Dark Mode 111kWh poupados com o Asset 1
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Hoje é um bom dia para mudar os seus hábitos. Saiba mais

Logótipo da MEO Energia

Mbemba, um herói cada vez mais provável que acabou mais um dia a pensar pela própria cabeça (a crónica da final da Taça de Portugal) /premium

Esteve no Anderlecht, levou Newcastle de volta à Premier, deu a Taça ao FC Porto contra o Benfica no fim da época mais atípica de sempre (1-2). Mbemba, o herói que faz a carreira pela própria cabeça.

i

O central de 25 anos resolveu a partida com dois golos de cabeça já na segunda parte

AFP via Getty Images

O central de 25 anos resolveu a partida com dois golos de cabeça já na segunda parte

AFP via Getty Images

A mais longa, a mais estranha, a mais memorável. Em Portugal e para as equipas portuguesas, a temporada 2019/2020 terminava este sábado, no primeiro dia de agosto. Um primeiro dia de agosto que já costuma ter uma pré-época bem lançada, um primeiro dia de agosto que costuma antecipar a Supertaça Cândido de Oliveira e um primeiro dia de agosto que costuma ficar a parcas semanas do início da época seguinte. E um primeiro dia de agosto que em 2020, depois de uma interrupção inédita, de uma Liga que só acabou no final de julho e ainda durante uma pandemia mundial, recebia (finalmente) a final da Taça de Portugal.

Sem público e a muitos quilómetros do habitual Jamor, a decisão do segundo troféu mais importante do futebol português disputava-se em Coimbra, no estádio normalmente utilizado pela Académica, entre Benfica e FC Porto. E depois dos dois Clássicos do Campeonato, que os dragões venceram tanto na Luz como no Dragão e que foram pontos nevrálgicos para a conquista da Liga, ficava a ideia de que o levantar ou não do troféu não tinha para um lado a importância que acabava por ter para o outro.

Ficha de jogo

Mostrar Esconder

Benfica-FC Porto, 1-2

Final da Taça de Portugal

Estádio Cidade de Coimbra, em Coimbra

Árbitro: Artur Soares Dias (AF Porto)

Benfica: Vlachodimos, André Almeida, Rúben Dias, Jardel, Nuno Tavares, Weigl (Carlos Vinícius, 60′), Gabriel, Pizzi (Jota, 76′), Cervi (Rafa, 45′), Chiquinho (Taarabt, 60′), Seferovic (Dyego Sousa, 76′)

Suplentes não utilizados: Svilar, Tomás Tavares, Ferro, Florentino

Treinador: Nélson Veríssimo

FC Porto: Diogo Costa, Wilson Manafá, Mbemba, Pepe, Alex Telles, Danilo, Uribe (Loum, 88′), Corona (Sérgio Oliveira, 80′), Otávio (Diogo Leite, 72′), Luis Díaz, Marega

Suplentes não utilizados: Marchesín, Romário Baró, João Mário, Vítor Ferreira, Soares, Aboubakar

Treinador: Sérgio Conceição

Golos: Mbemba (47′ e 58′), Carlos Vinícius (gp, 84′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Luis Díaz (9′ e 38′), Rúben Dias (12′), a Jardel (44′), a Weigl (46′), a Carlos Vinícius (75′); cartão vermelho por acumulação a Luis Díaz (38′)

Para o Benfica, conquistar a Taça era encontrar uma atenuante para uma temporada bem abaixo do exigido, oferecer aos adeptos uma alegria depois de dois meses de retoma em que as críticas soaram sempre mais alto do que os elogios e ainda alcançar um boost de motivação e energia para uma nova época que já não está longe e que já terá a mão de Jorge Jesus. Mais do que isso, e para o Benfica, a verdadeira corrida para as eleições de outubro, onde Luís Filipe Vieira já terá o maior desafio desde que é presidente, poderiam começar no momento do apito final em Coimbra e dependendo do resultado. Perder, por outro lado, era cair de vez no fundo do poço — e procurar bater com os pés no chão para ganhar força para voltar para cima.

