É complicado encontrar as palavras certas quando os tempos insistem em deixar-nos sem elas. Neste que há-de ficar para a História como o ano que não aconteceu, sucedem-se as notícias das mortes, umas por Covid-19, outras que a Covid-19 não nos deixa chorar, atados, amarrados em casa, sem direito a um fato especial qualquer que nos imunizasse às despedidas. Na semana em que já tinham partido Rubem Fonseca, Luís Sepúlveda e Lee Konitz, decidiu agora seguir o Filipe Duarte, discreto como sempre, talvez preferindo sair assim de cena, entre as sombras tombadas de outros gigantes e a da grande nuvem de doença e medo que paira sobre o mundo.

Isto, claro, somos nós a tentar fazer sentido do que não tem sentido algum. É o irreprimível ímpeto humano de tentar encontrar uma razão que nos salve da agonia do absurdo.

Filipe parte aos 46 anos, no auge da carreira e da vida, levado daqui subitamente pela mesma causa que leva a maioria dos portugueses desde muito antes do coronavírus e que há-de continuar muito depois do coronavírus. Falhou-lhe o coração, aquele para onde Luís Bernardo Valença dispara no final de “Equador”, e não para a cabeça, porque, consciente ou inconscientemente, sabia que as razões que o tinha levado ao desastre não eram as da razão, mas do amor.

Morreu o ator Filipe Duarte

Era, muito possivelmente, o melhor ator português da sua geração. Outros aparecem mais, dão mais entrevistas, são mais sociáveis, estão porventura mais presentes na memória imediata do público. Filipe dava poucas entrevistas, selecionava criteriosamente os trabalhos, era discreto, tímido, muito exigente, comprometido, sério e a sério. Como muito poucos – pensamos em Nuno Lopes, Pepê Rapazote, talvez Albano Jerónimo – tinha as características de um verdadeiro leading man, daqueles que metade do público ama e a outra inveja: talento, carisma, beleza física. E até uma voz, a voz que, eventualmente, muitos não identificariam imediatamente, mas que foi, ao longo dos últimos 15 anos, uma das mais habituais nas locuções e dobragens em Portugal.

Pessoalmente, foi o ator que descobri enquanto espectador em “A Febre do Ouro Negro”, na RTP, em 2001, intenso, duro, misterioso, e aquele para quem pude escrever em 2007 e 2008, em “Equador”, quando se revelou o primeiro grande consenso entre equipa de argumentistas, produtores, estação televisiva e autor do livro original: tinha de ser ele o protagonista. Resistiu, resistia à época a fazer televisão, mas acabou por ceder e tornar-se precisamente na pedra angular daquilo que lhe prometêramos: que era possível subir a fasquia da ficção televisiva em Portugal.

“Era o melhor ator da sua geração.” Reações à morte de Filipe Duarte

Depois, foi o ator que continuámos a ver crescer na televisão, no cinema, em Portugal, em Espanha e, ultimamente, no Brasil.

Devemos guardar muitos dos trabalhos que fez – “O Milagre Segundo Salomé”, de Mário Barroso, “Coisa Ruim” e “Entre os Dedos”, de Tiago Guedes”, “Os Imortais”, de António-Pedro Vasconcelos, “A Costa dos Murmúrios”, de Margarida Cardoso, a novela “Belmonte” ou a série “Terapia”. Aqui, nesta razão sem razões de um coração perplexo com as notícias, lembrá-lo-emos sempre nestes três lugares: no “Equador”, último bastião de um país e de um romantismo condenados à morte; no contraste com a paisagem rural do genial travesti Ricardo, à procura de reencontrar o amor pela vida, n’ “A Outra Margem”, de Luís Filipe Rocha.

Alexandre Borges: “Foi Sousa Tavares que escolheu Filipe Duarte”

E em “Variações”, de João Maia, o último filme em que o vimos e que embora seja, muito justamente, de Sérgio Praia (que, ao fim de dois minutos já não é ele mesmo, é António Variações), é elevado a outro patamar nas duas longas cenas de diálogo com a personagem de Fernando Ataíde. Diálogo tão incrível que o segundo nem tem palavras. Extraordinária cena de amor, certamente mérito de toda a equipa, mas sublimada pelo talento puro de Filipe Duarte, que parecia nunca estar a representar – estava a ser.

Talvez por isso tivesse de selecionar tão criteriosamente os trabalhos com que se comprometia. Porque não ia a uma história fazer um papel; ia ser esse papel, ia ser essa verdade. Inteira. De cada vez.

Alexandre Borges é escritor e guionista