Já na reta final de julho, há mais de um mês, João Noronha Lopes apresentou oficialmente a candidatura à presidência do Benfica. Fê-lo com as costas salvaguardas por nomes de relevo de praticamente todos os setores da sociedade portuguesa, desde Ricardo Araújo Pereira a Jacinto Lucas Pires e António Pedro Vasconcelos, terminando nos campeões europeus Simões, Ângelo, Cruz e Mário João. Na altura, para além de defender a revisão dos estatutos do clube e a importância do regresso da relevância europeia, Noronha Lopes recordou principalmente que esta não era a primeira vez que procurava ser parte da solução encarnada.

“Há vinte anos, quando o Benfica corria um grande perigo, não fiquei de fora. Agora, quando acredito que temos de fazer muito melhor… Agora, quando sei que a minha ambição para o Benfica é a mesma que está inscrita no coração de cada benfiquista… Agora, mais uma vez, não podia ficar de fora. Por isso aqui estou, com vontade de começar uma nova dinâmica. Uma nova dinâmica que ponha o Benfica onde os benfiquistas o querem. Há vinte anos estive com Manuel Vilarinho. Fiz parte da transformação que nos devolveu a dignidade e manteve o Benfica nas mãos dos benfiquistas. Nas nossas mãos. Vilarinho foi o homem certo e soube sair no tempo certo. É muito importante – e às vezes muito difícil – saber quando sair!”, disse o antigo vice-presidente encarnado, sublinhando o “fim de ciclo” no Benfica devido à “desorientação, incoerência e incapacidade de aprender com os próprios erros” da atual direção liderada por Luís Filipe Vieira.

Benfica. Candidatura de Noronha Lopes tem apoio de Ricardo Araújo Pereira (e não só)

Passou mais de um mês. A temporada já terminou, o Benfica juntou o falhanço no Campeonato à derrota na final da Taça de Portugal e Jorge Jesus já prepara a próxima época, fazendo-se valer até agora de sete reforços – o mais recente, Darwin Núñez, foi confirmado esta quarta-feira e tornou-se a contratação mais cara da história do clube, com os encarnados a pagarem pouco menos de 25 milhões de euros ao Almería pelo avançado uruguaio. Era também esta quarta-feira, dia em que o Benfica disputava um jogo particular com o Sp. Braga no Estádio da Luz, que João Noronha Lopes inaugurava a sede de campanha. Na Rua Alexandre de Sá Pinto, na Ajuda, o principal opositor de Luís Filipe Vieira nas eleições marcadas para outubro dava mais um passo no próprio percurso.

E o local não foi escolhido ao acaso. Nascido precisamente na freguesia de Santa Maria de Belém, o antigo CEO da McDonald’s em Portugal elegeu um sítio familiar e próximo do local onde o clube foi fundado, na Farmácia Franco da Rua de Belém, para concentrar os esforços de campanha – tal como tinha feito no fim de julho com a apresentação oficial da candidatura, que decorreu no Centro Cultural de Belém. Cerca de 30 minutos antes da hora marcada para o início do evento, alguns adeptos do Benfica já se juntavam no pequeno largo em frente à porta da sede de campanha de Noronha Lopes. Até porque a equipa do candidato encarnado fez por isso: à entrada, estava uma rulote decorada a rigor e o título “A Rulote do Lopes”. Entre as cervejas, as águas e as bifanas no pão, aparecia o slogan “Um Benfica que voa mais alto”. Afinal, era dia de jogo.

O candidato encarnado com duas das figuras públicas que o apoiam e que marcaram presença no evento: Pedro Ribeiro, diretor da Rádio Comercial, e o humorista Ricardo Araújo Pereira

Conforme o relógio se aproximou das 19h, os convidados e apoiantes de João Noronha Lopes começaram a aproximar-se da parede onde seria projetado o encontro entre o Benfica e o Sp. Braga. Entre cadeiras, sofás e com algumas pessoas de pé, as movimentações dentro da sede de campanha – uma espécie de armazém decorado de forma particular e urbana – ficaram quase suspensas e os olhos prenderam-se nas imagens. O primeiro suster da respiração apareceu apenas sete minutos depois do apito inicial, quando Pizzi rematou à trave; mas existia outro pormenor que ia saltando à vista no evento organizado pelo candidato à liderança encarnada.

A grande maioria do staff da campanha de João Noronha Lopes – as pessoas a receber os convidados à porta, a realizar o check-in da comunicação social, a organizar a gestão das cadeiras e dos sofás – era composta por jovens e adolescentes. De forma subliminar, o opositor de Luís Filipe Vieira deixava claro que contava com a camada mais nova da massa adepta do Benfica para alicerçar o futuro do clube.

