Depois de no início de fevereiro ter acusado o Teatro Municipal do Porto (TMP) de censura, a dramaturga Regina Guimarães lançou uma declaração contra a censura, o assédio laboral e o controlo autoritário do trabalho dos criadores e artistas financiados por fundos públicos. O manifesto foi publicado este sábado e já conta com mais 440 subscritores.

O documento começa com o poema “Pranto pelo Dia de Hoje”, de Sophia de Mello Breyner Andresen (‘Livro Sexto’ 1962) e, apesar de não ter qualquer referência ao alegado caso de censura no TMP, essa parece ter sido a principal motivação. Regina Guimarães fala no coletivo e garante que não optará pelo “silêncio ou indiferença” nem dará cobertura a “atos de censura cometidos a pretexto de proteger a reputação e os interesses de indivíduos ou grupos de indivíduos ligados ao poder” ou a “atitudes de assédio laboral e/ou chantagem adotadas a pretexto de impor o silêncio acerca de condições e de processos de trabalho”.

 

“Modos de contratação que incluam exigências de obediência cega e sigilo coagido ao arrepio de direitos inscritos na constituição da república portuguesa; posturas e procedimentos, explícitos ou ocultos, de controlo autoritário dos criadores e dos processos de criação viabilizados por fundos públicos, que emanem de responsáveis pela política cultural e seu enquadramento; e alterações notórias da civilidade no trato e da cordialidade devida aos criadores que desenvolvem trabalho em espaços financiados por fundos públicos, na sequência de eventuais dissidências, ditadas por visões do mundo dissemelhantes, entre os beneficiários de apoio e os agentes do poder cultural” são outros tópicos descritos.

Em declarações ao Observador, a dramaturga explica que não se trata de uma petição, mas sim de uma declaração, cujo objetivo é “chamar a atenção para o que parece óbvio, mas não o é”. “A censura existe porque alguém o faz e deixa fazer”, sublinhou, afirmando que “o silêncio nãos nos protege”. Regina Guimarães ainda não tem uma data definida para o envio da declaração ao Presidente da República, primeiro ministro e ministra da Cultura, mas mais do que “reações pomposas” espera “vigilância” e “atenção” por parte de quem assume as rédeas da governação.

Na lista de subscritores constam nomes como a atriz Sara Barros Leitão, Mário Moutinho ou António Capelo, encenadores como Jorge Silva Melo, Nuno Carinhas, Roberto Merino e Tiago Correia, ou políticos ligados ao Bloco de Esquerda como José Soeiro, Susana Constante Pereira e João Teixeira Lopes.

A polémica começou no passado dia 4 de fevereiro, quando a dramaturga acusou de censura o TMP. O texto em causa, escrito para integrar a folha de sala — que não chegou a existir — do espetáculo “Tursimo”, da Companhia A Turma, com texto original e encenação de Tiago Correia, continha uma nota de rodapé no qual a escritora criticava a noção de cidade líquida de Paulo Cunha e Silva, antigo vereador que morreu em 2015.

Seguiram-se também as denúncias da atriz Sara Barros Leitão ao Público e do encenador Tiago Correia, que acusou o diretor artístico, Tiago Guedes, de “chantagem emocional, coação, ameaça e abuso de poder”. Perante estas acusações, Tiago Guedes, diretor artístico do TMP, refutou qualquer tentativa de censura, mas admitiu que se deixou levar pela emoção na defesa da honra do antigo vereador da Cultura.

 

“Percebo também, a esta distância dos acontecimentos, que não equacionei então a possibilidade de leitura diferente da minha manifestação de incómodo, que, vejo agora, poder existir. De facto, a esta distância, consigo perceber que a leitura de um encenador em vésperas de estreia possa ter sido a de uma tentativa de limitação à sua liberdade de expressão. Não foi, porém, essa a minha intenção, e quem me conhece saberá que nunca assumiria ou consideraria defensável qualquer atitude de censura”, escreveu na sua página no Facebook.

Regina Guimarães lança o manifesto depois de apresentar a sua demissão, na passada quinta-feira, do Conselho Municipal de Cultura. Esta segunda-feira, Carla Miranda, atriz e deputada socialista na Assembleia da República, e Vânia Rodrigues, atriz e gestora cultural, fizeram o mesmo.