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A Rolls-Royce é reputada por conceber e construir modelos luxuosos como o Cullinan, o Phantom ou o Ghost. Mas essa é a Rolls-Royce Motor Cars. Há “outra” Rolls-Royce que não pertence à BMW e que se destaca não nas quatro rodas, mas sim na indústria aeronáutica. E essa Rolls pretende continuar na vanguarda contribuindo para mais um recorde. Em causa está estabelecer novo máximo de velocidade para um avião exclusivamente propulsionado por motores eléctricos.

Denominado Spirit of Innovation, o avião já concluiu as provas em terra, tendo toda a tecnologia sido testada numa réplica em grande escala do núcleo central do aparelho, a que a Rolls deu o nome de ionBird. Com uma potência de 373 kW (500 cv), todos os componentes do sistema foram submetidos às mais exigentes condições, inclusivamente a rotação da hélice até 2400 rpm – em comparação com um avião convencional, as pás da hélice giram a uma rotação por minuto muito mais baixa, para oferecer uma deslocação mais estável e muito mais silenciosa, segundo a Rolls-Royce.

A alimentar os três motores eléctricos axiais, fornecidos pela Yasa, está um pack de baterias da Electroflight com mais de 6000 células, cuja disposição foi estudada de modo a garantir a máxima segurança e a melhor protecção térmica, com o menor peso possível. A capacidade dos acumuladores não foi revelada, mas sabe-se que permitirá fazer um voo Londres-Paris (200 milhas), entre recargas. Realça a Rolls que nunca antes se colocou tamanha densidade de energia ao serviço de um avião, a ponto de se estimar que a capacidade armazenada seria capaz de suprir as necessidades energéticas de 250 habitações.

O enfoque vai para a eficiência, tal como acontece nos carros eléctricos. Daí que a Rolls fale numa potência com 90% de eficiência energética, quando um Fórmula 1, por exemplo, tem uma eficiência energética a rondar os 50%.

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“Este projeto garante-nos a liderança na electrificação do sector aeronáutico, que é uma parte importante de nossa estratégia de sustentabilidade”, sublinhou o director da Rolls-Royce Electrical, Rob Watson. Actualmente, a aviação é responsável por cerca de 5% do aquecimento global (ou 12% se considerarmos apenas os diferentes meios de transporte), pelo que este projecto foi apresentado como “mudança revolucionária”, não só por visar o recorde, mas sobretudo por incorporar “tecnologia que pode desempenhar um papel fundamental para permitir a transição para uma economia global de baixo carbono”.

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O actual recorde para um avião deste tipo está fixado nos 343 km/h e pertence ao Extra 330LE desde 2017. A meta da Rolls-Royce é ultrapassar a barreira dos 480 km/h e, assim, fixar novo recorde mundial de velocidade, elevando este avião eléctrico ao estatuto do mais rápido do mundo. Este é um dos objectivos do chamado projecto ACCEL, iniciativa que pretende acelerar a electrificação de voos e que conta com o financiamento do Governo britânico que, através do Instituto de Tecnologia Aeroespacial, em parceria com o departamento responsável pelos negócios, energia e estratégia industrial, em conjunto com o Innovate UK, assegura metade das verbas necessárias para fazer descolar o avião eléctrico mais rápido do mundo.

Tal está previsto acontecer no início do próximo ano, mas o primeiro voo ocorrerá antes do final de 2020, colocando no ar um trabalho que tem vindo a ser testado no solo desde Janeiro. Desde então, os engenheiros têm vindo a ajustar o ionBird, em busca da optimização do desempenho do aparelho.

A contar o tempo vai estar uma relojoaria britânica de luxo, a Bremont, cronometrista oficial da tentativa de bater o recorde. A marca inglesa participou no projecto da cabina, onde figurará um cronómetro Bremont e, para assinalar a parceria, lançou o Bremont ionBird, relógio que custa cerca de 5000€. Os pilotos de teste vão usá-lo na derradeira fase de desenvolvimento e na tentativa de alcançar o desejado recorde.