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Bem-vindo ao Realpolitik, uma conversa sobre política e atualidade todas as semanas aqui na Rádio Observador e em podcast. Eu sou o Miguel Pinheiro.
Eu sou o Sérgio Azevedo.
E hoje nós vamos falar sobre dois temas. Mais daqui a pouco vamos conversar um pouco sobre o resultado das eleições na Alemanha no domingo, que deram uma vitória à AFD, ao partido de extrema-direita. Mas antes, Sérgio, as coisas realmente importantes: tivemos uma moção de censura na terça-feira, moção de censura do Chega por causa de Luís Neves. A moção de censura foi chumbada, o governo anunciou que nos vai distribuir umas esmolas até o fim do ano. Olhando para o que aconteceu, o ponto clássico é: o governo saiu fragilizado ou saiu fortalecido? E até onde é que isto trouxe o Chega? Isso foi uma boa estratégia do Chega avançar pra moção de censura ou não? Como é que o ministro fica? Não sei, destes pontos todos, qual é aquele ponto do qual te custa menos falar?
Uma vez que esta semana só vamos tratar desgraças, vamos tentar uma abordagem positiva.
Olha!
A esmola que tu referiste. Sempre que vem uma moção de censura, a reação do governo passa pela distribuição de esmolas pelos necessitados.
Bacalhau ao petaco.
Bacalhau ao petaco. Lá vai haver o aumento extraordinário de pensões.
400 milhões?
400 milhões não é isso. 400 milhões acho que é os impostos.
É 400 milhões cada.
É 400 milhões cada?
É.
Pronto.
Assim as pessoas não se baralham nas contas e dão 400 milhões cada uma. É isso.
E uma baixa de impostos até o sexto escalão, que custa 400 milhões. 400 milhões é nada. 400 milhões é uma reduçãozinha, equivale mais ou menos à gloriosa e triunfante entrada do Estado no capital da REN. Mas pronto, é assim. Eu começo logo pelas esmolas pra isto não ser demasiado depressivo. As moções de censura do Chega parecem quase aqueles eventos anuais, como o 5 de Outubro, os fregados religiosos, há sempre.
Festival de verão.
Festival de verão.
Festa do Avante.
Festa do Avante. Há sempre. Nós temos quase todos os anos uma moção de censura.
Ano passado tivemos duas. Uma do Chega e uma do PCP.
Espera lá, então estou a ver isto mal. Tens razão. Eu na minha inocência só fui ver as do Chega, mas afinal também a do PCP.
O PCP também gosta de apresentar moções de censura.
1 de julho de 22, contra António Costa, rejeitada. 15 de setembro de 23, contra António Costa, rejeitada. Tudo Chega. 18 de fevereiro de 25, contra Luís Montenegro, rejeitada. E 2 de setembro de 2026, rejeitada, também do Chega. Isto só são o Chega. Mas os outros também têm direito, de vez em quando dar sua moçãozinha de censura.
O sol quando nasce é pra todos.
Mas o que é engraçado é que cada vez que estas iniciativas ocorrem, são tratadas num estado de paroxismo e comoção nacional: "Moção de censura, lá vamos nós pra mais uma moção de censura!" Pois bem, passa-se aquela tarde, o resultado previsível confirma-se. O governo continua.
Até hoje só houve uma moção de censura aprovada.
Chega perde.
Que foi contra Cavaco Silva, que depois levou à primeira maioria absoluta.
