Uma, duas, três, quatro. Depois de um regresso menos conseguido à competição da Juventus, que não foi além de um nulo frente ao AC Milan antes de perder nos penáltis a final da Taça de Itália com o Nápoles, a história na Serie A foi outra e com alguns capítulos extra acrescentados pelos adversários mais diretos: enquanto a Vecchia Signora ia somando triunfos (Bolonha, Lecce, Génova e Torino), os rivais mais diretos, Lazio e Inter, andavam de tropeção em tropeção quase a facilitar aquilo que nos outros anos acabou por ser fácil mas que na presente temporada era tudo menos facilidades. Daí que a derrota em San Siro frente ao AC Milan, permitindo uma reviravolta de 2-0 para 2-4 em 20 minutos, tenha sido mais uma mensagem para o futuro do que um aviso no presente.

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A Lazio quebrou. Após ter perdido no jogo de regresso em Bérgamo com a Atalanta, desperdiçando uma vantagem de dois golos nos 15 minutos inicias, ainda houve as vitórias sofridas com Fiorentina e Torino e mais três desaires consecutivos frente a AC Milan, Lecce e Sassuolo, na tarde deste sábado, em mais uma exibição fraca que teve o 2-1 dos visitantes por Caputo aos 90+1′ mas que podia ter ficado resolvido mais cedo. E o Inter quebrou. A seguir à vitória com a Sampdória e ao empate com o Sassuolo (consentido nos instantes finais), a equipa de Conte ganhou ao Parma e ao Brescia mas perdeu a seguir com o Bolonha, antes do empate em Verona. A Atalanta, essa, ficou melhor. E melhor. E melhor. Daí que, para a imprensa transalpina, este fosse quase o jogo do título.

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O conjunto de Bérgamo, uma das regiões mais fustigadas pela pandemia em Itália, já levava uma série de cinco vitórias consecutivas antes da paragem entre Serie A e Liga dos Campeões, incluindo dois triunfos que eliminaram o Valencia e uma goleada por 7-2 ao Lecce. Na retoma, mais seis vitórias tendo adversários como Lazio, Nápoles ou Udinese, os últimos três sem sofrer golos. A sete jornadas do final, a formação orientada por Gian Piero Gasperini era de longe o melhor ataque do Campeonato com 85 golos, mais 20 do que a Juventus, e começava a disfarçar mais o calcanhar de Aquiles que era a defesa. Daí que, no lançamento do jogo, Maurizio Sarri tenha recuperado uma frase do treinador espanhol Pep Guardiola que ficou célebre pela analogia que continha.

Estamos numa fase importante. Temos de ter a Atalanta muito em conta face aos números de grande nível que apresentaram durante toda a temporada, especialmente fora de casa. É um adversário muito duro, mas há muito tempo que já o é para toda a gente. A mais bela definição foi dada por Guardiola: é como ir ao dentista, podes sair de lá bem, mas vais sentir as dores”, referiu na antevisão.

Muitos elogios para Gasperini, treinador de 62 anos que nasceu em Grugliasco, em Turim, fez o trajeto de jogador na formação pela Juventus, esteve os dois primeiros anos de sénior nos bianconeri e já é visto como uma espécie de plano de reserva caso as coisas não corram bem a Maurizio Sarri na Vecchia Signora a breve e médio prazo. Para Gasperini e para Ronaldo, que chegava a este encontro com um impressionante registo de 21 golos nas últimas 17 jornadas da Serie A (só não marcou no triunfo ao Inter, onde fez uma assistência) que permitiram uma verdadeira aproximação a Immobile na lista dos melhores marcadores, naquele que seria também mais um feito histórico na carreira: poder ser o artilheiro da Serie A. No final, voltou a ficar mais próximo do ‘9’ da Lazio (29-28), com mais dois golos que prolongaram a atual série e colocaram a média no Campeonato esta temporada num golo certo (28 jogos, 28 golos). Ainda assim, não evitou o empate (2-2) com uma Atalanta que, como equipa, foi melhor.

E a primeira parte mostrou todas as dificuldades que a Atalanta conseguiria trazer. Ou melhor, analisando de outra forma, a Juventus poucas ou nenhumas dificuldades conseguiu causar à Atalanta – e por aí se percebe o que se passou nos 45 minutos iniciais, que terminou com a equipa de Bérgamo com mais remates (5-1), mais posse (58%), mais passes finalizados (320-253), maior eficácia de passe (92%-89%), mais cantos (2-1) e mais quilómetros percorridos (56.3-55.1). Ilicic, com um remate cruzado ao lado, deixou a primeira ameaça à baliza da equipa de Turim, que ficou em desvantagem pouco depois do quarto de hora com um golo de Duvan Zapata após assistência de Papu Gómez (16′). Dos bianconeri, poucos ou nenhuns sinais. Paulo Dybala e Bernardeschi tiveram algumas iniciativas individuais inconsequentes, Ronaldo andou perdido na frente sem bola e a própria pressão mais alta dos visitantes tirou capacidade de construção a Betancur e espaços a Rabiot.

Com Danilo, Matuidi e Dybala como novidades em relação ao onze que começou o jogo com o AC Milan, a equipa da Juventus não funcionou mas o intervalo acabou por fazer bem aos visitados, que mostraram outros argumentos para chegarem ao último terço da Atalanta no arranque da segunda parte e beneficiaram de uma grande penalidade por corte com o braço de Marten de Roon que Ronaldo não desperdiçou, fazendo empate logo aos 55′. Foi então que Gasperini começou a mexer, trocando o trio ofensivo por Pasalic, Muriel e Malinovskiy, que vieram dar outra velocidade ao ataque de equipa e outra capacidade para fazer a diferença no último terço, como aconteceu num remate cruzado do ucraniano que passou perto do poste de Szczesny (75′) apenas dois minutos antes de mais um grande momento de Ronaldo, a receber bem o passe longo de Cuadrado e a atirar forte para defesa de Gollini. Sarri transpirava como se estivesse numa sauna e parecia estar a adivinhar o que se seguiria, com mais uma grande jogada de Muriel na esquerda a ser concluída com um remate forte de Malinovskiy para o 2-1 (80′).

Esta época, a Juventus tinha apenas um empate no Allianz Stadium para o Campeonato com o Sassuolo. De resto, só vitórias. E na temporada passada registara 15 vitórias e quatro empates, sendo que dois foram nos últimos jogos quando o título já estava decidido. Era preciso recuar até 22 de abril de 2018 para se encontrar um encontro em que a Vecchia Signora tivesse sido surpreendida em casa mas voltou a aparecer aquela “estrelinha” para a equipa de Turim que a Atalanta e sobretudo Gasperini mereciam que continuasse apagada: na sequência de uma bola parada, Muriel cortou a bola com o braço na área e Ronaldo voltou a não falhar, fazendo o 2-2 final.