Por volta da meia hora de jogo, Paulinho abriu o marcador na Luz e gelou as conversas. Seguiram-se alguns instantes de comentários em tom baixo e alguns esgares de preocupação – mas se há coisa que esta pandemia e a obrigatoriedade da máscara vieram trazer foi a impossibilidade de ler lábios ou desabafos mais instintivos. Ainda antes do intervalo, algumas cabeças viraram-se para trás para ver Ricardo Araújo Pereira chegar mas na fila da frente da plateia, atentos ao jogo durante toda a primeira parte, tinham já estado Simões e António Pedro Vasconcelos, enquanto que os antigos dirigentes Henrique Chaves, Francisco Cunha Leal, José Andrade e Sousa e Rodolfo Lavrador estavam entre o grupo. Com o apito a soar e a atirar as equipas para o balneário, era tempo de assistir ao momento do final da tarde quase início de noite. Depois de um vídeo com a presença de várias figuras públicas, João Noronha Lopes surgiu de uma das laterais do espaço, foi apresentado como “o futuro presidente do Sport Lisboa e Benfica” e deu início à declaração que trazia preparada em várias folhas A4.

À entrada da sede de campanha de João Noronha Lopes, vários apoiantes iam conversando entre uma cerveja e uma bifana

“Vou ser breve porque há imperiais que vão ter de se beber rapidamente”, começou por dizer. “Sou benfiquista desde que me conheço. Sou como todos os outros. Vibro com as vitórias e não durmo quando perdemos. No Benfica, sinto-me em família, rodeado de gente como eu. Foi nas romarias pelo país e por essa Europa fora que percebi a grandeza do nosso clube. Um clube popular que se fez glorioso”, afirmou, recuperando em seguida a linha de pensamento que já tinha proferido na apresentação da candidatura e que leva a cronologia até ao início do milénio.

“Hoje tenho 54 anos e quatro filhos que, como não podia deixar de ser, são benfiquistas (…) Quando o Benfica precisava de mim para garantir que ficava nas mãos dos sócios em 2000 disse ‘presente’. E agora, meus amigos, estou de volta. E agora porque chegámos a um fim de ciclo. Porque quero ver o meu clube a voar mais alto. Alguns dirão que é impossível – e eu concordo. Assim é impossível. Não é possível sem um plano sério, sem visão de longo prazo, sem uma direção que seja uma equipa, com uma liderança incapaz de assumir os erros, quando nos falta mundo e se acha que o futebol de amanhã está reduzido à Segunda Circular. Não é possível quando se gere sem critério, a vender jogadores à primeira oportunidade e a gastar dinheiro que não sabemos se temos para salvar eleições”, continuou João Noronha Lopes, criticando as contratações dispendiosas feitas nas últimas semanas, explicando já mais tarde, aos jornalistas, que não percebe o porquê de estas não terem sido feitas no ano em que o Benfica poderia ter conquistado um histórico pentacampeonato nacional.

Mais do que Cavani ou Darwin, o maior reforço de todos era segurar Carlos Vinícius (a crónica do Benfica-Sp. Braga)

O candidato à presidência do Benfica – que garante que quer ser mesmo presidente e não CEO, um rótulo que lhe tem sido colado devido à carreira profissional – apontou depois quatro linhas fulcrais no projeto que tem para o clube: ambição e visão a longo prazo; organização e capacidade de gestão; assumir a liderança em Portugal e ambicionar a liderança na Europa; e mais “benfiquismo abnegado e militante”. “O Benfica tem de estar presente na elite europeia. Compreendo os patrocinadores, já lidei com a UEFA e assumirei pessoalmente esta responsabilidade. O que se passa a nível europeu vai determinar o futuro do Benfica. Pessoalmente, estarei nas reuniões, estarei a lidar com a UEFA. Não delego o futuro do Benfica em ninguém (…) Hoje preciso do Benfica para o servir e não para me servir dele”, atirou, para o maior aplauso de toda a intervenção.

“Chegámos ao fim de um ciclo, de um modelo de liderança. O que prometo? Ambição, credibilidade e transparência”, diz Noronha Lopes

“Se o Benfica me deu tudo isto, está na hora de voltar para retribuir. É por isso que vou a votos e é por isso que faço do Benfica uma missão de vida. Além do insucesso desportivo, os últimos anos têm sido particularmente difíceis para todos nós, ao vermos o nome do nosso clube desprestigiado por coisas que nada têm que ver com o campo de futebol. Comigo, o Benfica será um exemplo nos negócios e será um exemplo de transparência. Porque não basta ser líder. O Benfica tem de liderar também na ética e na credibilidade”, concluiu Noronha Lopes, adiantando depois que vai apresentar o programa eleitoral e a lista que o acompanha nos próximos dias.

Entre a apoteose do final do discurso de João Noronha Lopes, que acabou com o hino encarnado cantado em uníssono, e as declarações tanto do candidato como de apoiantes à comunicação social, a atenção à segunda parte do jogo dispersou. Carlos Vinícius empatou a partida pouco antes da hora de jogo e o golo do avançado foi celebrado sem grande euforia, algo próprio de um encontro particular. Já nos descontos, Vinícius bisou e deu a vitória aos encarnados mas os já poucos apoiantes que restavam na sede de campanha só assinalaram o final do encontro com palmas espaçadas. Quando bateram as 21h, já quase só restavam jornalistas e alguns elementos da organização que arrumavam sem grande pressa. O dia estava fechado, o Benfica ganhou e a corrida ainda só vai a meio.