Alguém disse, até não sei se não teremos sido nós, que já tivemos 34 moções de censura desde que alguém criou essa importante figura. O que é espantoso é que é tal a falta de disponibilidade e hábitos de discutir coisas importantes, que estamos sempre a elaborar e a entrar em transe, transe nacional de moção de censura. Quem ganhou? Quem perdeu? Quem conseguiu? Quem naufragou? O Chega, se tivesse sido bem-sucedido nessa moção de censura, que nunca seria, como é evidente, tinha logrado um grande objetivo nacional, que era em quatro anos termos cinco eleições, que é uma das coisas que nós, pra juntarmos aos problemas que temos e que não conseguimos resolver, passávamos a viver em permanente estado de campanhas eleitorais. Aliás, é o modo de vida do Chega, adora campanhas. O Chega está em campanha durante a campanha. Quando acaba a campanha, ninguém o avisa e continua em campanha. Depois vem a moção de censura, retoma a campanha, é uma campanha permanente. E depois o líder da oposição, como não se presta a este papel, o melhor líder da oposição agora é o próprio Ventura, porque tem o partido mais votado. Mas e o PS? O PS. Mas nem se vê o PS. O PS não faz política assim. Se fizesse, era engraçado, ainda tínhamos mais moções de censura. O país era uma fantochada politicamente ingovernável. E já agora vamos falar de eleições. Janeiro de 22, março de 24, maio de 25. Isso se não fosse o feliz desfecho de ontem, do chumbo da moção e da distribuição de Como é que tu dizias?
Das esmolas.
Ia distribuir-se o ritual das esmolas. Tínhamos a quinta eleição em novembro de 26 ou dezembro de 26. Eu pergunto: mas isso? Mas não, comanda o Chega e Ventura e as suas coisas, comandam o noticiário, comandam a agenda política e toda a gente segue este foguetório. Como se esta procissão de tentativas de balcanizar o funcionamento das instituições e do país, e de o subordinar a uma agenda demagógica, muito parecida com o que está acontecendo em outros países da Europa, fosse mais um dos privilégios da democracia portuguesa nesta sua fase tardia e relativamente decadente.
Mas achas que o problema está onde? Ou seja, o espaço é ocupado pelo Chega. Por quê? Porque o mundo é um sítio horrível que permeia os políticos de baixos instintos ou, em alternativa, porque, nomeadamente o governo, não faz o seu trabalho como ele deveria ser feito. A mim dá uma sensação de que o PSD está a viver, o PS não é governo neste momento, não é o meu ponto, mas o PSD dá-me a ideia que vive numa cave escura e não lê jornais, nem vê televisões, nem tem acesso a wi-fi. Porque se tu olhares, como dizias, para vários países europeus, não estamos a falar de países lá longe, no Sudeste Asiático, não estamos a falar da Papua Nova Guiné, onde acontecem umas coisas politicamente exóticas. O que tu vês nos vários países com os quais nós nos podemos comparar, são os partidos de governo tradicionais a serem varridos, sem, na maior parte dos casos, apresentar resistência. E o PSD também não está a apresentar resistência.
Eu considero, provavelmente nisto estaremos de acordo, que este governo não está à altura do momento histórico. Sinceramente, não está. E também não estou a ver qual é o momento histórico que merecia um governo destes, mas não interessa. Em todo caso, não está à altura deste momento histórico.
Acho que essa é uma ótima formulação.
Pronto. Agora, é preciso também perceber que as responsabilidades pelo crescimento das forças populistas anti-regime ultrapassam de longe a inércia e o poucochinho da ação governamental. A mediocridade do governo não é a causa disto. Tem que passar por ela a solução, tem que passar pelo governo, um governo melhor, mais reformista, mais capaz, em que os resultados se vejam e apareçam. Isso é essencial. Agora, dizer que a circunstância do crescimento da extrema-direita pela Europa toda e em Portugal também, tem a ver com os Montenegros e os outros Montenegros dos demais países. Isto não faz sentido, nem é justo. É preciso ver que, já não sei quem dizia, as democracias são uma bicicleta que tem que estar sempre em movimento. Se não há progresso, se não há resultados, se não há melhorias palpáveis, a bicicleta cai. Esta ideia de que a bicicleta da democracia é uma bicicleta tão prestigiada e tão profundo amada pelo povo, que se segurará sempre sozinha, sem precisar de rodinhas, é uma ilusão. Isto tem que melhorar.
Mas quem é que tem que estar a dar ao pedal?