Para o FC Porto, conquistar a Taça era alcançar a dobradinha que falhou primeira temporada de Sérgio Conceição, oferecer ao treinador um troféu que nunca tinha vencido e que era uma espécie de malapata na respetiva carreira e tornar um ano muito estranho num ano em que os dragões foram campeões, ganharam o segundo maior troféu interno e Pinto da Costa foi novamente reeleito, mesmo depois das saídas estruturais de Felipe, Herrera e Brahimi. Mais do que isso, e para o FC Porto, este sábado podia funcionar como o primeiro dia de uma nova temporada em que o objetivo será renovar o título e abrir a porta a uma fase de conquistas e alegrias mais regulares. Perder, por outro lado, não esmorecia qualquer euforia e só lembrava a Conceição que, apesar de tudo, a época terminou sem grandes exibições e sem enorme qualidade de jogo.

“Final serve como Supertaça. Mas FC Porto é melhor do que o Benfica”. Pedro Henriques sobre a Taça, o projeto encarnado e Sérgio Conceição

Com o mesmo objetivo, portanto, Benfica e FC Porto tinham consequências e ondas de choque distintas. Ainda que o modus operandi na antecâmara da final tenha sido o mesmo: numa manobra surpreendente que já há algum tempo não se via nas competições profissionais, os onzes oficiais das duas equipas não foram revelados a uma hora do apito inicial, não foram revelados a 45 minutos do apito inicial, não foram revelados a meia-hora do apito inicial. Só quando já faltavam somente 25 minutos para Artur Soares Dias apitar pela primeira vez em Coimbra é que os dois clubes adiantaram quais seriam os 11 elementos de cada equipa a entrar de início no relvado. E se o Benfica não tinha grandes surpresas, o FC Porto acabava por surpreender pela ausência de mudanças.

Tanto Uribe como Luis Díaz saíram lesionados do jogo da última jornada da Liga, contra o Sp. Braga, e estiveram em dúvida até, lá está, faltarem 25 minutos para o apito inicial. Ambos os sul-americanos eram titulares no FC Porto, assim como o jovem guarda-redes Diogo Costa, e as principais ausências estavam no banco de suplentes: Zé Luís, que terá entrado em rota de conflito com Sérgio Conceição depois de uma exibição pouco conseguida com os minhotos, e Fábio Vieira, que também caiu em rendimento nas últimas partidas, não estavam sequer nos convocados. Do lado do Benfica, Nuno Tavares voltava ao onze, depois de André Almeida ter estado na esquerda da defesa contra o Sporting, Tomás Tavares perdia a titularidade e daí para a frente a equipa era a mesma que venceu os leões na Luz na semana passada.

A jogar com o habitual 4x3x3, com Corona e Díaz no apoio a Marega a partir das laterais e Otávio nas costas do maliano, depressa se percebeu que o FC Porto tinha entrado melhor na partida. O primeiro lance de perigo apareceu ainda dentro dos cinco minutos iniciais, com Vlachodimos a evitar o golo de Corona depois de o mexicano receber um passe de Marega já no interior da grande área (4′), e Otávio chegou atrasado a outra solicitação certeira do maliano a partir da esquerda (15′). Os dragões conseguiam desequilibrar tanto num corredor como no outro e o Benfica tinha dificuldades na saída da primeira fase de construção, esbarrando normalmente na pressão adversária e apostando frequentemente num futebol mais direto que raramente encontrava sucesso. Sem soluções, a imagem da apatia encarnada era Seferovic, que perdeu cinco vezes a bola nas sete em que foi chamado a intervir durante os 20 minutos iniciais e estava sempre muito isolado no último terço do meio-campo do FC Porto.

