Desde 2008 que o trânsito está proibido na ponte romana de Chaves. Na altura a decisão não foi pacífica, mas ninguém voltou a ver carros a atravessar os cerca de 140 metros que ligam as duas margens do Rio Tâmega. Agora, o presidente da autarquia, Nuno Vaz, cumpre a promessa eleitoral e leva a referendo o assunto que volta a dividir a cidade. ‘Concorda com a reabertura da ponte romana de Chaves ao trânsito de veículos automóveis ligeiros, num único sentido?’ é a pergunta que os flavienses vão ter que responder no próximo domingo e, numa espécie de batalha entre margens, o ‘sim’ é mais popular a sul e o ‘não’ tem mais apoiantes a norte.

João Pedro Vagaroso nasceu em Chaves e tem um restaurante colado ao Tâmega, junto à ponte construída no Séc.I e acredita que é “um absurdo haver trânsito na ponte porque é um ex-libris e se a cidade quer estar ao nível das melhores da Europa tem que ser cada vez mais pedonal”. Em plena pandemia, a ponte tem sido espaço privilegiado para passeios de turistas e flavienses e há “esplanadas em cima do tabuleiro que trouxeram uma vida enorme, houve grandes investimentos dos empresários e agora esses negócios vão ser altamente prejudicados”.

O argumento histórico também não é alheio a quem defende o ‘Não’ no referendo. “Estamos a falar de um património com dois mil anos e não tenho dúvidas de que se o ‘sim’ ganhar, a Direção Geral do Património Cultural não vai permitir que os carros voltem a atravessar a ponte”, acredita João Pedro Vagaroso.

O Cabeleireiro Novo Visual está aberto na margem sul do Tâmega há 21 anos e a proprietária, Paula Melo ainda se lembra dos anos em que os carros podiam passar na ponte. “O comércio aqui era muito mais desenvolvido, não há sequer comparação”, começa por dizer ao Observador para logo detalhar: “Antes de a ponte ter sido cortada ao trânsito haviam aqui quatro frutarias e agora só temos uma. Também havia um talho que fechou”.

Pode ouvir no Código Postal o debate entre o ‘Sim’ e o ‘Não’:

A ponte que divide Chaves

Mesmo quando o assunto é a possibilidade de a ponte com mais de 2.000 anos não resistir à passagem de trânsito automóvel, a cabeleireira não cede: “Não vamos poder andar em cima de património? ninguém disse que havia risco de vida, por isso não há problema nenhum de os carros voltarem a passar”.

De acordo com a Agência Lusa, no referendo do próximo domingo vão votar 43.233 eleitores e o objetivo é “permitir que os flavienses se pronunciem em definitivo, porque a decisão de impedir o trânsito de 2008 não foi tomada na sequência de nenhuma decisão popular nem na sequência de nenhuma aprovação de programa eleitoral”, explica o presidente da Câmara Municipal de Chaves, Nuno Vaz, à Rádio Observador.

Pode ouvir aqui a entrevista ao presidente da Câmara Municipal de Chaves:

“O melhor para Chaves é o que os cidadãos decidirem”. Autarca não se compromete no referendo à passagem de trânsito na ponte romana

“Não houve aqui nenhum compromisso no sentido de obter uma decisão, mas antes um compromisso com a democracia”, diz o autarca para não se comprometer com uma tomada de posição: “O melhor para Chaves é o que os cidadãos decidirem”.

Sobre a capacidade de a ponte estar preparada para voltar a receber trânsito, Nuno Vaz revela que a Direção Geral do Património Cultural “não se pronunciou, nem tinha que o fazer, a análise será feita em momento posterior”.