A ameaça do coronavírus em território italiano acabou por antecipar o final de mais uma Semana da Moda de Milão. No domingo, Giorgio Armani acabou por apresentar a sua coleção à porta fechada. Esta segunda-feira, o último dia do calendário do evento, os desfiles da portuguesa Alexandra Moura e do japonês Atsushi Nakashima foram cancelados na véspera, uma decisão da Camera Nazionale della Moda Italiana “no seguimento das medidas tomadas pelo Ministério da Saúde e pelo Presidente do Governo Regional da Lombardia”.

“A minha posição é de completa solidariedade para com as medidas tomadas pelas autoridades italianas, em particular para com o Ministério da Saúde italiano e, consequentemente, com a decisão de cancelar os desfiles, por parte da presidência da Camera de Moda”, explicou a designer ao Observador, na sequência do cancelamento do seu desfile, esta segunda-feira.

As críticas de Armani e o desfile à porta fechada

Um dia antes, tinha sido o veterano Giorgio Armani a ver o desfile da sua marca homónima afetado pela evolução do número de infetados no país — a apresentação decorreu à porta fechada, sem público. O criador abriu a apresentação com um grupo de 12 manequins chinesas, vestidas com peças de alta-costura, de coleções de 2009 e 2019, ambas inspiradas na China. Ao som de Rachmaninoff,o momento foi um claro tributo à grave crise de saúde público que afeta o país. Já a coleção do próximo inverno ficou marcada por acabamentos brilhantes, padrões florais e veludos pretos.

Giorgio Armani com as manequins no final do desfile deste domingo © Divulgação

Mas o criador de 85 anos já tinha dado que falar na última sexta-feira, por ocasião do desfile da linha Emporio Armani. “Estou farto de ouvir falar em tendências, não querem dizer nada. Trabalho para a mulher dos dias de hoje e não concordo, de todo, com este culto do passado como tendência. Por favor, parem de escrever sobre tendências”, afirmou Armani durante uma pequena reunião com os jornalistas presentes no evento. “Escrevam sobre o que o [Alessandro] Michele fez na Gucci, sobre o que a Miuccia fez na Prada, sobre o que estou a fazer, mas não alinhem nesse jogo. Têm de ir ao fundo da questão, ao pensamento que está por detrás daquilo que fazemos. Parem de ser dominados por esse delírio dos anos 90”, continuou, usando o revivalismo da moda da época como exemplo.

Giorgio Armani não se limitou a criticar o sistema de tendências. O discurso subiu de tom quando o criador se referiu à forma como a mulher surge na publicidade. “Estou num momento em que posso dizer o que penso. As mulheres são constantemente violadas pelos designers. Refiro-me a certos anúncios em que surgem de uma forma provocadora e seminuas. Há imensas mulheres que se sentem pressionadas para terem aquela aparência. Para mim, isso é uma violação”, prosseguiu. “Olhem à vossa volta — elas acham que, por usarem leggings pretas e um bomber, são modernas. Peço desculpa por esta explosão e pelas palavras fortes, mas tinha de dizer isto”, Concluiu.

Prada dá as boas-vindas a Raf Simons

Numa semana da moda que em tanto extrapolou as habituais conversas sobre tendências, inspirações e cenários de desfiles, houve ainda tempo para noticiar a chegada de um peso pesado a uma das mais emblemáticas marcas italianas. A partir de 1 de abril, Raf Simons vai assumir o cargo de codiretor criativo da Prada, juntado-se a Miuccia, neta do fundador da marca. Tal como foi anunciado no passado domingo, os dois terão “a mesma responsabilidade na tomada de decisões e no processo criativo”.

Bastidores do desfile da Prada © John Phillips/WireImage

Aos 70 anos, Miuccia Prada, que dirige também a marca Miu Miu, afastou a ideia de uma possível retirada. Por outro lado, a designer admitiu ainda que a estratégia comercial tem sido a grande prioridade da marca. A contratação de Simons é agora uma tentativa de voltar a dirigir o foco para o departamento criativo. “Precisamos de reforçar o lado criativo do negócio. Gostamos um do outro, respeitamo-nos um ao outro e vamos ver até onde podemos chegar”, afirmou a diretora criativa.

A ida de Simons para a Prada era um rumor de há semanas e que só agora foi oficialmente confirmado. Além da própria marca de menswear, na última década o designer belga dirigiu a maison Dior e passou ainda pela Calvin Klein. O criador regressa à fashion week italiana, depois de ter desenhado as coleções da Jil Sander, entre 2005 e 2012. “A indústria da moda está a evoluir em direção a um ponto em que poderá vir a descartar os criativos. A possibilidade de ter um negócio forte sem um trabalho criativo forte é algo que vejo como uma hipótese cada vez mais real. Isso é algo com que eu e a Muiccia, não concordamos, e sei que muitos outros designers não concordam também. Achamos que neste negócio a criatividade não deve ser esquecida”, afirmou Raf Simons, durante a conferência de imprensa deste domingo.