Não, tem que dar ao pedal. O que tem que dar ao pedal, evidentemente, é o sistema político e é o governo e é o sistema económico também. Agora, nem sempre a bicicleta encontra o mesmo piso. Quer dizer, há momentos que são realmente difíceis. É preciso ver que os últimos anos começaram como todas as crises geralmente começam. Começou com uma crise do imobiliário nos Estados Unidos, que se transformou numa crise financeira brutal, que se transformou numa crise das dívidas soberanas tremenda, que no caso português trouxe uma troika, trouxe a diminuição de salários, depois trouxe alguma recuperação, mas não trouxe reversão da carga fiscal que foi aumentada. O país e o mundo estão em profunda transformação. É difícil hoje em dia criar as condições económicas, e com o nosso sistema e o estado em que o país está é virtualmente impossível, de competitividade e crescimento para que os jovens tenham acesso a empregos adequadamente remunerados ao nível das respetivas formações. Estamos a assistir a uma fuga de gente qualificada para o estrangeiro. Estamos com uma pirâmide demográfica do avesso, que põe em crise as pensões e agrava a carga fiscal que as pessoas suportam. As cargas fiscais aqui e em toda a parte estão em níveis históricos. Temos uma guerra na Europa, temos uma crise energética. Tivemos o Covid, os Estados endividaram-se brutalmente pra pagar todos os empregos, subsídios, salvar empresas, pagar as famílias durante o Covid, o que veio a aumentar monstruosamente a dívida pública e contribuir pra suspeição dos mercados, que agora estão sempre de olho nas dívidas soberanas, não é verdade? Portanto, estamos sempre a ter que amortizar a dívida. Cada vez que amortizamos a dívida, e temos que fazê-lo, não estamos a subir salários, a fazer aquelas coisas que nós consideramos que seriam necessárias pra evitar que toda a gente se vá embora. Isto são demasiados anos disto. São demasiados anos disto. Nós somos de uma geração Quem ainda se lembra do período anterior? Como nós já não somos propriamente dois teenagers, temos que perceber que a geração que veio a seguir a nós só conheceu dificuldades.
Claro, Sérgio.
O problema da habitação. Nós nunca fomos propriamente prósperos, mas a habitação, ter uma casa, ter um teto neste país, não era um projeto impensável. Hoje em dia a habitação está afastada do radar da vida das pessoas. Quem é que pode comprar casa?
Claro, Sérgio, eu lembro-me perfeitamente do choque. Lembro-me ao detalhe do momento em que eu percebi, pela primeira vez na vida, que a minha vida não ia ser sempre a subir. Houve um momento em que eu percebi que eu não ia-
Espero que não tenha sido ao tener uma pessoa de censura.
Que eu percebi que o salário que eu recebia pelo meu trabalho não ia estar sempre a subir, que as minhas poupanças não iam estar sempre a subir e que eu não ia estar sempre a passar de uma casa para uma casa melhor. Houve um momento, que coincidiu, claro, com a altura da Troika, em que se percebeu que isto ia mudar e que aquilo que nós temos vindo a viver desde sempre, e é a grande progressão social que cada português seguramente consegue contar da sua família. Eu olho para os meus avós e olho para mim hoje, e eu vejo uma progressão impressionante. E isso não vai continuar.
Mas também podes olhar para os teus pais.
Não, claro.
E aí já começas a ver certas nuances. Tu notas que a vida é diferente, mas em muitos aspectos não é melhor.
Não, certo. Mas se não são os governos que tomam medidas radicais, eu acho que aí há um problema de velocidade e de noção de urgência. Este governo e outros governos lá fora, por razões misteriosas, não têm o sentido de urgência. Luís Montenegro, no início, no primeiro governo em 2025, de facto, tinha um bocadinho esta vontade de estar a anunciar coisas em permanência para mostrar uma grande atividade. Mas os anúncios não resolvem tudo. E nós nos Estados modernos, os governos estão permanentemente bloqueados por regulamentos, leis, exigências e é impossível mudar as coisas. E quando um político populista como o Trump, por exemplo, chega ao poder e de repente começa a partir paredes, concordemos ou não com as medidas, o meu ponto não é esse, mas começa a partir paredes e a obter resultados muito rapidamente, claro, com muitas decisões trágicas, como é evidente. Não é esse o ponto. O ponto é a capacidade de obter resultados e de fazer coisas que nós não vemos em mais lado nenhum. Nós já vamos falar da Alemanha, mas vamos deixar a Alemanha para a segunda parte. Mas quando tu olhas para a Inglaterra e para o crescimento do Nigel Farage, por exemplo, e agora até de um segundo partido à direita do Nigel Farage, tu vês que os conservadores estiveram paralisados durante anos, tirando aquele momento de loucura da Liz Truss, que se espetou contra uma parede a tentar fazer mudanças rapidamente. O Labour esteve paralisado com o Keir Starmer. Vamos ver o que é que acontece agora, mas não se veem grandes mudanças. E isso faz com que os eleitores, que como tu dizias, estão cansados, comecem a olhar para outros lados.
