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▲A Binance foi fundada em 2017 e opera uma plataforma de negociação de criptoativos

VCG via Getty Images

▲A Binance foi fundada em 2017 e opera uma plataforma de negociação de criptoativos

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Um portátil, 5,6 mil milhões em 20 minutos e ligações à Coreia do Norte. Como a Binance foi alvo do maior roubo de cripto de sempre

É o maior roubo registado no setor dos criptoativos. Para já, as análises atribuem “com elevada confiança” a responsabilidade a um grupo cibercriminoso com ligações à Coreia do Norte.

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Em cerca de 20 minutos desapareceram 5,6 mil milhões de euros das carteiras da Binance, a maior plataforma de negociação de criptoativos. O montante dá à companhia um título que ninguém quer: o de alvo do maior roubo da história dos criptoativos.

A empresa revelou que foi alvo de um ataque informático na quinta-feira à noite, estimando um impacto total de 5,6 mil milhões de euros. A empresa conseguiu congelar cerca de 2,7 mil milhões de euros. Abriu imediatamente uma investigação, frisou que os fundos dos utilizadores não foram afetados e que vai cobrir todas as perdas. Terão sido afetadas as próprias carteiras da Binance e não as wallets de clientes.

Binance foi alvo de maior ciberataque de sempre. Com quase seis mil milhões de euros em risco congela contas de 2,7 mil milhões de euros

O ataque à Binance gerou logo atrito na rede social X. Elon Musk respondeu a um tweet que brincava com a situação e foi repreendido por Changpeng “CZ” Zhao, fundador e ex-CEO da Binance. “Elon, tenho muito respeito por ti, mas não é uma boa altura para brincadeiras”, respondeu CZ. “Por favor, pára. As nossas ações da SPCX [SpaceX] (resultantes do nosso investimento de 500 milhões de dólares na tua aquisição do Twitter) valem mais de mil milhões”, pedindo “um pouco mais de apoio” a quem já foi parceiro de negócio.

O que aconteceu neste ataque?

Aquele que está a ser considerado como o maior ataque informático da indústria de criptomoedas ocorreu na quinta-feira à noite. Às 21h29 (hora de Lisboa), a Binance alertou os clientes de que estava “a investigar ativamente uma potencial questão de segurança”. “Os fundos dos utilizadores estão completamente seguros”, declarou na primeira publicação.

Na segunda informação ao público disse “estar a trabalhar sem parar para resolver a questão” e fez a primeira promessa: “a Binance vai cobrir todas as perdas”.

Como “precaução”, avançou com a suspensão temporária de “todos os depósitos e levantamentos” para que as equipas conseguissem fazer “verificações de segurança, congelamento de fundos e trabalhos com as forças de autoridade”. Foram congelados cerca de 3 mil milhões de dólares, o equivalente a 2,7 mil milhões de euros. A empresa explicou que conseguiu congelar este montante “graças aos parceiros da indústria”.

Os detalhes sobre a investigação preliminar só chegaram na sexta-feira. A investigação inicial sugeriu “que o incidente de segurança possa ter envolvido um portátil de um engenheiro de desenvolvimento de operações que foi comprometido”. A partir daí, conseguiram acesso à estrutura da empresa. Mas a Binance descobriu ainda “outros pontos de intrusão”.

A análise da TRM Labs, uma empresa norte-americana de investigações de IA e blockchain, traçou a fita do tempo do ataque. As primeiras movimentações começaram às 20h05, na hora de Lisboa. “Milhares de milhões de dólares em criptomoedas começaram a sair das carteiras pertencentes à Binance”, foi referido.

“Em poucos minutos, as carteiras da Binance no XRP Ledger, Ethereum, Bitcoin, Tron, Solana e outras quatro redes tinham enviado os seus saldos para endereços controlados por um único atacante.” A primeira ‘vaga’, como descreveu a análise, durou cerca de 20 minutos. “Uma segunda onda, por volta das 23h05 UTC [22h05 em Lisboa], atingiu as carteiras da Binance na Avalanche e na Polygon.”

“Tal como a nossa experiência demonstra, os colaboradores das plataformas de criptomoedas continuam a ser pontos fracos nos ataques que visam o roubo de criptomoedas, em particular os especialistas técnicos”, comenta Georgy Kucherin, investigador sénior de segurança da equipa de investigação e análise global (GReAT) da Kaspersky. “Mesmo engenheiros e programadores experientes podem ser vítimas de ciberataques e, em alguns casos, descarregar malware sem se aperceberem.”

Noutra atualização, Richard Teng, CEO da Binance, explicou que “a equipa de segurança ainda está embrenhada na investigação”, mas que foi possível perceber que havia bem mais do que o portátil comprometido. “A nossa análise subsequente descobriu mais pontos de intrusão. Foi um ataque complexo e quem atacou usou mecanismos de autodestruição, que destruíram os rastos — o que torna difícil para nós perceber o que aconteceu”, disse o CEO da Binance.

A Binance anunciou que está a colaborar com diversas autoridades, incluindo o FBI e o Serviço Secreto dos EUA. O FBI disse em comunicado estar “a colaborar com os parceiros públicos e privados relevantes para compreender o âmbito da atividade, avaliar os potenciais impactos e coordenar as medidas de investigação adequadas”.

Quem é o grupo TraderTraitor, com suposta ligação à Coreia do Norte?

