A investigação internacional que acusa Isabel dos Santos de construir um império multimilionário através de dinheiro desviado da Sonangol e de outras companhias com participação da empresária para paraísos fiscais está a ser acompanhada pelos jornais angolanos, mas com níveis de destaque diferentes.

Na manhã desta segunda-feira, o Jornal de Angola, o mais comprado do país, tem uma chamada de capa sobre o “Luanda Leaks” e noticia a investigação com o título: “Jornalistas revelam ‘engenharias’ de Isabel dos Santos”. A manchete, no entanto, é da história de mais de 30 crianças encontradas ao abandono num estaleiro de construção civil.

O site do Jornal de Angola. Créditos: Jornal de Angola

No formato especial em que analisa a investigação do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação, o Jornal de Angola fala de “revelações de operações secretas” sobre “como a filha de José Eduardo dos Santos construiu o seu império empresarial tirando partido das ligações privilegiadas ao Estado angolano”.

A notícia ocupa uma página do Jornal de Angola com o título: “Consórcio de 120 jornalistas revela ‘engenharias’ de Isabel dos Santos”. O conteúdo está fechado no formato digital do jornal e só poder ser acedido pelos assinantes do jornal. No site, não consta qualquer notícia sobre a investigação do consórcio. As últimas notícias sobre Isabel dos Santos no Jornal de Angola são sobre a batalha judicial entre ela e a eurodeputada portuguesa Ana Gomes.

O Folha 8, de William Tonet, colocou dois artigos sobre o assunto em “primeiro plano”. O primeiro chama-se “Fuga em Mala Diplomática”e diz, citando fonte anónima próxima “aos dois poderes em Angola, Eduardo dos Santos e João Lourenço” que os 715 mil documentos na base da investigação seguiram “há cerca de ano” de Luanda para Lisboa “na mala diplomática de um ministro português com a recomendação de que fosse entregue ao Expresso/SIC”.

A página do Folha 8. Créditos: Folha 8.

O jornal afirma que que esse dossier foi constituído “por especialistas do núcleo duro do MPLA/João Lourenço”. E prossegue, citando outras fontes anónimas: “O general Hélder Fernando Pitta Gróz, procurador-geral da República, desempenhou apenas um papel de figurante, de vendedor da cobertura jurídica em muitos documentos — muitos empolados, outros verdadeiros e outros forjados — que esse núcleo lhe diz para assinar, rubricar, dar cobertura”.

O outro artigo do Folha 8 cita o ativista angolano Sedrick de Carvalho numa entrevista à Agência Lusa: “A luta contra a corrupção não é para levar a sério”. “O que ela está a tentar transmitir é que não merece ser julgada porque outros também beneficiaram do saque, do roubo, que é, na verdade, um discurso que tem razão de fazer, porque quem a está a julgar, a apertar, a colocar contra a parede, são também corruptos e deste ponto de vista não há legitimidade para corruptos julgarem corruptos. Agora se estivéssemos perante instituições sérias no país, claro que Isabel dos Santos tem que ser julgada e até condenada”, afirmou Sedrick de Carvalho.

O jornal Maka Angola, de Rafael Marques de Morais, não tem qualquer informação sobre a investigação. Uma pesquisa no site do jornal revela que as últimas notícias sobre Isabel dos Santos publicado neste órgão de comunicação social são do início do ano e referem-se ao arresto do património de Isabel dos Santos, do marido da angolana e do gestor Mário Leite da Silva.

O Maka Angola na sua homepage. Créditos: Maka Angola.

No site da revista angolana O País, os desenvolvimentos sobre as suspeitas de corrupção apontadas a Isabel dos Santos estão em manchete: “ICIJ publica ‘vazamentos’ sobre império de Isabel dos Santos”, diz o título. E arranca: “Cento e vinte jornalistas, de acordo com informações postas a circular pelo consórcio, dizem ter analisado as várias ramificações de um conglomerado empresarial que atribuem à empresária angolana”.

Sobre a reação da filha do ex-presidente Eduardo dos Santos a estas notícias, a revista O País diz que Isabel dos Santos “volta a falar em perseguição”, depois de também ter dito que era vítima de uma “caça às bruxas” quando os bens dela, do marido e um dos gestores terem sido arrestados por ordem judicial em Angola.

A primeira página d’O País. Créditos: O País.

Outro site, o Novo Jornal, também noticiou que o “Consórcio de Jornalistas lança mega investigação sobre Isabel dos Santos” e promete “revelações bombásticas a partir de 715 mil documentos”: “A tarde de domingo, normalmente sossegada, acabou por se transformar, pouco antes das 18h em Angola, num frenesim de informação que prometia, e promete, revelar ao detalhe, com origem numa investigação do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação, que reuniu mais de 700 mil ficheiros agregados neste já denominado caso ‘Luanda Leaks’, todos os esquemas que permitiram a Isabel dos Santos reunir uma das maiores fortunas de África”.

O Novo Jornal está segunda-feira. Créditos: Novo Jornal.

O Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação publicou este domingo uma grande investigação que revela como Isabel dos Santos terá erguido um império multimilionário, que está sob suspeita por alegadamente ter desviado dinheiro da Sonangol para paraísos fiscais como o Dubai. A investigação juntou 37 jornais de 20 países que analisaram 715 mil documentos e3nviados por uma plataforma africana que protege denunciantes.

A investigação está a ser referida como Luanda Leaks e afirma que a filha do ex-presidente do Angola desviou 115 milhões de dólares (o equivalente a 104 milhões de euros) da Sonangol enquanto era presidente da empresa para contas em offshore. Isabel dos Santos nega a autoria destes crimes fiscais, afirma que todos os documentos são falsos diz-se inocente e denuncia estar a ser vítima de racismo e de preconceito.