Através da porta entreaberta do atelier, vemos Vanessa Barragão sentada numa cadeira baixa a olhar para a parede. Não está de castigo, antes pelo contrário – está a começar uma peça de tapeçaria com quatro metros de altura que irá voar para um escritório em Filadélfia.

À sua volta estão três toneladas de lã, de todas as cores e feitios, empilhadas em sacos transparentes para não ganharem traça. São desperdícios de duas fábricas têxteis nortenhas e a principal matéria-prima do seu ofício.

As criações da artista de 27 anos desdobram-se em tapeçarias para a parede e tapetes para o chão. © Vanessa Barragão

Vanessa tem 27 anos, nasceu em Albufeira e sempre teve queda para as artes, uma herança que recebeu do avô e do pai, ambos escultores. Ainda não tinha idade para usar agulhas quando as avós costureiras lhe ensinaram crochet e, com ele, começou a fazer roupas para as bonecas. Mudou-se para Lisboa para estudar design de moda, motivada pela ideia de ter uma marca, mas durante o mestrado percebeu que se identificava com algo mais artístico, que lhe saísse inteiramente das mãos e só dependesse de si própria. “No mundo da moda é difícil conseguir fazer coisas mais conceptuais, existem imensas marcas e imensa roupa, é difícil sobressair,” diz.

Ao experimentar a fiação artesanal da lã, descobriu a sua vocação: a tapeçaria. Estagiou e trabalhou na Fábrica de Tapetes Beiriz, na Póvoa de Varzim, e, já no Porto, começou a desenvolver as suas próprias criações, que vão de tapetes para o chão a telas para as paredes. As encomendas começaram a chegar, à boleia da página de Instagram, e Vanessa ainda se lembra da primeira peça que vendeu: custava 450€ e tornou-se amiga da cliente.

O planeta num tapete. © Vanessa Barragão

Esmirna é a técnica que mais utiliza e também “a mais trabalhosa”. As peças em crochet, que depois aplica na tela de juta para dar relevo e mais textura ao resultado final, são feitas ponto por ponto pelas avós que, com mais de 70 anos, tomam conta do recado.

“No fundo, foram elas que me ajudaram a descobrir o que realmente gosto, fazia todo o sentido trabalharem comigo.” Já o tufado manual, apenas usado nos tapetes para o chão, é confecionado na Fábrica Beiriz e depois finalizado pela artista.

O crochet é usado para dar mais relevo e textura às peças. © Vanessa Barragão

Antes de escolher as cores e o tipo de lã a usar, não há desenhos ou croquis – a criatividade chega no momento, diz Vanessa, e a inspiração vem de algo que a fascina e assusta ao mesmo tempo: o fundo do mar. “Cresci junto à praia, comecei a nadar muito cedo, e adoro o lado misterioso do oceano, especialmente os corais. Apesar de ter medo de mergulho, acho que é a beleza e o perigo que me dão inspiração.”

O seu trabalho faz ainda mais sentido hoje, numa altura em que a biodiversidade marinha está ameaçada: “Os corais são uma espécie em vias de extinção, por isso tento representá-los e mostrar o que se está a passar. O branco nas minhas peças representa sempre o que está morto.” Alertar para uma consciência ambiental e passar uma mensagem de mudança é o objetivo da artista, que não quer fazer da tapeçaria “só uma imagem bonita”. No futuro, a ideia é continuar a usar lã reciclada e explorar também outras espécies ameaçadas, como flores, plantas, árvores ou peixes.

Tapeçaria “Moon”. © Vanessa Barragão

Depois de uma primeira exposição em Sidney, em 2017, a arte de Vanessa Barragão já chegou aos quatro cantos do mundo, da China à Colômbia, de Los Angeles a Itália. Dão-lhe gozo
as peças de grande escala, e tem já várias no currículo. Na Domatex, uma feira na Alemanha, a artista fez uma instalação em formato 3D em que era possível entrar dentro da peça. Para o aeroporto de Heathrow, em Londres, fez um mapa-mundo em feltro e crochet com 12 metros quadrados e os vários ecossistemas retratados, exposto no verão do ano passado. A peça que irá para Filadélfia, e que a pôs numa cadeira a olhar para a parede, é só uma das muitas encomendas vindas dos Estados Unidos da América, seu principal cliente. Outra veio de Abu Dhabi e é uma tapeçaria com cinco metros para casa da família real.

Mapa-mundo feito para o aeroporto de Heathrow, em Londres, com 12 metros quadrados. © Joe Pepler/PinPep

No fim do ano, Vanessa deixou o Porto e regressou ao Algarve, para contar com mais mãos e um espaço maior para as suas criações de grande formato. Sentada numa cadeira, num escadote ou em cima de um andaime, garante que vai continuar a trabalhar artesanalmente a lã, “de uma forma que ainda ninguém faz”.

Artigo publicado originalmente na revista Observador Lifestyle nº6 – Especial 100% português (novembro de 2019).