Em 2012, quando o filósofo Aaron James publicou o livro Assholes: A Theory, era complicado vislumbrar uma cultura asshole no horizonte. O documentário que esta quarta-feira, 29 de abril, se estreia no canal Odisseia (“Cretinos, A Teoria”, 22h30), realizado por John Walker e com participações de Aaron James, John Cleese, Leslie Miley, Vladimir Luxuria ou Paul Purcell, é uma viagem pela teoria de James e, também, uma revisitação dos modelos de assholes que criou e de como eles se desenvolveram até ao nosso presente, com algum ênfase na política, nas redes sociais e na cultura empresarial.

Apesar de no título do documentário se traduzir assholes para cretinos, faz mais sentido falar de assholes, pelo impacto sonoro da palavra, numa maior abrangência que não é coberta pela tradução “cretino”. O original asshole inclui também os vários tipos de assholes que o professor de filosofia na Universidade da Califórnia, Aaron James, encontra e desenvolve no seu livro, bem como noutro, também referido na entrevista que fizemos ao telefone com o autor, lançado anos mais tarde e dedicado a Donald Trump (ainda antes de ser eleito presidente): Assholes: A Theory of Donald Trump.

Ridículo? Parvo? Não, o assunto é sério e o documentário faz uma boa atualização para o presente do best seller do New York Times. Explica como chegámos a este ponto e de como as novas gerações lidam com este tipo de cultura, por vezes aceitando-a como uma fórmula de sucesso. O documentário estreia esta quarta-feira, dia 29 de abril, às 22h30, no Odisseia.

[o trailer de “Cretinos, A Teoria”:]

Está satisfeito com o documentário?
Sim, gostei. Ficou acima das minhas expectativas, porque desenvolve alguns assuntos com os quais não lidei no livro. Achei isso útil.

Que tipo de assuntos?
A história do político italiano e de como isso cria uma ligação com o contexto norte-americano. E como aborda as questões de género, separando-as do resto, dando-lhes mais força.

Sei que explica isto no início do documentário, mas queria desenvolver melhor a questão consigo: como é que surgiu a ideia para o livro?
Tive a ideia para a definição do que é um asshole enquanto surfava, no sítio onde habitualmente faço surf, na Califórnia no Sul. Havia um tipo que estava a quebrar as regras de partilha de ondas. E quando as pessoas se queixavam, ele gritava com elas, ofensivamente. Daí achei que poderia existir um contexto filosófico, ele era um asshole, as outras pessoas não eram um asshole, e que devia tentar definir isso. Nessa altura, criei a definição que vem no livro, que partilhei durante algum tempo por divertimento, com amigos, enquanto bebia uns copos. Só mais tarde, quando estava no Center for Advanced Study in the Behavioral Sciences, na Universidade de Stanford, é que comecei a falar com pessoas de outras áreas e obtive novas perspetivas sobre o tópico de assholes e a sua definição. Foi a partir daí que decidir escrever um livro sobre isso.

Como passou de um livro para um conceito que tenta desmontar na universidade?
É útil para mostrar certas análises filosóficas, ou escolas, para os estudantes. Por exemplo, num primeiro dia, é possível explicar que a definição pode revelar a estrutura da linguagem corrente e ajudar a clarificar uma série de situações. A definição que formulei tem uma ligação com questões filosóficas mais profundas da natureza humana, da moral, de como lidar com pessoas difíceis na sociedade, e que tipos de sociedades criam cooperação ou não.

A capa de “Assholes, A Theory”, livro de Aaron James

Mas não existe só um tipo de asshole. Existem vários. Perceber isso foi importante para o desenvolvimento da definição que criou?
Originalmente, estava só a tentar definir o que senti por aquele surfista. Mas depois reparei que chamei asshole a outro surfista, e depois a outro colega, uma académico, que achei que era um asshole, e entre essas três pessoas, cheguei à definição: percebi aquilo que partilhavam. Mas depois há a questão de como aplicares a palavra, na vida pública, a uma variedade enorme de pessoas. Pareceu natural pensar que há várias formas das pessoas sentirem que têm direito a algo, e de que há diferentes de formas de o fazer: alguns são presunçosos, outros fantasiosos. Pareceu-me possível que ao olhar para os diferentes tipos, era possível classificá-los por diferentes tipos de acordo com a forma como reclamam os seus direitos.

Sente que surgiram novos tipos de assholes desde que escreveu o livro?
Sim! Poderia fazer uma nova versão aplicada à área de tecnologia. Desde que escrevi o livro… bolas, tornou-se tudo bem pior! Podia criar uma série de novas variações. Mas não estou interessado em manter registo de todo o tipo de assholes que existem [risos]. O meu livro é um trabalho conceptual.