Repara no seguinte: nós somos de uma geração em que basicamente, as pessoas podiam ter sucesso, carreiras boas, melhorar a sua condição, mas fundamentalmente, a vida consistia em fazer descontos para a Segurança Social, por causa da prevenção dos riscos sociais e a pensão de velhice. Portanto, era uma parte muito substancial da nossa poupança. Ou seja, no nosso modelo europeu, eu ao invés de ter uma almofada debaixo da cama, que em vez de soma uma, tem notas, não, eu tenho a Segurança Social, eu desconto para a Segurança Social. Os americanos têm uma sociedade em que são mais responsabilizados e estão entregues à sua sorte. Sistema que funciona desastrosamente, não interessa. Nós aqui poupamos através dos descontos para a Segurança Social. E além dessa poupança, ainda tínhamos outra, que era a poupança forçada do pagamento do nosso crédito à habitação. Portanto, nós comprávamos um bem e nós passávamos a nossa vida tranquilamente. Se pudéssemos amortizávamos, a banca sempre, que é quem manda neste país, inventava aquelas penalizações para quem tinha o atrevimento de querer libertar dela. Mas o Estado incapaz de se impor à banca, porque o Estado é fraco e inércia. Mas a verdade é que havia estes dois caminhos: a poupança, que me tranquiliza em relação ao futuro, e por outro lado, o incremento patrimonial, que é pagar minha casinha ao longo dos anos, através de prestações, durante um período histórico, que foi um período histórico de juros baixos, um período histórico absolutamente excecional e dificilmente repetível.
Certo.
E esse período de juros baixos, porque foi um período de ausência de inflação ou inflação baixíssima, teve a ver com a entrada da China no mercado mundial e com a transformação da China na grande máquina industrial que passou a prover o mundo de bens baratos.
Sério.
As coisas tornaram-se baratas. Isto mudou a nossa vida.
Já voltamos ao pós, ao que aconteceu depois disso, e também já vamos falar da Alemanha. Vamos só fazer um intervalo curtíssimo. Bem-vindos de volta ao Realpolitik. Sérgio, estávamos a falar daquele momento em que o mundo ocidental chegou a esse nirvana da opulência: China, produtos baratos, nenhuma inflação. E estavas tu a dizer o quê?
Estava a dizer que nós, quando tentamos compreender as pessoas que têm como único recurso para reagir contra a sua frustração, que nós aqui descrevemos e procuramos explicar, certamente de forma imperfeita e incompleta, mas sempre é uma aproximação, nós temos que perceber a mundividência dessas pessoas. Elas não têm alternativa senão lutar contra a implosão geral disto tudo. Geralmente, quando a única ferramenta que dispomos é um martelo, é muito mais fácil partir tudo do que construir o que quer que seja. Mas agora há uma multidão, como se diz, empoderada com o seu martelo pela Europa toda. Não sabe bem o que há de fazer com o martelo, mas vai desferindo golpes no sistema, e o sistema tem dificuldades em reagir. A geração que veio a seguir a nós só ouve todos os dias que a Segurança Social está em crise, que não vai ter direito à pensão, que o esforço fiscal é de tal ordem que já vamos pagar impostos colossais para pagar pensões diminutas e quando chegar a vez deles vão ter uma pensão insignificante, depois de lhes ter sido sonegada toda a poupança ao longo da vida. Não sonham com comprar uma casa, porque têm que pagar uma entrada. Começa logo o problema com a entrada. Nós somos de uma época em que nem entrada era preciso.
