium

O Mundial de futebol feminino arranca esta sexta-feira e está marcado pela ausência da melhor do mundo mas também pelo entusiasmo do último ano. Eis os motivos que o tornam o mais importante de sempre

Imagine-se um Campeonato do Mundo sem Cristiano Ronaldo. Ou sem Lionel Messi. Não porque Portugal ou Argentina não se qualificassem: mas porque os próprios jogadores recusaram ser convocados para as respetivas seleções. Imagine-se depois uma seleção nacional que processa a própria Federação apenas três meses antes de um Mundial. Imagine-se tudo isto sem ser num qualquer enredo de ficção.

A verdade — e o problema — é que tudo isto é realidade do futebol feminino e do Campeonato do Mundo que arranca em França esta sexta-feira, com o jogo entre as anfitriãs e a Coreia do Sul. Ada Hegerberg, a melhor jogadora do mundo, não vai estar na competição porque está de relações cortadas com a Federação norueguesa. Já a seleção norte-americana, a atual campeã mundial em título, processou a própria Federação por aquilo a que chama “discriminação de género institucionalizada”.

O Mundial vai começar assim com inúmeras lutas internas e politizadas mas também com um pico de entusiasmo e curiosidade à volta do futebol feminino que não tem precedentes. Desde o recorde dos 60 mil espectadores que encheram o Wanda Metropolitano em março para ver um Barcelona-Atlético de Madrid até aos mais de 700 mil bilhetes vendidos, outro recorde absoluto, este Campeonato do Mundo 2019 já bateu vários recordes positivos e apresenta-se como a competição de futebol feminino mais importante de sempre.

Os Estados Unidos foram a última seleção a conquistar o Mundial, em 2015, no Canadá

AFP/Getty Images

Hegerberg e a crónica de uma ausência anunciada

Ada Hegerberg é, sem sombra de dúvidas, a jogadora de futebol mais bem sucedida do panorama atual. A avançada norueguesa de apenas 23 anos recebeu no passado mês de dezembro a Bola de Ouro do futebol feminino e é tetracampeã europeia ao serviço do Lyon (e pentacampeã francesa, numa realidade onde a equipa do leste de França dificilmente tem competição à altura). A juventude de Hegerberg, principalmente quando comparada com os 33 anos de Marta e os 36 de Carli Lloyd, as duas últimas atletas a serem consensualmente consideradas as melhores do mundo, deixa acreditar que a avançada ainda está longe de atingir o total potencial.

O Mundial de 2019, o segundo em que Ada Hegerberg iria participar — esteve no último, em 2015, e foi um dos destaques ao marcar três golos com apenas 19 anos –, podia funcionar como alavanca de uma carreira que ainda está no início mas que já soma mais títulos do que muitas na altura em que terminam. A Noruega, campeã do mundo em 1995, foi uma espécie de rampa de lançamento do futebol feminino na Europa que teve os países escandinavos como sede e que trouxe várias conquistas, nacionais e europeias, a clubes noruegueses e suecos. A disseminação da modalidade por outros países acabou por ser o fim da hegemonia da região do norte da Europa — mas ficou a qualidade das jogadoras, que tem hoje em dia em Hegerberg o seu maior epíteto.

O Mundial vai começar com inúmeras lutas internas e politizadas mas também com um pico de entusiasmo e curiosidade à volta do futebol feminino que não tem precedentes. Desde os 60 mil que encheram o Wanda Metropolitano em março até aos mais de 700 mil bilhetes vendidos, um recorde absoluto.

Tudo isto é verdade e tudo isto seria ainda mais verdade se a avançada do Lyon fosse ao Campeonato do Mundo de França. A jogadora de 23 anos, a melhor do mundo, recusou ser convocada e é a grande ausência do torneio que arranca esta sexta-feira. A notícia, contudo, não é propriamente uma surpresa: Hegerberg renunciou à seleção da Noruega em 2017, logo após o final do Europeu, e não voltou a representar o próprio país desde aí. O motivo, segundo a avançada, é a inexistência de apoio à equipa feminina dentro da Federação (num país onde o futebol feminino é largamente mais bem sucedido do que o masculino); o motivo, segundo a Federação, é o desrespeito da avançada pela seleção nacional.