Mas quando escreveu o livro, alguma vez lhe passou pela cabeça de que alguns dos países mais importantes do mundo iriam ser governados por assholes?
Não, nunca! O livro desenvolve este modelo lá para o filme, chamado “capitalismo do asshole” e diz que, na altura [2012, quando o livro foi publicado], os Estados Unidos não eram um sistema capitalista asshole, mas parecia que se estava a aproximar disso. Incluí isso como uma espécie de alerta, estamos a caminho disso, mas por favor, não vamos por aí. Contudo, entretanto… fomos. Fomos de cabeça para esse sistema. E a cultura asshole deixou de ser marginal para ser algo muito enraizado na nossa política. Nos Estados Unidos foi sempre parte da nossa política, mas agora é mais explicito, presente, e parte de um problema maior.

É um tipo de cultura mais presente do que nunca. Acha que as redes sociais contribuem para isso?
Há algumas modas que contribuem para isso. A moda do narcisismo, ou dos queixumes, do individualismo, o tribalismo. Contudo, as redes sociais criaram novas possibilidades para ser um asshole. Agora toda a gente tem uma plataforma onde pode dizer o que quiser ao mundo. Podem insultar pessoas sem se dirigirem expressamente a essa pessoa, mas a uma audiência, para terem likes, tweets e partilhas. Numa conversa tentamos comunicar com alguém, na tentativa de enviar uma mensagem. Agora, as pessoas não mandam mensagem para a pessoa a quem se dirigem, mas para uma audiência. Por isso, há uma série de possibilidades para posturas arrogâncias, envergonhar, excluir as pessoas da comunidade, sem haver qualquer esforço de incluir as pessoas, de as perceber, encontrar um acordo. O pior de tudo é que as redes sociais são montadas para acelerar este processo. Não querem construir um diálogo produtivo ou construtivo, porque isso não deixa as pessoas irritadas. O que funciona nas redes sociais são os discursos inflamatórios. Agora é mais fácil uma pessoa sentir algo como: olha para estes assholes, toda a gente é um asshole, o que estou a fazer é OK; não preciso de ser melhor, porque toda a gente é um asshole. Quando tens um presidente que percebeu o funcionamento deste ambiente, muito antes de toda a gente, ele soube capitalizar isso para criar oportunidades, atenção e poder, num momento inicial. Penso que nesta era, as redes sociais construíram a arquitetura para explicar porque é que fomos ainda mais longe nesta cultura asshole.

Aaron James e o realizador do documentário, John Walker

Foi por isso que escreveu um livro sobre Donald Trump e desenvolveu uma teoria asshole sobre ele?
Na altura que escrevi o livro, ele estava a afirmar-se nas primárias, ainda não tinha ganhado a nomeação republicana. Na altura não estava a pensar nas redes sociais, porque era algo novo. Só pensei que ele era um político perigoso, totalitário e demagogo. Foi como ele começou, como usou violência verbal contra os seus adversários. Pensei imediatamente sobre como ele é um autoritário, ele não se preocupa sobre os princípios do Partido Republicano, ele está a funcionar no registo totalmente diferente. Eu vejo-o mesmo como uma ameaça contra o sistema.

Dada a situação atual, como é que se vê, enquanto norte-americano, a ter um líder como Donald Trump?
Ele é perigoso, ele não percebe nem acredita em responsabilidade pública. Ele vive de ilusões e de vista curta. Eram garantido que as suas falhas iriam ser um problema quando chegasse uma grande crise. Mas ainda antes da pandemia, as grandes crises eram criações suas: ele começava uma luta com alguém, fosse com a China ou Coreia do Norte, ou Irão, ele criava uma luta do nada, e depois inventava uma resolução só por desistir. Isso resulta durante um bocado, e ele consegue gerir, mas a pandemia é uma crise real e é uma difícil para qualquer nação, qualquer líder, mesmo que seja competente e motivador. Mas esta está claramente além das suas capacidades. E já fez tantas coisas erradas… bem, logo a começar, ignorou, negou-a, primeiro com a China, depois fechou as fronteiras com a China, só para ganhar algum tempo, e depois não fez mais nada. Todos os seus conselheiros sabiam que era preciso fazer algo e, mesmo assim, ele prefere que seja o seu ego a tomar todas as decisões. E, agora, é o que se vê: os Estados Unidos são dos países mais afetados com esta crise.

Tem algum tipo favorito de asshole?
O meu tipo favorito é o género Kanye West. Ele é inofensivo, mas vive neste mundo de fantasia, que é a sua própria ilusão. É estranho, porque ele é inofensivo e é incrível como alguém vive naquele mundo que ele próprio criou.

E o pior?
O pior… bem, terá de ser aquele por ser um asshole traz consigo outras características ainda piores do que ser um asshole. Donald Trump é uma dessas pessoas. É um asshole com outras falhas morais que o tornam pior do que um asshole.