O dia de São Martinho vai trazer aos céus de Portugal um fenómeno raro que só voltará a acontecer daqui a 13 anos. O planeta Mercúrio vai passar entre a Terra e o Sol esta segunda-feira, 11 de novembro, entre as 12 horas, 35 minutos e 33 segundos; e as 18 horas, 03 minutos e 56 segundos. É um evento astronómico que só aconteceu 37 vezes desde 1631 — ano em que Pierre Gassendi observou a transição de Mercúrio prevista por Johannes Kepler, que morreu um ano antes do fenómeno. A última vez tinha sido a 09 de maio de 2016. E só voltará a acontecer daqui a 13 anos, a 13 de novembro de 2032.

Quando começar a ver um ponto escuro a atravessar o Sol, então é porque a transição de Mercúrio começou. Em Portugal Continental isso será às 12 horas, 35 minutos e 33 segundos. O ponto alto acontecerá às 15 horas, 19 minutos e 36 segundos, quando o pequeno planeta vizinho do Sol já estiver a meio da viagem. Mas o fenómeno terminará mais cedo no continente, já que o por do sol vai ocultar a fase final da transição. Só mesmo a Madeira e os Açores é que vão assistir ao evento de fio a pavio, até às 18 horas, 03 minutos e 56 segundos de Lisboa e do Funchal; menos uma hora em Ponta Delgada.

Mesmo que a meteorologia ajude e a lenda do verão de São Martinho se concretize, não deve olhar diretamente para o Sol à procura do pequeno Mercúrio. Se o fizer, arrisca-se a desenvolver sérios problemas de visão que podem mesmo culminar numa cegueira irreversível. O melhor é utilizar um telescópio com uma ampliação de entre 50 vezes e 100 vezes, mas sempre equipado com filtro objetivo solar, aconselha o Observatório Astronómico de Lisboa. Onde pode encontrar um? Em pelos menos dois sítios: Santana e Coimbra.

Onde (e como) ver a visita especial de Mercúrio

Incorporado no Centro Ciência Viva da Ribeira Grande, no arquipélago dos Açores, o Observatório Astronómico de Santana vai abrir portas às 11h para uma atividade de observação solar (e em segurança) com ajuda dos cientistas da casa. Se não estiver em São Miguel, fique descansado: o Observatório de Santana organizou outras observações em São Jorge, nas Flores e na Terceira. Mas tem de inscrever para poder participar. Pode fazê-lo a partir desta página, com toda a informação de horários para as atividades.

Também o Observatório Geofísico e Astronómico da Universidade de Coimbra vai estar preparado para receber a transição de Mercúrio. Na página de Facebook da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, o observatório anunciou que “estará de portas abertas ao público para observar este raro fenómeno”: “Com os telescópios do Observatório, devidamente equipados com filtros solares, poderemos ver Mercúrio passando lentamente à frente do Sol, como se fosse a cabeça de um alfinete sobre uma bola de ténis”, compara a faculdade.

Se não está pelos Açores nem para os lados de Coimbra, pode sempre observar a transição de Mercúrio no conforto de casa. Ou, visto que será segunda-feira, do trabalho. Usar os óculos com filtros solares que normalmente se utilizam para observar eclipses não é solução. “Um objeto só é percetível se o seu diâmetro angular aparente for maior do que o limite de resolução angular do instrumento de observação”, começa por descrever o Observatório Astronómico de Lisboa.

Neste caso, o “objeto” é Mercúrio e o “instrumento de observação” é a retina dos olhos. Ora, “o diâmetro da pupila é de dois milímetros durante o dia, dilatando para seis milímetros à noite”. “Nestas condições o limite de resolução angular do olho humano numa observação diurna é 63”. Como o diâmetro angular de Mercúrio é de 12”, inferior aos 63”, é impossível observá-lo diretamente”, conclui o Observatório

Se mesmo assim quiser ter os óculos com filtros solares por perto, siga sempre as regras. Primeiro, nunca pode usá-los com binóculos, câmaras fotográficas ou telescópios ou outros instrumentos óticos. Se fizer isso, o filtro solar derrete e a intensidade pode queimar a retina. Depois, convém fazer muitos intervalos para descanso dos olhos — três minutos de intervalo a cada 30 segundos de utilização, sugere o Observatório Astronómico de Lisboa.

Além disso, nunca os pode repetir porque os filtros podem ter pequenas imperfeições que comprometem a segurança do material. E não se atreva a utilizar radiografias antigas para a observação do Sol. Essas folhas podem ter perfurações perigosas, tal como os óculos com filtros solares velhos. E não protegem os olhos da radiação.

Como ver um “micro-eclipse” sem sair de casa

A forma caseira mais segura para observar a transição de Mercúrio chama-se “Método de Projeção”. Numa delas, faz-se um pequeno furo numa cartolina preta e coloca-se outra cartolina branca relativamente afastada da primeira. Pode também fazer furos de tamanhos diferentes para escolher aquele que forma a melhor imagem, explica o Observatório.

Outra estratégia é colocar uma folha de papel com um furo do diâmetro de um lápis sobre um espelho. Tape a parte espelhada, deixando visível apenas a parte descoberta do furo. E mantenha o papel muito próximo da superfície do espelho. Depois aponte o espelho para o Sol e faça a luz refletor refletir sobre um anteparo à sombra, como uma parede ou cartolina.

Há também a possibilidade de usar um instrumento ótico, como um binóculo ou telescópio. Aponte-o para o Sol e coloque uma folha de papel atrás da ocular — o lugar por onde espreita para fazer observações. Afasta-se ou aproxima-se da folha até conseguir o melhor foco com uma imagem nítida.