Donald Trump encontrou uma solução surpreendentemente simples para controlar a inteligência artificial: um presidente forte, inteligente e com um elevado quociente de inteligência. Esse presidente seria, naturalmente, o próprio. Na sua perspetiva, os Estados Unidos já dispõem de poderes criminais e regulatórios suficientes para impedir as empresas tecnológicas de fazerem coisas perigosas. Tudo o resto será burocracia, alarmismo ou uma conspiração destinada a favorecer a China.

Seria tranquilizador se os riscos da inteligência artificial dependessem apenas da inteligência de quem ocupa a Casa Branca. Não dependem.

Nenhum presidente, por mais competente que seja, consegue acompanhar sozinho o desenvolvimento de milhares de modelos, avaliar vulnerabilidades informáticas, fiscalizar centros de dados, impedir fugas de informação, controlar sistemas militares autónomos e antecipar a utilização da IA na criação de armas biológicas. Muito menos poderá fazê-lo através de decisões improvisadas, publicações nas redes sociais ou ameaças dirigidas aos responsáveis das empresas.

A inteligência artificial exige instituições preparadas, conhecimento técnico, fiscalização independente e regras aplicáveis a todos. Precisa também de cooperação internacional, porque um modelo desenvolvido nos Estados Unidos pode ser utilizado na Ásia, treinado com dados europeus e explorado por criminosos localizados em qualquer parte do mundo. Nenhuma fronteira, ordem presidencial ou demonstração de autoridade consegue resolver isoladamente um problema desta dimensão.

Trump prefere interpretar qualquer tentativa de regulação como um obstáculo à liderança norte-americana. O argumento é conhecido: se os Estados Unidos abrandarem, a China avançará. Por isso, seria necessário retirar barreiras, acelerar a construção de centros de dados e permitir às empresas inovar com o mínimo de limitações.

Mas esta corrida não pode ser comparada a uma prova de velocidade convencional. Quando dois automóveis competem, ganha quem chega primeiro. Quando duas potências desenvolvem tecnologias capazes de influenciar eleições, automatizar ciberataques ou selecionar alvos militares, uma aceleração descontrolada pode fazer com que todos percam.

A própria China compreendeu o problema. Pequim não pretende abandonar a corrida, mas está preocupada com a possibilidade de a IA facilitar campanhas de desinformação, espionagem, ataques a infraestruturas críticas e ameaças à estabilidade política. A resposta chinesa será provavelmente mais vigilância e maior controlo do Estado. Não é um modelo que as democracias devam copiar, mas demonstra que nem o principal concorrente dos Estados Unidos acredita seriamente que a ausência de regras seja uma estratégia de segurança.

Também é perigoso desvalorizar a oposição à construção de centros de dados, classificando-a como parte de uma conspiração. Estas infraestruturas consomem enormes quantidades de eletricidade e água, alteram economias locais e podem transferir custos significativos para as populações. Algumas críticas serão exageradas, mas outras são legítimas e devem ser discutidas democraticamente. Tratar cidadãos preocupados como traidores não resolve os problemas. Apenas impede que sejam analisados.

Os próprios dirigentes das principais empresas de IA começaram a reconhecer que a tecnologia pode evoluir mais depressa do que a capacidade das sociedades para a controlar. É legítimo questionar se esses alertas são totalmente desinteressados. Algumas empresas podem utilizar o discurso da segurança para dificultar a entrada de concorrentes. Mas essa possibilidade justifica uma regulação melhor, não a ausência de regulação.

As boas leis não podem depender da personalidade de um governante. Devem continuar a funcionar quando o presidente muda, quando ocorre uma crise ou quando uma empresa decide ignorar uma recomendação. É precisamente para isso que existem instituições, reguladores e tribunais.

A inteligência artificial não precisa de um presidente que se considere suficientemente inteligente para a controlar. Precisa de governantes suficientemente responsáveis para reconhecerem que ninguém a consegue controlar sozinho.