Luís Marques Mendes disse este domingo, no habitual espaço de comentário político na SIC, que a hipótese de a regionalização avançar sem referendo é uma espécie de “golpe de estado palaciano”.

Sobre o facto de alguns autarcas, entre os quais Rui Moreira e Fernando Medina, terem admitido esta semana a hipótese de haver regionalização sem referendo, Marques Mendes foi perentório: “O mais grave foi admitirem a hipótese de a regionalização avançar sem referendo, sem consultar o povo. Devo dizer que isto juridicamente é possível [mudar a Constituição], politicamente é censurável. Se isto acontecesse era uma espécie de ‘golpe de estado palaciano'”.

Uma grande ambição dos políticos é governarem sem povo. Muitas vezes o povo é uma maçada. Por isso é que há muitos políticos que gostavam de ir para Bruxelas. Em Bruxelas governa-se sem povo.

O comentador aproveitou para recordar que há 21 anos a regionalização foi chumbada em referendo e questionou: “Agora íamos revogar a decisão do povo sem o ouvir? Nas costas do povo? Isto pode ser juridicamente legítimo, mas é democrático?”.

Marques Mendes fez ainda uma comparação à ditadura de Salazar, quando este, em 1958, mudou a Constituição para que a eleição do Presidente da República deixasse de ser realizada via sufrágio direto dos portugueses. Salazar estava então “aflito” com o “furacão” Humberto Delgado. “Isto não pode ser. Há que respeitar a decisão dos portugueses. Em grande medida isto é uma manobra de diversão. Não vai haver regionalização nenhuma durante estes quatro anos”, garantiu. Uma manobra de diversão que, disse, dá jeito ao Partido Socialista – porque assim não discute o caos na saúde – e, de certa forma, também ao PCP.

“Rio parceria irritado, desconfortável e incomodado”

“Rui Rio teve a prestação talvez mais fraca dos três no debate. Parecia irritado, desconfortável, incomodado”, disse Luís Marques Mendes. O comentador político referiu-se a um político “um pouco desesperado” para descrever a postura de Rio no debate da última quarta-feira, 4 de dezembro, nos estúdios da RTP. “Aquela tonteria de falar da Maçonaria. Acho que o debate não lhe correu bem e acho que ele percebeu isso”, continuou.

Para Marques Mendes, Pinto Luz, vice-presidente da Câmara Municipal de Cascais, foi quem revelou a melhor prestação no debate, foi a “novidade”, “surpreendeu pela positiva” e “marcou uma boa impressão”. Foi também “duro” e “combativo” com Rui Rio, enquanto Luís Montenegro, apesar de certeiro, não surpreendeu. Ainda assim, na leitura do comentador político, este foi mesmo o grande beneficiário do debate, uma vez que a eleição em causa é sobretudo “um confronto em entre Rio e Montenegro”, pelo que o desgaste do primeiro é sempre satisfatório para o último.

Argumentando que as eleições do PSD estão a passar ao lado da maioria dos portugueses, Marques Mendes assegurou que para António Costa é importantíssimo saber quem irá liderar o PSD. Com Montenegro, diz, o Governo terá uma vida mais difícil. Marques Mendes interrogou-se sobre o futuro da direita em Portugal, adivinhando “tempos difíceis” e afirmando que um novo líder daquele partido irá confrontar-se com o problema da “ingovernabilidade”. O PSD pode ganhar eleições, mas vai ter “muita dificuldade em encontrar um parceiro para formar governo”.

O comentador lembrou ainda que até então o centro e a direita têm governado de duas formas: por maiorias absolutas dos PSD ou, então, via coligações PSD/CDS. As primeiras tornaram-se quase “irrepetíveis”, as segundas vão ser cada vez mais difíceis, disse, ao mesmo tempo que recordou que André Ventura, do Chega, está em crescimento à conta do “esvaziamento” do CDS. “Este é um problema sério. Até agora, durante décadas, havia um muro à esquerda. O partido socialista tinha dificuldade em ter um parceiro à esquerda. Esse murou caiu há quatro anos. Agora, à direita pode-se levantar um muro que nunca existiu.”

O “ridículo” na vinda de Greta e a “frouxidão” com Berardo

Indiferente ao fenómeno Greta Thunberg, Marques Mendes fez — logo no início do seu comentário político — um balanço positivo à prestação da ativista sueca de 16 anos, tendo a chamada de atenção para as conta as alterações climáticas, embora admitindo que o seu discurso é radical e fundamentalista. “Ridículo”, afirmou, foi o facto de o ministro do Ambiente ter prestado contas à jovem ativista como se fosse uma autoridade, ela que esteve esta semana em Lisboa.

Referindo-se a dois casos da justiça — Rui Rangel e Joe Berardo –, Marques Mendes assegurou ainda que a decisão do Conselho Superior da Magistratura em demitir Rangel de funções foi uma decisão exemplar que mostrou coragem. Já relativamente a Berardo falou em “frouxidão”. “Gostava de ver a mesma atitude. Desta forma o crime compensa. É desta que forma que os André Ventura vão subindo nas sondagens.”