Sim, quase te ofereciam o dinheiro.
Quase te ofereciam o dinheiro. Quando pensamos nessas pessoas, nós temos que tentar perceber as circunstâncias delas. E tu sentes uma grande frustração por uma razão especial. Eu nunca achei que os problemas do país fossem causados pela direita. Quando se dizia: "A direita nunca mais vai governar, nunca mais precisaremos da direita para governar. De um lado está aqui a esquerda e do outro lado está a direita nauseabunda. E nunca estes nauseabundos vão exercer o poder, porque a esquerda tem aqui uma maioria de progresso." Eu nunca acreditei nessa conversa. Eu nunca achei que o problema do país fosse a direita. A direita é um território político, histórico, cultural, econômico, filosófico, com sua própria mundividência, que tem que negociar com a esquerda, e é assim que se governa. Só que havia um cavalheiro pelo qual eu tenho a máxima apreço e amizade, que achava que a inércia nacional tinha origem no chamado socialismo. E agora que já não há socialismo, está espantado porque o país não vai a lado nenhum. Ou seja, tu estavas num ponto de vista simétrico.
E o cavalheiro sou eu.
Claro! Acaba-se com o socialismo, acaba-se com a esquerda, acaba-se com o António Costa, acaba-se com esta gente toda e finalmente as forças vivas da sociedade vão transformar-nos numa Cingapura, mas não se vê Cingapura nenhuma. O que se vê é uns espetáculos para os idosos, 400 milhões que é nada para os impostos. E portanto tu vives num Estado em que já não podes culpar o socialismo. O que é que tu hás de culpar? Como é que tu hás de organizar mentalmente, racionalizar o que nos está a acontecer?
Sérgio, eu culpo-me a mim. Culpo-me a mim todos os dias.
Pronto, vergas-te diariamente? Faz esse ato de contrição e tal. Espero que tenha uma dimensão em que também te .
Tenho sempre o meu minuto heroico, como se diz numa determinada organização da Igreja Católica. Mas de facto, tu estavas a referir as frustrações das novas gerações. Há duas coisas interessantes na vitória da AFC, do ponto de vista da análise na Alemanha. Uma vai de encontro ao que tu disseste e a outra é uma evolução do que tu disseste. A que vai de encontro ao que tu disseste é a grande presença do voto mais jovem e de um conflito geracional. De facto, os jovens pensarem: as gerações que vieram atrás de mim tiveram tudo, tudo e mais alguma coisa, e agora que estão reformados, continuam a querer tudo. Querem ter os direitos todos, querem ter as pensões altas, querem tudo, à custa seja de quem for, à minha custa. E portanto, eu não estou para isso. Eles já tiveram uma vida boa, eles já beneficiaram das facilidades econômicas e do ambiente econômico que tu descreveste. E agora eu? E agora quem é a minha vez? Não, eu não vou continuar a pagar por isso. Eles agora vão ter que sofrer tanto como eu. Se eu não tenho direitos adquiridos, eles também não têm. E de facto, esta quebra geracional é altamente problemática. No Reino Unido, ouve-se a mesma conversa. Eu acho que em Portugal ainda não se ouve, mas é tudo uma questão de tempo. Em Inglaterra existe uma enorme revolta das novas gerações contra os baby boomers, contra isso tudo. Esse é um ponto. O ponto em que há uma evolução em relação ao que tu dizes. Eu estive a ler um artigo interessante, já não sei se era do Carnegie. Já não sei bem.
No teu caso devia ser a Spectator.