A norte-americana TRM Labs atribuiu o ataque ao grupo de cibercrime TraderTraitor. “Fazemos esta avaliação com elevada confiança”, declarou a empresa, que está a colaborar com a Binance na investigação. No entanto, algumas empresas de cibersegurança, como a Check Point, frisam que “esta avaliação deve ser distinguida de uma atribuição oficial pelas autoridades”.

A TRM Labs descreveu o TraderTraitor como “a unidade de hacking de elite da Coreia do Norte” e explicou que este ataque tem “várias características” que “correspondem a ataques anteriores ligados à Coreia do Norte”.

Segundo estas informações, o grupo tem como alvo empresas de blockchain. Algumas das práticas conhecidas envolvem enviar “mensagens dirigidas a colaboradores, nomeadamente aos que desempenham funções de administração de sistemas ou desenvolvimento de software, em várias plataformas de comunicação, com o objetivo de obter acesso a estas empresas startup e de alta tecnologia”, diz a Malpedia.

Não é a primeira vez que o grupo é associado a um roubo de criptomoedas. Em 2025, o FBI atribuiu ao TraderTraitor a responsabilidade do ataque à plataforma Bybit, em que foram roubados 1,5 mil milhões de dólares. Até ao momento, a Coreia do Norte não teceu comentários sobre as acusações.

O que está a dizer a Binance aos clientes?

A plataforma de negociação de criptoativos tem feito atualizações regulares sobre o ataque, maioritariamente através do X. Há um ponto transversal nas publicações: a mensagem de que “os fundos dos utilizadores estão completamente seguros”.

Esta sexta-feira, revelou que “já começou a recuperar os ativos afetados e que continua a colaborar com as autoridades policiais, os emitentes, as empresas de análise de blockchain e os parceiros do setor para localizar, congelar e recuperar fundos adicionais”.

A empresa aconselhou os “utilizadores a manterem-se cautelosos em relação a esquemas” e a “não confiarem em ligações não oficiais, mensagens ou pedidos de informação sobre as contas”.

Changpeng Zhao, da Binance, com António Costa Silva, ministro da Economia.

▲ CZ, o fundador da Binance, cumprimenta António Costa Silva, então ministro da Economia, na Web Summit de 2022

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A empresa tem reservas para cobrir o montante roubado?

A Binance comprometeu-se a cobrir as perdas através de “fundos da empresa”. Em comunicado, revelou que “reservou mais de 6,34 mil milhões de dólares [5,68 mil milhões de euros] de fundos da empresa para cobrir este incidente”.

Explicou ainda que 5 mil milhões de dólares destes fundos “já se encontram precisamente nos ativos em tokens que foram afetados”. “Estamos a concluir a compra do restante valor ao comprar ativos tokenizados através de canais de mercado e canais OTC [over the counter, em que os ativos são negociados fora do mercado].”

A empresa admitiu que este passo “pode demorar algum tempo”. Fora dos valores estão os 3 mil milhões de dólares “congelados através dos parceiros da indústria”.

No X, o criador da Binance explicou que a empresa tem um fundo de reservas, o Secure Asset Fund for Users (SAFU), com cerca de mil milhões de dólares em bitcoin. Além disso, a empresa tem ainda cerca de mil milhões de dólares em ações da SpaceX.

Já houve outros ataques deste tipo?

Sim, alguns deles recentemente. Dados compilados pelos investigadores da TRM Labs referem que, só no ano passado, foram roubados 2,9 mil milhões de dólares em criptoativos, o equivalente a 2,6 mil milhões de euros, em 150 ataques diferentes.

Um levantamento da BBC compara os valores dos ataques na área dos criptoativos — de longe, este ataque à Binance é o maior. É mencionado o ataque em que foram retirados 1,5 mil milhões de dólares (1,34 mil milhões de euros) à plataforma Bybit, em fevereiro de 2025. O FBI atribuiu a responsabilidade do ataque também ao grupo TraderTraitor.

Também são mencionados os ataques à Ronin Network, em março de 2022, em que foram roubados 540 milhões de dólares (484 milhões de euros) ou à Poly Network, em agosto de 2021, em que foram roubados ativos no valor de 610 milhões de dólares (545 milhões de euros).

A confiança na indústria dos criptoativos pode ser abalada?

Após o ataque, houve variações nos valores das criptomoedas. “Mas uma pequena quebra, de 5%, valores muito reduzidos”, diz ao Observador Hugo Volz Oliveira, presidente do Instituto Nova Economia. “É um valor baixíssimo para as cripto, as ações das tecnológicas sobem e descem mais do que isso quase todos os dias”, nota.

“Felizmente a indústria está num estado de maturidade em que a confiança não saiu muito abalada” com este ataque, considera. “Vimos que o mercado absorveu estas notícias com muita tranquilidade”, até pela informação dada pela Binance aos clientes, realça. “Por causa dessa resposta é que o mercado também observou as notícias de forma tranquila, apesar de ser um valor muito grande.”

“Mas há um efeito mais preocupante”, afirma, “que diz respeito à tecnologia como um todo”. Refere-se à divulgação de vulnerabilidades ao longo dos últimos dias, “desde as da linguagem de programação PHP até ao Linux, que também teve pequenas vulnerabilidades”.

PHP. “Uma das mais graves vulnerabilidades” (com “potencial exposição relevante” em Portugal) deixou a internet à mercê de ataques

Em relação à alegada ligação da Coreia do Norte, nota que o Estado demonstra “andar atrás dos maiores players” de criptoativos, com “recursos muito sofisticados”.

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