O movimento #FreeBritney foi criado por fãs que querem “libertar” Britney Spears e que acreditam que a cantora está a ser manipulada. Não é novo, ainda que volta e meia volte a ser notícia. Aos 38 anos, a princesa da pop é desde 2008 considerada aos olhos da lei mentalmente inapta para cuidar de si própria.

Até ao final de 2019, Britney esteve sob a tutela do pai, Jamie Spears, cargo atualmente ocupado por Jodi Montgomery, que gere a carreira da artista. A tutela, imposta após a cantora ter sofrido colapsos mentais que acabaram por ter uma grande cobertura mediática, retira a Britney Spears autonomia sobre as suas finanças e também sobre a sua vida pessoal.

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This is heartbreaking ????Swipe to slide 5 for the shady details on Britney’s conservatorship, which is usually reserved for individuals who are incapacitated. I know some people’s instincts might be to not take this seriously or laugh because the world has made a joke of her existence to a certain extent, but this is a woman who is denied access to her own children, finances, and any control over her own life. The law is corrupt and so are the middle-aged men who are ruining a thriving, successful woman’s life. Britney has a court hearing coming up on July 22nd. Check our stories for a swipe up of actionable items you can do to help #FreeBritney . Graphics: @trash.bandicooot • #britney #britneyspears #conservatorship #popstar #icon #legend #britneybitch #itsbritneybitch #help #helpingothers #shady #sketchy #court #courthearing #custody #custodybattle #guardianship #mom #momlife #mother #momsofinstagram #dietprada

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O tribunal estendeu a tutela até ao dia 22 de agosto, opção que tem gerado controvérsia entre os fãs da artista ao longo dos anos — alguns acreditam que Britney está a ser controlada e até manipulada, escreve o Business Insider, enquanto pessoas próximas da cantora argumentam junto dos media que o acordo visa ajudar a estrela da pop, que continua a estar envolvida em todas as decisões de negócios.

De acordo com o The New York Times, a tutela em causa é aplicável a pessoas que não conseguem tomar conta de si próprias, habitualmente usada para proteger os mais velhos ou pessoas mentalmente incapazes ou extremamente doentes. O acordo que envolve a cantora implica que Britney não possa tomar decisões sem a aprovação dos tutores e isso inclui escolhas tão simples como conduzir um carro ou comprar uma bebida numa loja da Starbucks. A artista tem uma fortuna avaliada em 59 milhões de dólares.

Na origem do movimento #FreeBritney, assente em várias teorias da conspiração, estará a campanha criada por um site de fãs como resposta à tutela decretada pelas autoridades, tal como escreve o The New York Times. Para a sua projeção também terá contado o podcast Britney’s Gram, criado por Tess Barker e Barbara Gray em novembro de 2017. O que começou por ser uma rubrica dedicada ao curioso — e por vezes insólito — conteúdo do Instagram da estrela da pop ganhou outras proporções e acabou por popularizar a hashtag #FreeBritney nas diferentes redes sociais. Num dos episódios, foi divulgada uma mensagem de voz de uma fonte anónima, alegadamente alguém anteriormente envolvido na tutela de Spears, afirmando que esta foi forçada a ir para o centro de saúde mental.

O movimento alcançou ainda um outro nível de projeção quando a mãe da cantora, que está divorciada do pai desde 2002 e que nunca esteve envolvida na tutela, começou a “gostar” de várias publicações, escritas sempre no sentido de “libertar” a artista.

Em maio de 2019, durante um concerto e enquanto interpretava a música “Party in the USA”, cuja letra faz referências a Britney Spears, Miley Cyrus grita, a certa altura, “free Britney“, tal como recorda a Rolling Stone num extenso artigo sobre o movimento em questão.

A 9 de julho deste ano, uma petição foi criada a pedir o fim da tutela, alegando que desde 2008 Britney participou em três digressões mundiais. A petição precisava de angariar 100 mil assinaturas até 8 de agosto para ter uma resposta da Casa Branca. Seis dias depois conta com 103.664.

Um artigo do Los Angeles Times sobre o assunto, publicado em setembro do ano passado, constata que o jornal não encontrou “provas independentes” de que Britney esteja a ser prejudicada pelo acordo. “A tutela não é uma prisão”, disse ainda Larry Rudolph, manager da cantora, ao The Washington Post, argumentado que o acordo ajuda Britney a tomar decisões de negócios.

A verdade é que a cantora tem permanecido muito ativa desde que a tutela foi instaurada e exemplo disso é a digressão “Piece of Me”, de 2018, que terá acumulado 54,6 milhões de dólares. Durante esse período, a cantora lançou ainda linhas de roupa e de perfumes, e fez parte do júri da edição norte-americana do programa “The X Factor”.