Em 2017, no Europeu em que a Noruega foi escandalosamente eliminada ainda na fase de grupos com três derrotas em três jogos, Hegerberg anunciou a saída da seleção devido à “falta de preparação, execução e comunicação” da Federação Norueguesa de Futebol. “Esta decisão não é apenas uma consequência do Euro. Tem como base a minha experiência com a seleção durante um longo período de tempo”, explicou a jogadora, na altura, através de um comunicado oficial. A Noruega respondeu, garantindo que a notícia surgia como “um choque” porque Hegerberg nunca tinha levantado este tipo de questões internamente, e foi a partir desse momento que a discussão subiu — ou desceu, conforme as perspetivas — de nível.

Ada Hegerberg, a avançada norueguesa é tetracampeã europeia e pentacampeã francesa

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A avançada mostrou-se “estupefacta” com a reação da Federação, já que garante que questionou as altas chefias inúmeras vezes, e endureceu o discurso, afirmando que sentia que se tornava “pior jogadora” sempre que ia à seleção — comentário que não caiu bem junto das colegas de equipa. Martin Sjögren, o selecionador, defendeu que nenhuma jogadora devia ser obrigada a jogar e deixou bastante claro o seu posicionamento quando votou para a eleição da vencedora da Bola de Ouro do ano passado, já que não atribuiu nenhum dos três votos que tinha a Ada Hegerberg.

Já esta semana, numa entrevista à revista norueguesa Josimar, a jogadora de 23 anos voltou a comentar o assunto e a sublinhar os motivos que a levaram a abandonar a seleção. “Não éramos levadas a sério. Não existia uma cultura de treino com qualidade nem existia a vontade de ser melhor”, explicou, acrescentando depois que chegou a ter pesadelos sobre representar a seleção e que jogar pela Noruega lhe dava “um sentimento depressivo”. Há quase três semanas, quando marcou um hat-trick na final da Liga dos Campeões em que o Lyon goleou o Barcelona, Ada Hegerberg envolveu-se numa bandeira da Noruega durante os festejos. Rapidamente, para afastar quaisquer comentários, atirou: “Tenho saudades de jogar pelo país, não tenho saudades de jogar pela minha Federação”.

A melhor jogadora do mundo não vai por isso estar no Mundial e o motivo, quaisquer que sejam os argumentos de parte a parte, é um mal entendido engrossado por declarações pouco felizes.

Os Estados Unidos, do céu da final de 2015 ao inferno dos tribunais

Em 2015, no dia da final do Campeonato do Mundo de futebol feminino, a Europa teve de acordar de madrugada para assistir ao jogo que decidia o vencedor da principal competição internacional de seleções. A fase final disputada no Canadá provocou horários díspares e algo disfuncionais no resto do mundo que não os continentes norte e sul-americano. A final, entre Estados Unidos e Japão, adivinhava-se dura, disputada, discutida — antecipava-se, portanto, para os europeus que acordaram para ver o jogo, uma direta. Mas a seleção norte-americana encarregou-se pessoalmente de zelar pelos horários de sono dos adeptos europeus.

Alex Morgan e Carli Lloyd, duas das jogadoras que encabeçam o processo imposto pela seleção à Federação norte-americana

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Carli Lloyd aos três e aos cinco minutos, Holiday aos 14′ e Lloyd outra vez aos 16′. Isso. Aos 16 minutos, os Estados Unidos já venciam o Japão por 4-0 e a capitã, líder inequívoca da equipa, já levava um hat-trick. O Japão ainda reduziu na primeira parte e fez o segundo nos primeiros instantes da segunda mas Tobin Heath, ainda nos dez minutos iniciais do segundo tempo, marcou o quinto golo e arrumou as contas. Há quatro anos, no Canadá, a seleção norte-americana mostrou desta forma que era novamente a melhor do mundo (não conquistava o troféu desde 1999 e a Alemanha foi bicampeã mundial em 2003 e 2007) e apresentou um futebol que ainda não tinha sido visto no panorama feminino. Quatro anos depois, a verdade é que os Estados Unidos voltam a ser candidatos à vitória final.

