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"E o Vencedor É", na Rádio Observador e também no YouTube, nas redes sociais do Observador. Aqui estão José de França, Gonçalo Druete e Cevada, António Costa e eu, Ricardo Conceição. Hoje vamos falar sobre o acidente em Toledo, Espanha. Também voltamos aos carros elétricos, aquele apoio que o governo promete dar às famílias carenciadas e ao fim de uma era no Banco Central Europeu, com o anúncio da saída da senhora Christine Lagarde, que vai sair do Banco Central Europeu. Mas vamos começar pela sondagem do Expresso, que dá conta de que nem 10% dos simpatizantes do PSD acham que o país está melhor. Gonçalo Druete e Cevada, estes números surpreendem-te?

Devo dizer que sim. Surpreendem-me na parte qualitativa, mais do que nos números de intenção de voto, porque eles não são muito diferentes daqueles que as várias tracking polls da CNN foram dando, com diferenças de um ponto aqui, um ponto acolá e de ordem sobre quem é que está em primeiro, em segundo e em terceiro, mas sobretudo na parte qualitativa. Se olharmos para a parte qualitativa da sondagem do Expresso, percebemos que há áreas, nomeadamente a da imigração, onde eu acho que é talvez a única ou a mais evidente área da governação onde o governo pode dizer que de facto fez uma reforma ou fez alterações. Não estou aqui a discutir se foram boas ou más, mas onde fez de facto uma reforma, e o eleitorado do PSD acha que estamos pior do que estávamos nessa matéria. Portanto, de duas, uma: ou o eleitorado do PSD acha que a reforma não foi restritiva o suficiente do ponto de vista da abertura do país a mais imigrantes, esperava outro tipo de soluções nessa área, ou então não concorda de todo e achava que estávamos muito melhor com a política de imigração de António Costa. O que parece é que não há uma única área que se safe: no crime, na imigração, na saúde, na educação, no custo de vida, até nos impostos, onde este governo tem sido bastante prudente, apesar de tudo, tem reduzido várias vezes o IRS, por exemplo, mas não há uma área onde este governo tenha nota positiva. E eu acho que isto deveria soar os alarmes do PSD, porque se combinarmos esta sondagem do Expresso com dados também qualitativos e quantitativos das tracking polls da CNN, percebemos que o PSD é o partido com a menor fidelização de voto. Ou seja, nas tracking polls da CNN, enquanto que partidos como o Chega e o PS tinham renovações de voto na ordem dos 90 a 95%, ou seja, eleitores que votaram no Chega e no PS nas últimas eleições, cerca de 90% voltariam a fazê-lo, no caso do PSD são 60, o que significa que quase metade do eleitorado que votou em Luís Montenegro nas últimas eleições pode mudar o seu sentido de voto. E com esta parte qualitativa, isto deveria soar os alarmes no PSD. Estranhamente, e ouvindo o Hugo Soares na entrevista que deu ao Vítor Gonçalves na RTP, parece que está tudo bem. E eu confesso que fico estupefacto com esta reação.

Mas há uma longa tradição de estar tudo bem.

Sim. O problema é que estamos a falar-

As pessoas é que não sentem.

Exato.

Ricardo, desculpa, mas é que mesmo nessa altura em que o país está melhor, mas as pessoas é que não sentem, apesar de tudo, o PSD ganhou eleições e ficou em primeiro lugar. Neste momento, está a disputar o segundo lugar.

Ou o terceiro.

Ou o terceiro, pois. Desculpa.

Eu acho que quando nem se consegue convencer o próprio eleitorado, quando o próprio eleitorado acha que tudo está tão mal, é preciso fazer alguma coisa. O PSD, se quer continuar neste caminho, pode continuar a esperar números como este. Eu fiquei espantada, porque até na corrupção os números são altíssimos.

É impressionante.

Não sei se Luís Neves tem alguma coisa a ver com isto, com alguma perceção. Estou a atirar.

Não te esqueças do caso Spin Viva, que também cria uma perceção muito negativa.

Sim, mas a questão é que comparas com a última sondagem do Expresso deste âmbito. Estamos a falar de uma comparação entre a última e esta, e o Spin Viva já tinha acontecido. Portanto, eu aí concordo com o José de França.

Talvez Luís Neves, sim.

Mas depois, ao mesmo tempo, vemos que o resultado da esquerda à esquerda do PS tem, por junto, 7%. No fundo, apesar do PS estar em segundo lugar, só o Chega sobe. Eu acho que nós temos que pensar que o eleitorado do PSD está a fugir pra ali. Parece-me mais ou menos evidente que pouco terá ido pro Partido Socialista e está sobretudo a cair pro lado do Chega. Eu também acredito que este período particularmente difícil, com a guerra no Irão, com o aumento do custo de vida, tem sido percecionado pelos eleitores, mesmo que sejam os eleitores simpatizantes do PSD, como o governo não está a fazer nada pra nos ajudar. Acredito que não ter feito mais na questão dos combustíveis teve um grande impacto no eleitorado simpatizante do PSD.

Ou pelo menos a incapacidade de explicar o que fez e o que não pode fazer.

Sim, pode ser isso.

O fato é que continuamos a ver nas reportagens, todas as semanas, à segunda-feira, pelo menos nas televisões, todas as semanas temos o mesmo tipo de depoimento do mesmo automobilista que está a abastecer.

Quando sobe e quando desce.

Exatamente.

Quando desce também exclui exatamente isso.

A frase é quase sempre: "Eles aqui não fazem nada, eles lá fora conseguem."

Sim, é verdade. Isso é verdade. O trabalho de campo esteve a decorrer entre 16 e 25 de outubro, já depois da apresentação do Orçamento de Estado, e acho que a sondagem mostra que o Orçamento de Estado não serviu.

