Desde 2008 e da falência do Lehman Brothers, quarto maior banco de investimento americano, que não se via uma onda negativa tão intensa nas bolsas europeias. Lisboa esteve na linha da frente das desvalorizações. O índice PSI 20 que está reduzido a 18 empresas perdeu mais de cinco mil milhões de euros num só dia. E para essa perda, que para já é potencial — só se materializa se houver venda e pode ser revertida se as ações recuperarem — contribuiu de forma muito expressiva a Galp Energia.

A petrolífera portuguesa tem na produção de petróleo um dos seus principais negócios e está especialmente exposta ao sobe e desce da matéria-prima. Esta segunda-feira assistiu a uma maré negra nos mercados, na sequência do conflito entre os dois maiores produtores mundiais.  Rússia e a Arábia Saudita mantêm um braço de ferro sobre como deve a produção responder à queda da procura provocada pelo Coronavíruos. Os sauditas resolveram “inundar” um mercado já com excesso de oferta e o resultado foi um trambolhão alucinante de mais de 20%.

A Galp Energia foi a empresa que mais caiu em Lisboa, chegou a derrapar 25% e fechou com uma perda de 16,5%, a valer menos 1500 milhões de euros que no fecho da sexta-feira. Os seus maiores acionistas, com destaque para a família de Américo Amorim, estão entre os principais perdedores. A pressão foi tanta que a empresa liderada por Carlos Gomes da Silva veio a público com uma mensagem de confiança.

“Estamos a acompanhar de muito perto a evolução da situação; estas ocorrências são cíclicas e fazem parte da dinâmica dos mercados, devendo ser endereçadas com serenidade. Os mercados têm sido pressionados pela expectativa de menor procura global causada pelas circunstâncias derivadas do COVID-19 e, agora também do lado da oferta, com a expectativa de maior produção de matérias primas por parte da OPEP/Rússia.

Estamos num ciclo desafiante, mas confiantes, tendo em consideração o perfil integrado dos nossos negócios, dado que atuamos em toda a fileira do setor. Neste contexto, a Galp manterá o seu foco na otimização operacional das suas atividades, assentes numa elevada resiliência dos seus projetos e na robustez financeira da empresa.”

A Sonangol que é acionista, indireta da Galp, e o segundo maior acionista do BCP, também viu os seus investimentos em Portugal afetados e de que maneira. As participações imputadas à petrolífera angolana, que é também castigada pela queda do petróleo, perderam 200 milhões de euros do seu valor num só dia.

Aa “parceira”, agora incómoda na Galp Energia, Isabel dos Santos, também sai a perder desta segunda-feira. As participações indiretas na Galp e na Nos desvalorizaram mais de 100 milhões de euros. A operadora caiu 6,6%.

Os chineses são outros investidores importantes na bolsa de Lisboa. A Fosun, que controla a seguradora Fidelidade, registou algumas perdas na REN, mas foi na qualidade de principal acionista do BCP, com mais de 20%, que sofreu a maior facada nos seus ativos. O banco, o único que continua a fazer parte do principal índice da bolsa, tem sido um dos mais castigados pelos efeitos do coronavírus. Só ontem derrapou mais de 15%.

Nem a EDP escapou a este sentimento negativo com um trambolhão de 7,35%. A China Three Gorges, que recentemente conseguiu encaixar quase 300 milhões de euros com a venda de 1,8% do capital da elétrica, “perdeu” agora quase 250 milhões de euros.

A Jerónimo Martins, outro peso pesado de Lisboa, nem foi das maiores quedas — desvalorizou mais de 5% — mas é uma das empresas mais valiosas. O facto de concentrar uma fatia relevante do capital levou a família Soares dos Santos a ser uma das maiores perdedoras, no imediato. As suas ações desvalorizam pouco mais de 300 milhões de euros, mas podem recuperar.

As ações detidas pela família Queiroz Pereira, que é a maior acionista da Semapa e da Navigator, desvalorizaram cerca de 166 milhões de euros. A Navigator, uma das principais exportadoras portuguesas, caiu mais de 9%.