A marca desfilou na passada quinta-feira, em Milão. Sob a ideia de que uma mulher pode ser forte e feminina ao mesmo tempo, Miucci apresentou uma combinação entre elementos tipicamente femininos, como franjas e pedraria — aos quais chamou “clichés de feminilidade” –, com referências tradicionalmente masculinas, trazendo blazers de corte reto, camisaria clássica e gravatas para a passerelle. Uma coleção que não passou ao lado do athleisure, sobretudo à medida que os casacos acolchoados e os vestidos perfurados pisaram a sala de desfiles.

Versace, o espetáculo. Bottega Veneta, o fenómeno

Várias outras marcas partilharam as atenções no grande palco da moda italiana. Durante cinco dias e antes de o coronavírus interferir no calendário de desfiles. Estrelas, convidados e jornalistas de todo o mundo assistiram às apresentações da Gucci, Fendi, Moschino, Versace e Dolce & Gabbana, ainda que à margem do programa oficial, no caso desta última. Alessandro Michele deu o pontapé de saída logo na quarta-feira com uma miscelânea de referências — dos vestidos colegiais e do burlesco ao grunge e à cultura hippie. No mesmo dia, foi revelado mais um capítulo da saga Moncler Genius, mais precisamente o da colaboração com o britânico Jonathan Anderson, uma receita de color block e motivos naturalistas.

Apresentação da Gucci © Daniele Venturelli/Getty Images for Gucci

Na quinta-feira, a Fendi abriu alas para uma comitiva de convidadas especiais. Jill Kortleve e Paloma Elsesser fizeram história como as primeiras manequins plus size a desfilarem para a marca italiana. Karen Elson, Liya Kebede, Carolyn Murphy e Jacquetta Wheeler contrariam a ditadura da juventude e também pisaram a passerelle. E se Jeremy Scott desenhasse o guarda-roupa de Marie Antoinette à luz dos anos 80? Foi o que aconteceu na coleção da Moschino para o próximo outono. Corpetes, tecidos acetinados, laços e brocados foram os protagonistas do humor histórico que caracteriza a marca italiana.

Desfile da Moschino © Estrop/Getty Images

Para a Versace, a última sexta-feira foi de estreia. Pela primeira vez, a marca apresentou as coleções feminina e masculina no mesmo desfile, uma parada de silhuetas negras que evoluiu rumo à extravagância de padrão zebra e estampados florais em tons néon. Com uma aposta clara no vestuário diurno, Donatella Versace usou as bainhas curtas, as silhuetas cintadas e os ombros volumosos como principais cartadas. O conforto de malhas e casacos desportivos contrastou com os vestidos diminutos, entre eles, um modelo prateado usado por Kendall Jenner no encerramento do desfile. Estrelas não faltaram — Donatella não teve JLo, mas compensou com um esquadrão de peso composto por Bella Hadid, Kaia Gerber, Irina Shayk, Stella Maxwell, Adut Akech, Anja Rubik e Natasha Poly.

Também na moda, os desgostos e ausências se curam com novas e esperançosas promessas do design. Esta Semana da Moda de Milão foi o palco em que brilhou a Bottega Veneta, que em junho de 2018 acolheu o britânico Daniel Lee como diretor criativo. Lee redefiniu a marca italiana, fundada em 1966. Discípulo de Phoebe Philo, antiga designer da Celine, levou o minimalismo e a pureza das linhas e conquistou com eles um novo público. A chegada do designer, agora com 34 anos, pôs fim a anos de resultados negativos. Segundo o Business of Fashion, as vendas cresceram mais de 2% em 2019 — 9,4% só no último trimestre do ano.

Com homem e mulher no mesmo desfile, Lee apontou a mira a vestidos de malha e longos sobretudos cintados. No meio de uma sobriedade predominante, acrescentou cor e brilho, quer através de lantejoulas, quer através do uso cirúrgico de tons como o verde limão, o vermelho e o fúcsia. Eis as cores da nova Bottega Veneta.

Desfile da Bottega Veneta © Vittorio Zunino Celotto/Getty Images

No domingo, fora do calendário oficial de desfiles, foi a vez da dupla Dolce & Gabbana, que tingiu de preto quase toda a coleção — o desfile foi composto por 121 coordenados –, de forma a fazer sobressair materiais e texturas, mas sobretudo a técnica e a arte dos ofícios italianos. Dos tricots e crochets aos bordados e rendas, passando pelos corpetes de atilhos, pelas aplicações de pedras, pelas peças de alfaiataria e camisaria, pelas gravatas em seda, pelas peças de ourivesaria e pela manipulação da pele, não foram apenas os habilidosos artesãos que se excederam. Num registo boyish sem precedentes, os criadores proporcionaram a chave de ouro que Milão precisava.

Final do desfile da Dolce & Gabbana © Estrop/Getty Images

Na fotogaleria, veja imagens dos desfiles que marcaram a Semana da Moda de Milão. Até dia 3 de março, é em Paris que se centram todas as atenções, com desfiles das grandes marcas francesas, e não só — Chanel, Valentino, Louis Vuitton, Balenciaga, Dior, Saint Laurent, entre muitas outras.