Numa primeira parte que se arrastou de forma morna praticamente até ao fim, as emoções ficaram todas guardadas para os últimos instantes. Luis Díaz entrou de forma pouco prudente numa disputa de bola com André Almeida e viu o segundo cartão amarelo, depois de ter visto o primeiro na sequência de uma falta sobre Chiquinho. Sérgio Conceição viu o primeiro amarelo depois dos protestos pela expulsão do colombiano e acabou por ver o segundo antes do intervalo, após contestar uma falta assinalada a Marega no interior do meio-campo defensivo do FC Porto. Na ida para o intervalo, pouco futebol se tinha visto nos últimos cinco minutos da primeira parte, os dragões já estavam reduzidos a 10 elementos e sem treinador no balneário e no banco de suplentes e o Benfica tinha 45 minutos para aproveitar a superioridade numérica. Entretanto, nas bancadas do Estádio Cidade de Coimbra, Pinto da Costa desceu da tribuna presidencial — ou em protesto ou para render Conceição no balneário.

[Carregue nas imagens para ver alguns dos melhores momentos do Benfica-FC Porto:]

No início da segunda parte, Nélson Veríssimo trocou uma das peças do ataque e lançou Rafa para o lugar onde tinha estado Cervi. Sérgio Conceição não mudava nada, mesmo reduzido a 10 unidades, e a principal dúvida sobre o FC Porto estava relacionada com o estado anímico dos jogadores da equipa técnica: os dragões saíram de campo muito exaltados, a protestar com as expulsões de Luis Díaz e do treinador, e seria necessário perceber se a ausência de discernimento que tinha ficado notória antes do intervalo tinha ficado ou não no balneário.

A resposta da equipa, em uníssono e de forma afirmativa, apareceu logo nos primeiros minutos. Alex Telles bateu um livre tombado na esquerda, Vlachodimos saiu mal da baliza e falhou a abordagem ao lance e Mbemba, já para lá do segundo poste, cabeceou em formato balão para inaugurar o marcador (47′). E só foi necessário esperar pouco mais de 10 minutos para ver o central aumentar a vantagem, num lance muito semelhante ao do primeiro golo: Alex Telles voltou a bater um livre ainda longe da baliza, desta feita na direita, e Mbemba apareceu nas costas da defesa encarnada a cabecear (58′). Dois golos do central congolês e dois lances em que as fragilidades do setor mais recuado do Benfica, principalmente nas bolas paradas, ficaram mais do que visíveis.

Veríssimo lançou Dyego Sousa, Jota e Taarabt, Conceição colocou em campo Diogo Leite e Sérgio Oliveira e já pouco mais se viu até ao apito final, à exceção de uma grande penalidade convertida por Carlos Vinícius (84′) — na sequência de uma falta de Leite sobre Rafa — que acabou por ser o único remate enquadrado que o Benfica fez à baliza do FC Porto durante toda a final da Taça de Portugal. Com a desvantagem reduzida a cerca de cinco minutos para o apito final e ainda com o tempo extra por disputar, a verdade é que os encarnados passaram naturalmente os últimos instantes no meio-campo adversário e Jota teve nos pés a melhor oportunidade para levar tudo para prolongamento, com um remate ao poste (90+1′).

Até este sábado, e pelo menos em Portugal, o percurso de Chancel Mbemba não era muito reconhecido. O central de 25 anos, que chegou a ver o ano de nascimento ser colocado em causa no início da carreira depois de uma investigação da CNN a alegadas fraudes da Federação Congolesa de Futebol, saltou para a Europa através da Bélgica e do Anderlecht. Foi campeão e ganhou a Supertaça no mesmo ano e mudou-se depois para Inglaterra, onde ajudou o Newcastle a conquistar o Championship e a regressar à Premier League apenas um ano depois da despromoção, tendo marcado precisamente no jogo em que os magpies asseguraram a subida. Este sábado, e com dois golos marcados ao principal rival na final da Taça de Portugal, a história de Mbemba muda. Com títulos conquistados em três países, já com o rótulo de central goleador, com cada vez mais espaço no onze inicial do FC Porto, Mbemba é agora um herói menos improvável. E na história da temporada mais longa, mais estranha e mais memorável do futebol português, o nome de Chancel Mbemba aparece em letras gordas.

Recomendamos

A página está a demorar muito tempo.