O Presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou num tuíte publicado às 3h06 de Lisboa (22h06 de Washington D.C.) que vai assinar uma ordem executiva para suspender temporariamente a imigração. A medida surge no contexto da pandemia de Covid-19 e caso vá para a frente será a maior restrição à imigração aplicada pela administração de Donald Trump nos seus quase três anos e meio de poder.

“Tendo em conta os ataques do Inimigo Invisível, tal como a necessidade de proteger os empregos do nossos ENORMES Cidadãos Americanos, vou assinar uma Ordem Executiva para suspender temporariamente a imigração para os EUA”, escreveu, sem dar mais pormenores.

Não são conhecidos, para já, pormenores em torno da medida de Donald Trump, como a duração da medida e os critérios para esta ser fixada. Sobre esta questão, fontes da Casa Branca disseram ao The Washington Post que a medida não estará em vigor a longo-prazo — uma afirmação vaga já que há eleições presidenciais marcadas para 3 de novembro deste ano e, caso perca, Donald Trump termina a 20 de janeiro de 2021.

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Também não é sabido se a ordem executiva contemplará algumas exceções — sendo que o Politico, citando fonte do Departamento de Segurança Nacional dos EUA, refere que é possível que a ordem executiva não se aplique a imigrantes com visto temporário de trabalho, os chamados guest workers, dos quais dependem setores como o agrícola.

A ordem executiva está a ser preparada e, segundo o The Washington Post, que cita fontes da Casa Branca, pode vir a ser aprovada já nesta terça-feira.

No dia 13 de abril, foi publicada uma sondagem da Ipsos para o USA Today que indicava que 76% dos americanos eram a favor de uma suspensão temporária da imigração. Porém, a pergunta não referia uma suspensão que abrangesse todos os imigrantes, mas apenas imigrantes de quatro países de “alto risco”: China, Coreia do Sul, Irão e Itália.

De qualquer modo, a imigração para os EUA tem estado, na prática, interrompida no contexto desta pandemia. A 18 de março, o Departamento de Estado deu ordem às embaixadas norte-americanas para cancelar a maior parte das entrevistas para a atribuição de vistos de imigração — tendo sido aberta uma exceção, logo a 27 de março, para os vistos H-2A, que visam os trabalhadores agrícolas que trabalham de forma sazonal. Também os processos de requisição de asilo nos EUA foram suspensos.

A medida anunciada por Donald Trump esta madrugada destoa do otimismo que tem marcado a posição de Donald Trump relativamente à pandemia da Covid-19, depois de ter garantido várias vezes que o número de casos está a diminuir, levando-o a dizer que a situação está “sob controlo”. Tanto que Donald Trump tem feito pressão sobre os governadores para levantarem as ordens de confinamento, hesitando, porém, assumir ele próprio essa decisão. Na sexta-feira, o Presidente dos EUA exigiu via Twitter a “libertação” de três estados — Michigan, Minnesota e Virginia — cujos governadores são democratas. Já no Sul, há estados que já se preparam para levantar gradualmente — como é o caso da Carolina do Sul, da Georgia ou do Tennessee, todos eles governados por republicanos.

Republicanos elogiam medida e concentram-se no argumento economicista, ignoram saúde

Tal como um pouco pelo resto do mundo, a crise do novo coronavírus nos EUA surge em duas dimensões distintas. Primeiro, a sanitária, com praticamente 800 mil casos confirmados e 42.518 mortes em todo o país. Depois, a económica, com mais de 22 milhões de norte-americanos a terem entregue a declaração necessária para receberem o subsídio de desemprego.

Entre os republicanos que saudaram a medida que Donald Trump anunciou esta terça-feira de madrugada, os elogios centram-se na vertente económica e não na questão sanitária. Um deles é o senador republicano do Arkansas Tom Cotton, um dos maiores apoiantes de Donald Trump naquela câmara. “No último mês 22 milhões de americanos perderam os seus empregos por causa do Vírus da China”, escreveu Tom Cotton, repetindo uma expressão inicialmente por Donald Trump até ter falado ao telefone com Xi Jinping no final de março, mudando assim o tom. “Vamos ajudá-los a regressar ao trabalho antes de importarmos mais estrangeiros para competirem pelos seus empregos.”

Também o congressista republicano Mo Brooks, do Alabama, expressou o seu apoio. “Uau! Se há coisa que Donald Trump sabe fazer é colocar os americanos em primeiro lugar!”, escreveu no Twitter.

No Partido Republicano, já tinha havido pedidos por uma medida deste género. É o caso de Jeff Sessions, ex-procurador-geral nomeado por DonaldTrump, e que foi afastado do cargo após reprovações públicas do Presidente. A 18 de abril aquele republicano, que nas eleições de novembro procurará reconquistar o lugar no Senado pelo estado do Alabama, já tinha defendido uma medida deste tipo no programa de Tucker Carlson, na Fox News. “Não há dúvida que é do interesse dos EUA garantir que conseguimos, em primeiro lugar, dar emprego a cada americano desempregado”, escreveu.

Aos elogios republicanos juntaram-se de forma imediata as críticas de vários democratas. A senadora democrata da Califórnia Kamala Harris, que foi candidata às primárias do Partido Democrata, escreveu: “Trump falhou em não ter levado esta crise a sério desde o primeiro dia. O seu abandono das suas funções enquanto Presidente custou vidas. E, agora, ele está a politizar de forma desavergonhada esta pandemia para reforçar a sua agenda anti-imigrantes”.

Na Câmara dos Representantes, o congressista democrata do Texas Joaquin Castro, que preside ao Congressional Hispanic Caucus (que junta os 38 congressistas e senadores de ascendência hispânica e portuguesa), também foi crítico desta medida. “Isto é um gesto não só para tentar desviar a atenção do falhanço de Trump em impedir que o coronavírus se espalhasse e em salvar vidas, também é um gesto autoritário para lucrar com uma crise e promover uma agenda anti-imigrante. Temos de unir-nos para rejeitar esta divisão”, escreveu

Sondagem: maioria não confia no que Trump e Biden dizem sobre pandemia

A gestão de Donald Trump da crise do coronavírus mereceu a reprovação da maior parte dos inquiridos de uma sondagem da Hart Research Associates, publicada pela NBC e pelo Wall Street Journal a 19 de abril. Além de uma taxa de aprovação negativa (46% a favor e 51% contra), nesta sondagem ficou determinado que apenas 36% dos americanos confiam no que Donald Trump diz sobre a Covid-19, contra 56% que dizem não confiar as nas afirmações do Presidente sobre a pandemia.

São números negativos, mas não tão maus quanto os do adversário de Donald Trump nas presidenciais de novembro, Joe Biden. Quando questionados sobre a sua confiança nas afirmações do democrata quanto à Covid-19, 26% dos inquiridos responderam afirmativamente e 29% disseram que não confiavam nele. A maior fatia, de 42%, respondeu que não tem opinião.

Por contraste, 66% disseram que confiam no diretor do Instituto nacional de Alergias e Doenças Infecciosas (NIAID, na sigla original), Anthony Fauci; 66% dos inquiridos disseram confiar nos seus governadores; e 69% afirmaram que confiam no Centro de Controlo de Doenças (CDC).