Por acaso era a Spectator. Em que eles explicavam uma mudança que houve em França na forma como os eleitores olham para a Le Pen Em que houve uma mudança, em que em vez de haver um voto na Le Pen de rejeição do resto, há um voto de adesão ao que a Le Pen diz. E nesse mesmo artigo eles tinham uma coisa interessante daquilo que foi uma mudança do slogan da AFD que passou de um chega, do basta, chega, basta, chega, basta disto, para o slogan do candidato da AFD nestas eleições que foi tudo é possível. Ou seja, passar de uma mensagem de frustração pra uma mensagem de esperança, e que isso lhes permitiu mobilizar as pessoas. E é uma mudança muito grande, porque isso também é que leva a uma alteração daquele ponto clássico que se fala sempre em relação aos políticos da direita populista, que é a taxa de rejeição. E esta semana também por causa da tracking poll da CNN se falou do fato de André Ventura ainda ter uma taxa de rejeição muito grande. O que nós estamos a ver lá fora em vários países é que a taxa de rejeição diminui muito em relação a alguns políticos e noutros dá o salto. Dá a volta e passa a haver uma adesão a esses políticos. E isso pode acontecer, qualquer uma destas duas coisas pode acontecer em Portugal, ou seja, acentuar-se o conflito intergeracional, por um lado, e por outro lado, o Chega, por exemplo, passar a ter um discurso mais de esperança e menos de protesto e isso funcionar. E se isso acontecer, é game over.
Mas pra ter um discurso de esperança, tem que haver também um discurso programático. E o que se vai ouvindo de programático do Chega, e que não seja embirrar com os paquistaneses, não sei o quê, são propostas estatísticas. Estatistas, perdão. São propostas estatistas. É aí que os portugueses vão depositar esta esperança? Mais estatismo? O problema do país é que não se reforma. A aversão do país às reformas é geral. Vai dos políticos ao chamado povo português. O país é contra as reformas. Por isso é que tu podes estar à espera da direita canta e da manha canta e do socialismo que é inerte, depois vem a direita. Não acabou. O país é contra as reformas. O país é visceralmente. Há uma parte do país, que é a que eu chamo o país não resignado, que quer as reformas, porque o país percebe que sem crescimento não saímos desta situação. E se tu aceitares, se convergires comigo, e estiveres de acordo, e disseres: "Certo, tens toda a razão.” O problema central do país é o nosso atraso, e o nosso atraso tem a nossa incapacidade de gerar crescimento, porque é que não há crescimento, e só isto nos pode levantar deste estado e resolver o conflito geracional, equilibrar as pensões e gerar oportunidades de emprego. Pronto.
Mas tu vês alguém articular essa mensagem?
E eu pergunto: isto pode vir do estatismo do Chega?
Não, mas ó Sérgio...
Como é que vão criar esperança? É só enganar as pessoas.
Não, mas eu não estou a dizer que isso é a solução. Não, eu só estou a dizer que está a haver esta mudança sociológica, por assim dizer, lá fora.
Mas lá fora é muito parecido.
E tu não tens essa articulação. O que tu tens na Alemanha? Na Alemanha tens o Merz a ter na cabeça essas ideias que tu estás a dizer e até conseguir articulá-las politicamente durante a campanha, ganha as eleições, sem uma maioria absoluta, claro, e o que é que ele vai fazer? Um governo com SPD.
Mas pensa no seguinte.
E, portanto, passa este tempo todo bloqueado.
A questão propriamente política, mas falando da Alemanha, a questão propriamente política é muito importante. Mas culpa tem o Merz da perda de competitividade da Volkswagen.
Eu posso dar-te a resposta nos eleitores da AFD. Sabes qual é a resposta?
Sim, liguem à Rússia outra vez. É, energia barata, tornamo-nos outra vez competitivos.
É a obsessão com as políticas net zero, que estraçalharam, nomeadamente a indústria automóvel alemã, e que permitiram que os chineses inundassem a Europa de carros baratos. Estou te a dizer o que um eleitor da AFD-
Isso é o que tu pensas ou é o que ele pensa?
Não, estou te a dizer que é aquilo que um eleitor da AFD diz. É que se a Europa se tivesse convencido que tinha que ser a única região do mundo a prosseguir uma política net zero e com isso mudando radicalmente, deitando fora uma série de indústrias, se não tivesse sido a única região do mundo preocupada com isso, neste momento não estaria às mãos de outras regiões do mundo que não têm essas preocupações, como a China.
