Uma onda com 8,44 metros foi registada esta segunda-feira no mar Mediterrâneo ao largo da cidade portuária de Valência, em Espanha. É a maior onda alguma vez detetada no Mediterrâneo, quase trinta centímetros mais alta do que o anterior recorde — 8,15 metros registados em 2003 em Mahón.

Segundo o El Confidencial, estes dados podem significar que o mar Mediterrâneo pode ter produzido ondas com até 13,5 metros nos últimos dias em zonas onde os especialistas não têm boias de medição, que, portanto, não foram detetadas. É mais uma consequência da tempestade Glória, uma depressão atmosférica que está a atingir o literal mediterrânico de Espanha e que já matou quatros pessoas desde o início da semana.

A precipitação provocada pela tempestade Glória tem sido tão forte que o delta do rio Ebro, habitat para uma grande diversidade de fauna e flora, desapareceu debaixo de água. Três mil hectares foram engolidos pela subida da água do rio, destruindo praias e arrozais na região. O desaparecimento do delta deste rio foi testemunhado pelo satélite Copérnicus, que passou pela zona a 22 de janeiro.

Ainda esta terça-feira, à conta da agitação marítima provocada pela tempestade, cidades como Argeles-sur-Mer, no sul de França, também foram atingidas por uma espuma branca deixada para trás pelas grandes ondas do Mediterrâneo. Em Barcelona, a marina de Port Olympic foi atingidas por ondas que ameaçaram as embarcações lá atracadas. Girona ficou inundada de águas lamacentas. E tanto em Castilla La Mancha (Espanha) e Bocognano (França), a neve obrigou ao corte de estradas.

Apesar das previsões de que as condições meteorológicas vão melhorar em Espanha a partir desta quarta-feira, a Agência Estatal de Meteorologia espanhola prevê chuva para o sudoeste espanhol e também para todo o território de Portugal Continental e Açores a partir de quarta-feira e até sábado, embora a acumulação de precipitação não deva ultrapassar um milímetro. Mas será mais forte, com uma acumulação de 10 milímetros, em Castelo Branco.

Segundo o instituto meteorológico de Espanha, as consequências da tempestade Glória “não têm precedentes”. Outra semelhante só a que atingiu a região mediterrânica espanhola no final de janeiro de 1911, quando um grande temporal provocou a morte de 140 pessoas, a maioria pescadores e marinheiros, e extensos danos materiais. Nessa ocasião “registaram-se ondas com mais de oito metros”, dizem os arquivos da instituição.

Nos últimos dois anos, o território espanhol tem sido fustigado por fenómenos meteorológicos intensos, como depressões em níveis altos da atmosfera que provocam quedas intensas de chuva. Em entrevista ao El Confidencial, Samuel Biener, climatólogo do Laboratório de Climatologia da Universidade de Alicante, disse que “isto é indicativo de que algo está a mudar” por causa “do processo de aquecimento do planeta”.

“A diferença de temperatura entre o Ártico e o Equador foi reduzida. Isso tem repercussões na circulação atmosférica”, descreveu Samuel Biener: “Há mudanças na corrente responsável pelo tempo à superfície. Essa corrente circula pelo globo de leste a oeste e, em vez de apresentar uma circulação retilínea de tempestades e anticiclones, apresenta ondulações pronunciadas. Isso traduz-se num elevador com ar muito quente do sul para o norte, o que explica os registos de alta temperatura e o ar frio do sul”.