Mas não foi um caminho fácil. Um ano depois da final no Canadá, as norte-americanas foram escandalosamente eliminadas nos quartos de final dos Jogos Olímpicos do Rio, perante a Suécia, e ficaram sem Hope Solo, veterana guarda-redes e capitã de equipa que foi suspensa por seis meses pela United States Soccer Federation depois de afirmar que os Estados Unidos tinham perdido “contra um bando de cobardes”. Seguiu-se um longo período de experimentação em que a selecionadora Jill Ellis chamou 61 jogadoras diferentes durante dois anos e meio e a equipa acabou por perder o número 1 do ranking depois de perder três vezes seguidas em casa. A estabilidade apareceu com Alyssa Naeher na baliza, a dupla Abby Dahlkemper e Becky Sauerbrunn na defesa, Lindsey Horan e Julie Ertz no meio-campo e Megan Rapinoe e Alex Morgan no ataque — e 28 jogos seguidos sem perder que só tiveram fim no passado mês de janeiro.

Carli Lloyd aos três e aos cinco minutos, Holiday aos 14' e Lloyd outra vez aos 16'. Aos 16 minutos, os Estados Unidos já venciam o Japão por 4-0 e a capitã, líder inequívoca da equipa, já levava um hat-trick.

Mas quando tudo voltou a correr bem dentro de campo, a situação azedou fora das quatro linhas. No início de março, 28 jogadoras da seleção processaram a United States Soccer Federation devido a queixas de discriminação de género. A tomada de posição das atletas surgiu como o culminar de uma luta sobre igualdade salarial e condições laborais travada entre as duas partes há muito tempo e no processo a Federação — o organismo que regula todo o futebol, masculino e feminino, nos Estados Unidos — é acusada de ter, durante anos, aquilo a que as jogadoras chamam “discriminação de género institucionalizada”. As queixas das jogadoras não dizem respeito somente aos salários mas também ao facto de a federação norte-americana controlar onde as jogadoras jogam e com que frequência, a forma como treinam, os tratamentos médicos que recebem e até a maneira como viajam até aos locais dos jogos.

Os pontos referidos no processo tornado público em março incluem alguns dos problemas descritos por cinco jogadoras titulares da seleção — Alex Morgan, Hope Solo, Carli Lloyd, Megan Rapinoe e Becky Sauerbrunn — numa queixa feita à Comissão de Igualdade de Oportunidade Laboral dos Estados Unidos em 2016. A ausência de uma resolução, de qualquer ação governamental ou atitude por parte da Federação após essa primeira medida terá levado um conjunto ainda maior de atletas a apresentar então a ação judicial.

O processo representa todas as jogadores que foram à seleção dos Estados Unidos desde fevereiro de 2015 — numa janela que pode incluir outras dezenas de futebolistas — e exige o pagamento de retroativos e danos, numa quantia que pode chegar aos milhões de dólares. A ação judicial é o último capítulo de uma luta que dura há vários anos (primeiro de forma interna e privada, depois de forma pública) e que tem como pontos fulcrais a compensação salarial, o apoio às atletas e as condições laborais enquanto as jogadoras representam os Estados Unidos: o grupo que agora leva o caso para os tribunais defende que lhe é exigido um número superior de jogos e vitórias do que aquele que é pedido à seleção masculina e que a recompensa monetária é significativamente inferior.

A guarda-redes Hope Solo foi suspensa depois de comentários feitos às adversárias e agora faz parte da lista de jogadoras que processou a Federação

DANIEL OLIVEIRA/EPA

Em março, o presidente da United States Soccer Federation mostrou-se “surpreendido” com a ação judicial interposta pelas jogadoras e garantiu que estava determinado a manter várias reuniões com as atletas para resolver a situação. “A Federação acredita que todas as atletas merecem um salário justo e igualitário. Esforçamo-nos para manter este valor fulcral em todos os momentos. Já tive uma discussão aberta, cordial e profissional com algumas jogadoras para entender as suas preocupações e vamos continuar a trabalhar juntos para resolver este problema”, explicou Carlos Cordeiro, que é descendente de portugueses.

O Estados Unidos chegam ao Mundial na melhor fase desde que foram campeões mundiais e vão tentar revalidar o título, algo que nunca conseguiram (e que só a Alemanha alcançou). Para isso, é necessário superar os problemas internos que, tal como acontece com Ada Hegerberg, forçam as jogadoras a representar apenas o país e não a seleção.

O processo representa todas as jogadores que tenham representado a seleção dos Estados Unidos desde fevereiro de 2015 — numa janela que pode incluir outras dezenas de jogadoras — e exige o pagamento de retroativos e danos, numa quantia que pode chegar aos milhões de dólares. 