A China algumas terá, uma vez que é campeã mundial, tornou-se a campeã mundial dos painéis solares, de indústria que roubou a Europa, tornou-se a campeã dos automóveis elétricos, que roubou a Europa. Por quê? Porque a China mantém uma política de mercantilismo agressivo. Estas medidas que a indústria automóvel europeia está a tomar para baixar o custo de produção dos automóveis, vamos lá ver que tipo de automóveis é que vão sair depois desta contração, destes cortes, destes despedimentos. Vamos lá ver se aquilo ainda...
Aqueles dos Flintstones.
Vai sair dos Flintstones, não sabemos. Pronto, não queremos dizer mal. Querem baixar o custo dos automóveis. O que vão conseguir baixar com estas medidas é ínfimo, comparado com o custo de produção. Porque o mercado chinês está inundado e, portanto, faz dumping pra se livrar do excesso. E como manipula a moeda ainda por cima, os carros chegam cá a preços. É de fato um mercantilismo agressivo. Supõe uma série de batotas econômicas e monetárias para aumentar a competitividade dos carros chineses. E depois ainda há outro aspecto, que é: a Alemanha viveu muito bem enquanto exportava para a China a tecnologia, os automóveis, a maquinaria pesada, a maquinaria de precisão, o que a China precisava para deixar de fazer brinquedos, as tais coisas baratas que nos ofereceram e garantiram mais de uma década sem inflação. De repente a China evoluiu e agora a China já faz igual ou melhor do que os alemães. E se faz igual ou melhor do que os alemães, e se inventa, se os carros chineses avariam e de repente são consertados com update, como os nossos iPads. E os nossos carros, continuamos a viver no nosso paradigma. Os chineses, objetivamente, o problema da competitividade contribui para os baixos salários, para os despedimentos. A China já vende 13% a 16% do comércio mundial, do Produto Mundial. O Trump tem uma solução, que não vai resultar, na minha opinião, que são as tarifas. As tarifas foram experimentadas a seguir à Primeira Guerra Mundial. Toda a gente sabe qual foi o resultado da Primeira Guerra Mundial, foi nacionalismo econômico e finalmente, da Segunda Guerra Mundial. Agora, como é que se faz a recuperação da competitividade? Dizer que a culpa é dos políticos, por causa das políticas net zero, quando nós passamos um verão a assistir a incêndios no norte da Europa, em países onde não há tantos meios, porque eles não estão habituados a lidar com esta realidade. É como nós, nós precisamos de meios para lidar com glaciares, precisamos de corta-gelos aqui em Portugal, em Portimão, em Olhão, precisamos de um navio quebra-gelo? Não precisamos. Eles também estão a lidar com incêndios colossais em florestas de coníferas, ou seja, pinheiros, coisas que ardem, como toda a gente sabe muito bem. Não têm tantas árvores bombeiras, coitados. Nós aqui temos as árvores bombeiras que nos salvam.
As árvores que trepam.
As famosas árvores bombeiras, que é mais uma das coisas que nós adoramos. Tu viste as imagens de Londres, tu viste as imagens da Inglaterra. Parecia o Baixo Alentejo. A Suíça? A Suíça parecia a Serra de Monchique. Isto são factos e nós temos que fazer alguma coisa.
Mas Sérgio, há um outro fato que é: essa política net zero tem consequências econômicas devastadoras. Porque tudo isso está a ser feito a uma velocidade enorme.
E por que não se faz cá?
E que está a dizimar indústrias.
Indústrias complacentes.
Tudo bem, Sérgio, mas os complacentes que ficam para trás, depois continuam a ter direito a votar, não é?
Claro! É só para explicar que as soluções políticas que consideram que afastar o primeiro-ministro Merkel, alemão, constitui o princípio de uma solução. E a seguir, vem o quê? O que é aquilo? O que é a AFD? A AFD é pró-russa, anti-NATO, anti-Europa, soberanista, impulsionada pelas dificuldades econômicas da Alemanha, que nos dará a nós estar na situação da Alemanha.
Eles são mais exigentes.
