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Morreu o ator Filipe Duarte, com 46 anos, de acordo com o que avança a SIC, foi vítima de um enfarte do miocárdio. Nascido em Angola, participou em várias produções ao longo dos últimos anos. O filme "Variações", sobre a vida de António Variações, foi o último em que participou. Ainda no grande ecrã, fez parte dos elencos de "Cinzento e Negro" e de "A Vida Invisível". Fez também parte do elenco da telenovela brasileira "Amor de Mãe", que está a ser exibida na SIC, e participou na série "Equador", baseada no romance de Miguel Sousa Tavares. Conosco ao telefone está o argumentista Alexandre Borges. Boa tarde, Alexandre, obrigado por se juntar a nós. É uma perda, ainda para mais para além da idade, de um ator que se destacou precisamente por estas grandes produções, como por exemplo, "Equador".

Boa tarde, obrigado antes de mais. Sim, é uma perda enorme e confesso-lhe que ainda estou a tentar digerir a notícia. Não sendo amigo, não sendo uma pessoa especialmente próxima. Fui, por exemplo, um dos argumentistas do "Equador", de facto, e portanto custa perceber como é que uma pessoa que está no auge já não está aqui. Eu acho que o Filipe Duarte era, e digo tranquilamente, porque acho que o disse muitas vezes a amigos nos últimos anos, o melhor ator português da sua geração. Reunia um conjunto de características que faziam dele um raro leading man na ficção portuguesa ou com características excepcionais para isso, de qualidade pura artística, de carisma pessoal, de figura física e até de voz. A voz dele é também uma das vozes que os portugueses mais conhecem, mesmo que não a identifiquem, da locução em Portugal e da publicidade. No caso do "Equador" foi, se bem me recordo, um pedido pessoal do próprio Miguel Sousa Tavares, com que nós, autores da adaptação, não podíamos estar mais de acordo que fosse ele o protagonista, o Luís Bernardo Valença, esse governador português perdido em São Tomé. Mas é também o grande ator de cinema, como vimos em "Variações", como vimos no "Outra Margem" de Luís Filipe Rocha. É uma perda enorme.

Eu ia perguntar-lhe precisamente sobre o "Equador". Foi uma série que marcou talvez um patamar diferente na ficção nacional e que contou com essa grande contribuição do Filipe Duarte.

Exatamente. Na altura, recordo-me bem que a negociação até foi um pouco difícil justamente por isso. Talvez porque antes do "Equador" ainda estávamos num determinado patamar em termos de ficção televisiva em Portugal, que felizmente o "Equador" contribuiu para subir. E o Filipe, à época, embora já tivesse feito alguma televisão, a minha memória pessoal da primeira vez que o vi foi na "Febre do Ouro Negro", que foi em 2001, numa série da RTP, mas ele de facto já estava muito mais direcionado para o cinema. E todos nós queríamos muito ter um ator como ele à frente do projeto e não ser apenas mais uma cara que os portugueses estivessem habituados a ver sem nos ofendermos, que estivesse um pouco mais desgastada pela ficção televisiva. E não foi fácil convencê-lo justamente por isso, ou seja, o Filipe vinha muito do cinema e não tinha assim tanta vontade de fazer televisão. E conseguimos convencê-lo, e felizmente, acho que conseguimos bem, porque depois tivemos o contributo dele para ajudar a provar que a ficção portuguesa já era capaz de outros voos, mesmo na televisão. E sim, depois ao longo do que se passou a seguir da carreira do Filipe, ele foi capaz sempre de fazer muito bem esse equilíbrio suave. Ele entrou, por exemplo, na "Terapia", ou depois numa novela mais tarde chamada "Belmonte", mas continuou a acumular com sua carreira em cinema com enorme prestígio. Também o "Coisa Ruim", também a produção internacional em Espanha e de onde é, julgo, a mulher dele, também no Brasil. E é isso, eu acho que diria às pessoas que a última memória talvez mais vívida que tenhamos dele seja o "Variações", em que sem dúvida o Sérgio Praia é merecedor de todos os aplausos e consegue o milagre de ao fim de dois minutos nós já não estarmos a pensar que é o Sérgio Praia e é o António Variações e pronto. Mas eu diria que o Filipe arranca as duas melhores cenas do filme, curiosamente, as duas melhores cenas do ponto de vista dramatúrgico, de texto e de interpretação, são os dois momentos de contracena do Filipe com o Sérgio, em que ainda por cima, para quem viu o filme, se recordará que o Filipe desempenha um papel de alguém que é um heterossexual, mas que tem também uma paixão homossexual pelo Sérgio e que, particularmente na cena praticamente derradeira do filme, consegue arrebatar alguém que tem uma personagem que nem sequer está no nome do filme, que à partida é um biopic, alguém que estaria fora desse eixo central do filme, consegue arrancar a cena mais poderosa, uma cena de amor pura, praticamente sem palavras, no final do filme.

É uma ilustração da qualidade do ator Filipe Duarte. Obrigado, Alexandre Borges, argumentista que participou com o Filipe Duarte na série "Equador". Foi um dos argumentistas desta série. Filipe Duarte que morreu hoje aos 46 anos, vítima de enfarte do miocárdio.