Os equipamentos, um pormaior que finalmente teve solução

Mas nem tudo são nuvens negras a pairar por cima do Mundial. Na verdade, o Campeonato do Mundo de França que começa esta sexta-feira tem vários pontos de destaque que o tornam o mais antecipado de sempre, o mais importante de sempre, o mais popular de sempre. À cabeça, está um pormenor que até parece ridículo quando mencionado.

Os equipamentos. Pela primeira vez, as seleções femininas vão utilizar equipamentos especificamente desenhados, pensados e construídos para mulheres. Até aqui — e já depois de um período muito arcaico em que usavam mesmo as camisolas e os calções dos homens, sem tamanhos adaptados –, as jogadores vestiam o mesmo tipo de equipamento que as seleções masculinas, apenas em tamanhos mais pequenos. Um detalhe que só há cerca de um ano atraiu a Nike, que se propôs a desenhar camisolas e calções especificamente para as seleções femininas.

Lucy Bronze, lateral do Lyon e da seleção inglesa, com o equipamento desenhado pela Nike especialmente para a equipa feminina

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“Quando trabalhamos com homens, eles dizem que um tecido justo os faz sentir como super-heróis. Mas para as mulheres é diferente. Querem sentir-se confortáveis e seguras e profissionais. Foi totalmente diferente quando comparado coma informação [dos homens] que já tínhamos. Esse foi o nosso ponto de partida mas depois tínhamos mais tópicos: uma camisola que seja fácil de vestir e despir com cabelo comprido e rabo de cavalo; o facto de as mulheres não gostarem de decotes em V muito profundos; uma manga que não seja muito curta”, explicou ao The Guardian Cassie Looker, a designer da Nike que foi responsável pelos equipamentos das seleções do Mundial.

O resultado da profunda pesquisa e de um trabalho que também envolveu os testemunhos das jogadoras foi apresentado durante um evento em Paris e os novos equipamentos já têm sido utilizados nos mais recentes jogos de preparação para o Mundial.

O desporto da moda, da enchente de Madrid às comentadoras no Brasil

Mas a fase de entusiasmo à volta do futebol feminino não se prende apenas com os equipamentos. A modalidade viveu nos últimos meses, principalmente na Europa, uma onda de popularidade que muito se deve ao investimento dos clubes e à maior atenção dispensada pela comunicação social. Mesmo em Portugal, onde o futebol feminino ainda cresce a pulso e com baby steps, o ano já ficou marcado pela seleção sub-17, que na estreia em Europeus chegou às meias-finais da competição, e pela ida de Matilde Fidalgo, jogadora campeã nacional pelo Futebol Benfica, pelo Sporting e pelo Sp. Braga, para o Manchester City.

60.739 espetadores: o Wanda Metropolitano encheu para assistir à receção do Atl. Madrid ao Barcelona

Aqui mesmo ao lado, em Espanha, o futebol feminino conseguiu fazer capa dos dois principais jornais desportivos do país ao bater um recorde absoluto de assistência. Em março, o Atl. Madrid recebeu o Barcelona no Wanda Metropolitano e 60.739 pessoas encheram a bancada do estádio colchonero. As catalãs acabaram por vencer aquele que se tornou o jogo de futebol feminino com mais assistência em Espanha — o recorde internacional ainda está longe, nas mais de 90 mil pessoas que em 1999 assistiram à final do Campeonato do Mundo entre Estados Unidos e Japão no Rose Bowl de Pasadena, na Califórnia.

O Campeonato do Mundo de França também já bateu o recorde de bilhetes vendidos para um Mundial de futebol feminino, já que até abril mais de 720 mil pessoas já tinham lugar garantindo na principal competição de seleções nacionais. O torneio está a ser encarado como o grande evento desportivo do ano em quase todo o mundo e o Brasil, país que há muito presta atenção à seleção feminina, não é exceção. Pela primeira vez desde que o Mundial feminino é realizado (a primeira edição foi em 1991, há quase 30 anos), a Globo vai transmitir vários jogos da competição e a SporTV, canal de televisão desportivo, vai ter duas comentadoras a acompanhar todas as partidas.

O Mundial 2019 de futebol feminino arranca esta sexta-feira marcado pela ausência de Ada Hegerberg e as lutas internas na seleção norte-americana mas também pelos novos equipamentos e pelo clima de entusiasmo quase geral. Resta saber qual o lado da força que vai acabar por vencer.

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