Outros padrões. Diz que está em crise a cultura de trabalho, uma cultura de trabalho, porque eles são protestantes, têm muito orgulho na sua cultura de trabalho, embora a gente trabalhe em Portugal mais horas do que eles, eles é que têm a fama de ter uma grande cultura de trabalho. Depois vêm fenômenos que convergem e que os ajudam, como a loucura das guerras culturais. O Ocidente a dilacerar-se para decidir se há homens, se não há mulheres, o que define o homem é a biologia, se não é biologia, é identidade, o que é identidade, depois há o homem que diz que não é homem, que escolheu ser cão, vamos ter quantas casas de banho. Isso foi uma coisa que gerou uma reação. Eu desde o princípio, e eu não sou profeta, sou uma pessoa que se engana muito, mas eu desde o princípio disse: "Isto vai provocar uma reação devastadora, que tem impacto político." Tudo convergiu para esta situação. Guerras culturais, energia caríssima, tudo, inflação, o preço de tudo sobe. É preciso combater a inflação, então os juros também sobem, os encargos com as casas também sobem. As fontes de energia que nós tínhamos, baratas, vinham da Rússia. Agora muito mais caras, têm outras origens. A AFD diz: "Vamos ligar já outra vez as pipelines que foram sabotadas, vamos ligar isto à Rússia, vamos ter outra vez acesso à energia barata." Isso vai resolver o problema da competitividade alemã? Não vai. A energia barata é fundamental para uma economia ser competitiva. Não vamos negar o óbvio. Mas o problema da economia alemã é que perdeu competitividade em relação à economia chinesa. Perdeu competitividade, porque os chineses não só se tornaram excelentes naquilo que os alemães faziam melhor do que ninguém, como inventaram um novo conceito, um novo produto. A maneira como os chineses encaram o automóvel é radicalmente diferente. Para pessoas como eu, é motivo de grande tristeza, porque eu não gosto nada destes iPads com pneus. Mas a verdade é que as coisas são como são.
Parece-me que a grande dificuldade é que o populismo de direita, que também é um populismo de esquerda, o populismo de esquerda também está coitadinho. O populismo de direita consegue articular uma proposta política, concordes ou discordes E a direita tradicional e a esquerda tradicional não conseguem articular uma proposta política e não conseguem executar, que é um outro problema. Claro que agora teremos que ver, a AFD ganhou numa pequeníssima região alemã, teremos que ver como é que vão executar as suas políticas, mas há uma incapacidade de articulação. Mas se nós temos políticos que nem sequer conseguem articular duas frases, como é que eles vão articular uma proposta política coerente? Tens 30 segundos, Sérgio.
Ah, é? Bom.
Tens 30 segundos. Isto é como no Parlamento, vai-se desligar o microfone.
Ok, pronto, rapidamente. A AFD, em termos nacionais, nas sondagens continua com 29%, o que é enorme, mas não aproxima propriamente do poder. Agora, o que é preciso ver é que a CDU está com 20%, os Verdes estão com 16%, à frente do SPD, que tem 12%, os comunistas do Die Linke têm 10%, os liberais do Genscher, grande partido coligado com a CDU, já vão nos 5%, ou seja, estão quase a abandonar o Bundestag. E depois ainda vem aquela famosa Sarah Wagenknecht, que é uma dissidência tipicamente do Partido Comunista, que tem 4%, que está quase a entrar no Parlamento e teve uma grande votação no Saxo-Vainál, vai entrar, pelos vistos, lá conseguiu os 5%. O SPD, nessa pequena região, teve 9%. Quer dizer, isto é o que está a acontecer na Alemanha. É uma profunda transformação eleitoral, um país que se está a rearmar, porque está a seguir uma política de defesa e assume as suas responsabilidades perante o resto da Europa, e que ao mesmo tempo é anti-NATO, acha que a NATO é império americano, a União Europeia é o império americano, a atual Alemanha é uma vassala dos Estados Unidos, a atual Alemanha tem que se entender é com a Rússia. Pronto, aqui está.
E também com a China. E é por isso que eu digo que Luís Montenegro devia ler alguns jornais alemães para ver se começava a acelerar as coisas, mas enfim. Vamos dar-lhe uma semana para isso, Sérgio.
Não sei se ele é versado na língua de Goethe.
Isto hoje em dia dá. Olhe, e com Goethe nos despedimos até à próxima semana. Um abraço, Sérgio.
Obrigado, um abraço.