Goste-se ou não deles, é inegável que os filmes de ação de alta voltagem e ultra-violência em rajada mais estilizados e bem acabados do mercado, são os da série “John Wick”, com um elegante e ágil Keanu Reeves no papel do assassino profissional homónimo. Em “Tyler Rake: Operação de Resgate”, agora disponível na Netflix e realizado pelo ex-“duplo” Sam Hargrave, Chris Hemsworth (que também é produtor), tenta capitalizar no enorme sucesso daquela e emular Reeves, mas em mais trolha e brutalista, acrescentando uns pozinhos de “Missão: Impossível”. Para isso, foi buscar ao universo Marvel os seus compinchas Joe e Anthony Russo, que adaptaram aqui a sua novela gráfica “Ciudad”, co-assinada com Ande Parks e o desenhador Fernando León González, e transferiram a acção do Paraguai para Daca, no Bangladesh (o filme foi, no entanto, feito na Índia e na Tailândia).

[Veja o “trailer” de “Tyler Rake: Operação de Resgate”: ]

Hemsworth personifica Tyler Rake, um mercenário com uma tragédia familiar a pesar-lhe na vida, contratado, mais a sua equipa de especialistas, para libertar o filho de um poderoso traficante de droga que está preso e cujo tímido filho adolescente foi raptado pelo seu rival, que pede um resgate milionário. A premissa narrativa de “Tyler Rake: Operação de Resgate” está muito, muito longe de ser original, e o filme é uma tal coleção de lugares-comuns barbudos, com pregas e que rangem sonoramente, que arrumamos logo o argumento na categoria “aquilo em que pensaste agora já a mim me esqueceu há um bom pedaço”. Quanto ao estreante Sam Hargrave, é uma espécie de Tony Scott dos regionais do cinema de ação, e lá do fundo da tabela.

Tyler consegue libertar o rapaz, Ovi (Rudhraksh Jaiswal) sem dificuldade. Mas é traído e começa a ser perseguido por um capanga do pai do miúdo e pelos homens do raptor. Este, por mandar em Daca, dispõe a seu bel-prazer da polícia e das forças especiais de intervenção, cujos efetivos são massacrados em grande escala por Rake, ao morteiro, à granada, ao tiro, à facada, com golpes de artes marciais e veículos de quatro rodas, numa série de sequências que promovem “Tyler Rake: Operação de Resgate” de fita de ação a filme de guerra urbano. Miraculosamente, não se vê morrer nem um civil que seja, apesar das casas, ruas, ruelas, baldios e pontes da cidade estarem positivamente a formigar deles.

[Veja cenas da rodagem:]

Manda a convenção que haja um aparente vilão que se transforma em aliado, e um amigo salvador que afinal está com o inimigo; que Tyler, que perdeu o filho, e Ovi, a quem o pai não liga nenhuma, desenvolvam uma ligação pai-filho de substituição; e que o nosso herói tenha uma pontaria de campeão olímpico dobrado de atirador especial, enquanto que as dezenas e dezenas de soldados, polícias e malfeitores avulsos que disparam sobre ele estejam todos a precisar de óculos com urgência. A única cena original da fita dá-se quando Tyler e Ovi são atacados por aqueles a quem o mercenário chama “os Goonies do inferno”, as crianças e adolescentes que o raptor usa fria e cruelmente como carne para canhão (mesmo assim, só falta aparecer um cartaz onde se lê “Momento de denúncia indignada da exploração de menores pelos senhores do crime do Terceiro Mundo”).  

[Veja uma cena do filme:]

Chris Hemsworth é um simpático podão com qualidades de “bulldozer” equipado com uma blindagem de tanque e um motor de “stock car”, mas não tem a elegância dinâmica de Keanu Reeves nem a intensidade ginasticada de Tom Cruise, enquanto o realizador confunde coreografia de ação com frenesim em jato contínuo, e destreza visual com acrobacias de câmara à mão, acabando por nos fatigar em vez de manter empolgados. E se o plano final de “Tyler Rake: Operação de Resgate” o deixar intrigado, quaisquer dúvidas são dissipadas pela notícia de que vem aí uma parte 2. Parece que Tyler não só consegue fazer meditação transcendental debaixo de água, como também mergulho de profundidade com um balázio nos costados.

“Tyler Rake: Operação de Resgate” já está disponível na Netflix