O colapso de Britney e a tutela do pai

2007 foi, para Britney Spears, o ano do colapso mental. A cantora rapou o cabelo, atacou um grupo de paparazzi usando um guarda-chuva, acabando por passar por mais do que uma clínica de reabilitação e até por perder a guarda dos filhos para o ex-marido, Kevin Federline. Nesse mesmo ano, Britney foi ainda ridicularizada pela sua performance na abertura dos MTV Music Video Awards, onde aparentou estar em baixo de forma.

Num artigo de 2008 da Rolling Stone lê-se que, da segunda vez que Britney deu entrada na ala psiquiátrica de um hospital, o pai tentou convencê-la a deixá-lo assumir o controlo da sua vida. Foi precisamente em 2008 que Jamie e o advogado Andrew Walter pediram a tutela legal da cantora, fazendo deles os responsáveis pela supervisão das finanças da artista e também da sua vida pessoal. “Hoje, Britney tem quase tantos direitos legais como quando estava no Mickey Mouse Club” — lê-se ainda no referido artigo, numa alusão ao programa infantil o qual participou quando em criança, à semelhança de outros nomes da sua geração como Christina Aguilera, Justin Timberlake e Ryan Gosling.

Ainda segundo a Rolling Stone, à data Britney era vigiada dia e noite por seguranças contratados pelo pai  — e pelos quais ela estaria a pagar — e havia rumores de que as chamadas telefónicas da artista eram monitorizadas e que ela não podia usar o seu próprio Mercedes.

No documentário “Britney: For the Record”, de novembro de 2008, a cantora faz um raro comentário sobre a tutela: “Não há entusiasmo, não há paixão. Mesmo quando vamos para a prisão, sabemos que há uma altura em que vamos ser libertados. Mas esta situação é interminável. É como se o Dia da Marmota fosse todos os dias”. O Dia da Marmota é celebrado a 2 de fevereiro em Punxsutawney, Pensilvânia, mas é também o tema do filme “O Feitiço do Tempo”, protagonizado por Bill Murray, cuja personagem acorda todos os dias no mesmo dia, neste caso, no Dia da Marmota. No mesmo documentário, a estrela da pop diz ainda: “Se não estivesse sob estas restrições, sentir-me-ia tão livre.”

Enquanto os advogados a favor da tutela argumentavam em tribunal que a cantora estava “gravemente incapacitada”, como se lê ainda no artigo de 2008 da Rolling Stone, Britney filmou dois vídeos, bem como o documentário para a MTV, e juntou-se a Madonna para dar um espetáculo para 50 mil pessoas. A jornalista que a entrevistou para esta peça — uma entrevista feita com vários obstáculos, com as perguntas a terem de ser submetidas previamente para aprovação — escreveu que a cantora parecia “altamente funcional”, contrariando assim as alegações dos advogados.

A tutela em questão, que arrancou em fevereiro de 2008, seria, supostamente, temporária. À data, os pais da cantora emitiram uma declaração descrevendo Britney enquanto “uma criança adulta a meio de uma crise de saúde mental”. A 28 de outubro desse ano, os advogados conseguiram que a tutela fosse permanente, podendo ficar efetiva até à morte de Jamie. Sob a tutela, Britney perdeu o direito de contratar o seu próprio advogado.

Em maio de 2020, a tutela foi alargada até ao final do verão, com a juíza Brenda Penny a emitir uma ordem autorizando a tutela temporária da cantora a cargo de Jodi Montgomery pelo menos até ao dia 22 de agosto. A extensão aconteceu depois de o tribunal decidir que uma audiência sobre o assunto não poderia acontecer devido à pandemia de Covid-19. O pai de Spears, que tinha a tutela da filha, deixou o cargo em setembro de 2019 alegando problemas de saúde. O tribunal aprovou o pedido e nomeou Montgomery, a gerente de carreira de longa data de Spears, como a nova tutora. Mas isto aconteceu também depois de Jamie ter sido acusado de agredir um dos filhos de Britney.

Ainda esta segunda-feira, 13 de julho, Lynne Spears, mãe da artista, apresentou um pedido no Tribunal do Condado de Los Angeles para receber um aviso especial sobre todos os assuntos relacionados com o fundo que Britney Spears criou em 2004 de maneira a proteger os seus ativos multimilionários e a garantir o futuro dos dois filhos, Sean e Jayden, de 14 e 13 anos, respetivamente. Lynne e Jamie estão separados há vários anos. Já em maio de 2019, Lynne tinha pedido para ser notificada sobre todos os assuntos relacionados com a tutela de Britney.

A mãe de Spears já antes comentou como tudo mudou alguns anos após a filha ter ascendido à fama mundial. “Vivemos a fase da lua de mel da fama durante cinco anos e foi maravilhoso. A notoriedade que ela alcançou e todos os prémios que ganhou. Ela construiu a minha linda casa. (…) A vida é mesmo boa e pensei: ‘Uau, saí-me mesmo bem’. (…) De repente, as coisas começaram a acontecer e a comunicação social enlouqueceu (…) e tudo ficou virado do avesso”, comentou em entrevista ao ET online.