Se recuássemos até aos tempos antes da pandemia, um jogo entre Juventus e Lazio seria muito provavelmente um sinónimo de decisão do título. Agora, nem por isso. Ou melhor, podia ser um passo importante para a formação de Turim, perante uma jornada com mais escorregadelas dos perseguidores diretos, mas nem por isso para a equipa de Roma, de deslize em deslize que só não deu uma queda ao comprido porque entretanto se criou um fosso pontual entre os quatro primeiros e o grupo de candidatos à quinta posição. No entanto, em abril, este era “o” jogo. E os responsáveis laziale não tinham gostado nada de ver nas notícias que Ronaldo treinara na Choupana.

Os cantos não foram uma questão lateral num jogo tão louco que Ronaldo nem marcou (a crónica do Sassuolo-Juventus)

“A Lazio sempre demonstrou vontade de recomeçar o Campeonato mas em segurança. O facto de se recomeçar já seria uma vitória mas quando Conte disse que se poderiam retomar os treinos a 3 de maio, todos disseram que recomeçavam a 4 de maio. Há a impressão de existir um pouco de favorecimento. Os jogadores que estão no estrangeiro terão a oportunidade de regressar e retomar os treinos, tal como os jogadores da Lazio, mas com uma diferença: os nossos ficaram em casa, enquanto que desde Portugal vi algumas imagens esplêndidas do Ronaldo a treinar num belo campo de futebol”, queixou-se Arturo Diaconale, diretor de comunicação, à Rádio Sei.

Nada como uma boa polémica inócua para ajudar a passar uma altura extremamente difícil para todos como foi o confinamento (e ainda hoje continua a ser, acrescente-se). Mas já se sabe, estas são as regras do jogo: os outsiders que cheiram a vitória têm mais tendência a entrar por estes caminhos quando se sentem prejudicados, assim como os favoritos que vão perdendo o faro pelos triunfos têm mais tendência para se verem nesses caminhos quando têm séries de jogos consecutivos sem vitórias. E foi isso que aconteceu com a Juventus antes da receção à Lazio, com notícias que davam conta de um alegado veto de Ronaldo à possibilidade de contratação de Mauricio Pochettino por considerar que o técnico não era um vencedor e ao descontentamento pelo rendimento da equipa.

“Agora o nosso único objetivo é vencer a Lazio e ganhar mais uma vez o scudetto. Não há antes e depois, é isso e apenas isso. Só pensaremos na Liga dos Campeões a seguir a 2 de agosto, quando acabar a Serie A, por forma a termos a mesma atitude em todos os jogos. Continuidade de Sarri? Isso são conversas de imprensa. Já cá estou há dez anos, estivemos no topo da classificação em nove. Ganhámos troféus com Allegri durante cinco anos mas sempre que empatávamos, e às vezes quando ganhávamos pior, havia sempre reuniões internas. Não há dúvidas que Sarri vai continuar como treinador. Ronaldo? Ele é uma pessoa sensível, polida, nunca deixa que o estatuto de Bola de Ouro mude nada. Fala normalmente com qualquer treinador ou diretor, como qualquer outro. Está mais do que certo que vai ficar cá. Dybala? Sim, estamos a discutir a renovação de contrato com os seus agentes porque é um jogador importante que pode dar muito no futuro”, destacou Fabio Paratici, diretor do clube.

Um, dois, três assuntos, zero margem para futuras polémicas. E se foi assim com o dirigente, também foi assim com o português em campo, frente à equipa contra quem a Juventus sofreu a primeira derrota em dezembro no dia em que o ABC continuava a destacar que o avançado estava arrependido de ter saída de Madrid porque teria ganho as Bolas de Ouro de 2018 e 2019, além de ficar mais perto da ganhar a Champions. Este ano de 2020 essa luta não existirá, depois da decisão da France Football em não atribuir o troféu, mas Ronaldo continua a jogar como se nada fosse aos 35 anos e a bater recordes atrás de recordes: além de ter bisado e dado a vitória frente à Lazio (2-1), que é sempre o mais importante, chegou aos 30 golos em 30 jogos, igualou Ciro Immobile na lista dos melhores marcadores da Serie A e tornou-se o primeiro jogador a superar os 50 golos em Inglaterra, Espanha e Itália, sendo ainda o mais rápido de sempre a alcançar a marca na principal prova do calendário transalpino. Mais: nos últimos 60 anos, apenas Luca Toni e Gonzalo Higuaín tinham conseguido marcar 30 ou mais golos na Serie A.

O encontro começou com as duas equipas mais abertas do que seria previsível no lançamento do jogo e com a Juventus a criar boas oportunidades a abrir, com um remate fraco de Douglas Costa, uma tentativa ao lado de Ronaldo e uma bola no poste de Alex Sandro, após insistência de De Ligt depois de um canto quando a defesa da Lazio já tinha desistido do lance (11′). Ainda houve pelo meio uma tentativa com perigo de Cataldi, que desviou num adversário e passou muito perto do poste da baliza de Szczesny, mas foi a Vecchia Signora a ter o controlo do jogo e outra produção ofensiva com as inclusões de Ramsey e Douglas Costa na equipa titular até aos últimos cinco minutos antes do intervalo, altura em que Immobile conseguiu roubar uma bola na primeira fase de construção contrária e acertou no poste e Bastos teve um desvio de cabeça também com muito perigo.

Tudo em aberto para os últimos 45 minutos de jogo, tudo fechado em menos dez e com Ronaldo a assumir todo o protagonismo do período que definiu o vencedor: o português fez o remate desviado com o braço por Anderson na área que permitiu o 1-0 de grande penalidade (51′) e, pouco depois, fez a zona de pressão com Dybala a Luiz Felipe quando o central era o último homem de campo da Lazio, o argentino conduziu a bola isolado e, na área, assistiu passou para o lado para o 2-0 (54′). Dois golos que não foram três por uma questão de centímetros, mais uma vez com Dybala a inventar espaço numa cabine telefónica na área, a cruzar em arco ao segundo poste mas o desvio de cabeça do capitão da Seleção que poderia valer o hat-trick a bater na trave da baliza de Strakosha. A fechar, e após um erro de Bonucci na área, a equipa de Roma ainda conseguiu reduzir de grande penalidade, com Immobile a chegar também ao 30.º golo na prova apesar dos conselhos a Szczesny antes da marcação de… Ronaldo.

O guarda-redes polaco ainda teve de fazer uma grande intervenção a um livre direto de Milinkovic-Savic mas a Juventus, com aquela dose do sofrimento à mistura, quebrou a série de três jogos sem ganhar (derrota com o AC Milan, empates com Atalanta e Sassuolo) e deu um passo gigante para o título, ficando com mais oito pontos do que o Inter, mais nove do que a Atalanta e mais 11 do que a Lazio a quatro jornadas do final da prova. Ou seja, na próxima jornada, caso vença e os adversários diretos tropecem, pode mesmo haver festa do título.