“Parece que alguém estava a tentar desenhar um rapaz e o fez demasiado grande por acidente”. A frase, obviamente exagerada e com o propósito de fazer rir, pertence a um jornalista norueguês e é sobre Erling Braut Haaland, o avançado que é desde já o grande destaque do mercado de inverno que ainda agora começou. Com apenas 19 anos, Haaland trocou os austríacos do Salzburgo pelos alemães do Borussia Dortmund e vai tentar repetir vestido de amarelo tudo aquilo que fez vestido de vermelho desde o início da temporada.

Os comentários à estrutura física do jogador norueguês, mais do que referirem o contraste entre o metro e noventa e quatro e a “cara de bebé” natural de quem ainda não completou duas décadas de vida, são importantes também para explicar a forma como se apresenta dentro de campo. Haaland tem corpo de defesa central mas é avançado; tem altura para ser lento mas é rápido com bola e sem ela; tem 19 anos mas uma experiência entre os centrais que deixa transparecer que anda há muitos anos na alta roda do futebol mundial. Em si só, dentro de campo, Haaland é uma contradição. E tem mostrado no último ano que também o é fora dos relvados.

O avançado marcou nos dois jogos contra o Slavia Praga, nos dois jogos contra o Nápoles e num dos jogos contra o Liverpool na fase de grupos da Liga dos Campeões

O avançado norueguês nasceu em 2000 em Leeds, Inglaterra, apesar da nacionalidade escandinava. O pai, Alf-Inge Haaland, era defesa precisamente no Leeds e atuava na Premier League: já tinha passado pelo Nottingham Forest e ainda haveria de representar o Manchester City até 2003, altura em que terminou a carreira com apenas 31 anos devido a várias lesões contraídas no mesmo joelho. O filho Haaland nasceu e cresceu rodeado daquela que é considerada a melhor e maior liga de futebol do mundo antes de regressar à Noruega de onde era oriundo e aí começar a dar os primeiros toques na bola. Mas a paixão por Inglaterra e a vontade de vestir a camisola do Leeds, o clube da cidade onde nasceu e o primeiro que apoiou, não desvaneceu.

“O sonho é ganhar a Premier League com o Leeds”, disse o jogador em entrevista a um jornal norueguês sobre o clube que está atualmente no primeiro lugar do Championship, o segundo escalão inglês, comandado por Marcelo Bielsa. “Além disso, o objetivo é ser melhor jogador do que o meu pai foi. Espero ter mais internacionalizações do que ele teve”, acrescentou Haaland, que ainda conta com o pai Alf-Inge para tomar as decisões relativas à carreira e ao futuro. Na Noruega, o avançado começou por dar nas vistas no Molde e teve a primeira grande oportunidade enquanto profissional logo aos 15 anos e pela mão de Ole Gunnar Solskjaer, atual treinador do Manchester United que na altura orientava o clube.

Haaland cumpriu as primeiras internacionalizações pela Noruega na qualificação para o Euro 2020

Em agosto de 2018, depois de uma temporada com o Molde em que jogou na Liga Europa e apontou 16 golos em 30 jogos para todas as competições, o RB Salzburgo anunciou que Haaland iria reforçar a equipa a partir de janeiro do próximo ano. O avançado mudou-se da Noruega para a Áustria no início de 2019, ajudou o clube a garantir a presença na Liga dos Campeões e foi precisamente na principal competição europeia que acabou por encontrar a montra para se tornar o principal aperitivo do mercado de inverno.

Além dos 11 golos que marcou nos primeiros sete jogos da liga austríaca, Erling Haaland marcou em cinco dos seis jogos da fase de grupos da Liga dos Campeões (só não apontou golos no segundo jogo com o Liverpool, falhando o recorde que pertence a Cristiano Ronaldo), tornou-se o mais novo de sempre a assinar um hat-trick na Champions antes do intervalo e apenas o terceiro adolescente da história a consegui-lo, logo depois de nomes históricos como Raúl e Rooney. Tudo isto depois de um verão passado no Mundial Sub-20 onde marcou nove (!) golos num único jogo, contra as Honduras, mas não evitou a eliminação da Noruega logo na fase de grupos. As exibições no Salzburgo, ainda assim, garantiram-lhe a primeira chamada à principal seleção norueguesa, que representou em dois jogos da qualificação para o Europeu (onde ainda não sabe se vai estar, já que os escandinavos ainda têm de disputar o playoff de acesso à fase final).

O início de temporada assinalável enquanto figura de proa de um Salzburgo que surpreendeu enquanto conjunto global (e de onde o japonês Minamino já saiu para o Liverpool), abriu-lhe as portas do Manchester United no mercado de inverno. Os ingleses, que perderam Lukaku para o Inter no verão e não conseguiram contratar Mandzukic, têm jogado com Martial enquanto referência ofensiva mas procuram um avançado destacado para ser servido de bandeja por Rashford e companhia. Apesar do interesse da Juventus e do RB Leipzig, o encaixe com o Manchester United parecia perfeito: Haaland iria reencontrar Solskjaer, o treinador que o lançou no Molde e que já o conhece, e a dupla norueguesa poderia tornar-se letal em Old Trafford. Mas mais uma vez, o avançado mostrou que é tudo aquilo que não parece ser.

Enquanto a imprensa inglesa garantia que Haaland estava num avião rumo a Manchester para assinar pelos ingleses, o avançado estava a acertar os últimos pormenores com o Borussia Dortmund para se mudar da Áustria para a Alemanha a troco de 20 milhões de euros. Mino Raiola, o agente que ganha cada vez mais espaço e influência na cena europeia, foi o ponto-chave para desbloquear a preferência do avançado pelo Borussia em detrimento do United: até porque as relações entre Raiola e a cúpula dos red devils, devido às sequenciais novelas protagonizadas por Paul Pogba (que o agente colocou em Inglaterra), não são as melhores. “Foi o Borussia que falou mais com ele. Toda a gente teve a oportunidade de falar pessoalmente com ele, deixámos que isso acontecesse. Claramente, ele sentiu que neste momento não era o passo certo na carreira dele. Não há nada contra o Manchester United”, garantiu Mino Raiola, cuja comissão leva o valor da transferência de Haaland até aos 100 milhões de euros.

No Dortmund, o avançado de 19 anos vai ter a oportunidade de continuar a mostrar-se à Europa na Liga dos Campeões (os alemães vão jogar com o PSG nos oitavos, enquanto que o Salzburgo caiu para a Liga Europa) e encaixar num ataque musculado que conta com Paco Alcácer, Jadon Sancho, Götze, Brandt, Reus e Thorgan Hazard. O “menino-homem”, como era tratado pelos companheiros de equipa no Salzburgo, está à procura de um lugar ao sol nas principais ligas europeias antes de se dedicar ao “sonho” de conquistar a Premier League com o Leeds. Pelo meio, já tem modelo a seguir. “Tenho muitos exemplos e admiro muitos jogadores, mas o Zlatan [Ibrahimovic] é o mais importante de todos eles. A maneira como se tornou tão bom, a maneira como joga. Além disso, ele também é escandinavo, por isso alguém de ficar com o lugar dele”, disse o avançado recentemente.