Ninguém quer saber.

Vale zero.

Sobretudo este porque tem pouco, não é?

Sim, é verdade. Também tens razão, também tem muito pouco.

Tem pouco do ponto de vista dramático.

Mas ao mesmo tempo-

Tem anúncios de novas medidas de apoio, até uma de IRS. A baixa propriamente dita, a redução é para agora para o mês que vem.

Mas nem o extra para os pensionistas teve efeito.

Teve efeito.

Deixa-me só concluir. Esta fotografia é tirada depois da primeira carga policial que ocorreu no Porto.

Sim.

E eu acho que isso tem impacto também.

Achas que tem influência?

Acho que estas manifestações têm tido influência.

António, desculpa, mas aí não te parece que quem deveria, à partida, subir mais ou capitalizar mais com isso seria o PS?

Ou a esquerda.

Ou a esquerda do PS.

Não está a capitalizar.

Pois.

Não está a capitalizar.

António, já lá vamos. Já ora perdemos aqui esta ponta. Mas a classe política está a saber ler bem a opinião pública em relação ao que se passa nestas manifestações? Está a partir do princípio que a maioria das pessoas apoia a causa, pode não apoiar o método, mas apoia a causa, quando se calhar é um bocadinho ao contrário, e a maioria das pessoas entende a causa, mas não se revê em nada no que está a acontecer em Lisboa e no Porto.

Eu acredito que as pessoas não se revejam no método, a maior parte das pessoas não se revejam no método, mas reveem-se na causa.

Mas são 70% de proprietários, não é?

Sim, mas os outros 30%, uma parte desses 30% estão a arriscar ao mercado.

António, eu acho que aquilo que tema mais fundo, e que se vem notando na tracking poll da CNN, de facto, esta ideia de que há dois partidos que vão disputar a prazo o poder. E é uma coisa nova. De facto, nós temos vivido coisas novas. Acabar com a bipolarização, o aparecimento do Chega com esta força, capitalizar até, nós percebemos no interior com votos do PCP, nas câmaras que passaram para o Chega. E eu acho que estamos, provavelmente todos, por falta de termo de comparação, a ter uma análise e um enquadramento com base no histórico, quando o histórico não está a servir pra nós percebermos o que se está a passar. E isto tem a ver precisamente com a reação às manifestações, porque se percebeu entre a primeira semana e a segunda, e entre a intervenção policial da última madrugada, portanto, a mais recente, e o fim de semana, o aparecimento de outro perfil de pessoas nas manifestações.

Sim, por causa da carga policial.

Por causa da intervenção.

Mas isso muito motivado pela carga policial.

Sim, mas lá está, está se a cruzar muita coisa aqui. Muita coisa. E eu devo dizer, também é muito claro pra mim que o Chega não está a saber lidar exatamente bem com isto.

Certo.

Está baralhado.

Sim. Não sabe onde é que está se a mover.

Não sabe onde está, porque por um lado quer apoiar a polícia, por outro lado, quer estar do lado de quem não tem casa e precisa de casa e está muito difícil. Ao contrário de outras situações, onde era óbvio de que lado é que, para aventura, obviamente, a perceber onde é que deveria estar nesta situação, nós vemos nestas intenções os votos diretos e depois distribuição de indecisos. Eu confesso, quando leio este tipo de sondagens, vejo sempre os votos diretos, por uma razão simples, porque eu acho que não faz muito sentido assumir como provável que os indecisos e os abstencionistas tenham o mesmo comportamento que têm aqueles que dizem que votam diretamente no partido A, B ou C. E podemos estar aqui a assistir ao aumento de abstencionistas e de indecisos, que não estão a ir para lado nenhum, porque o Chega está a aumentar um bocadinho, mas o PS também está ali à frente. Mas se cruzarmos as semanais da CNN com esta mais qualitativa, mais profunda, percebemos um padrão. E o padrão é que, de facto, eu não vou subestimar a capacidade política e até tática de Luís Montenegro. Tem-na tido ao longo destes anos, é uma evidência. Mas a verdade é que parece que não está a conseguir, pelo menos definir para o governo uma resposta de iniciativa política ao quadro que temos. Está a tentar ganhar tempo, sucessivamente tempo À espera que aconteça alguma coisa, algum sinal que lhe apareça, alguma luz que lhe apareça, que lhe permita definir um caminho. E eu acho que é este impasse em que nós estamos nesta altura, porque repara, vamos lá ver. Eu também acho que é injusto dizer, eu critiquei aqui muito, aliás, convosco também, Gonçalo Matias, até por aquele nome pomposo de reforma do Estado. Mas eu tenho que dizer que podemos discutir a validade e os riscos até, é outro programa sobre a reforma da lei do Tribunal de Contas, ou até não, e a contratação pública, na verdade, são dois diplomas que estão muito ligados, mas são mudanças muito relevantes no funcionamento do Estado e da relação do Estado com as empresas, com os particulares. O licenciamento na habitação, nas câmaras, que começou agora, em outubro, é muito impactante na relação do Estado com empresas e com particulares. A redução de impostos. Eu até acho o contrário, tendo em conta os níveis e as exigências orçamentais e de contexto. Eu até acho que o governo tem ido muito longe e foi na reforma de carreiras de função pública, logo no primeiro ano, isso foi muito evidente. E hoje isso já não existe para nenhuma carreira. Aliás, percebe-se, a PSP agora foi beneficiada com aumentos como nunca tinha sido em 10 anos ou em oito anos, e está nesta convulsão. Os professores, tivemos acho que foram 17 ou 18 carreiras especiais.

Exatamente.

A despesa em função pública, o número de funcionários públicos tem aumentado. A redução de impostos tem se feito. Os pensionistas, de facto, se há eleitorado que tem sido, vou utilizar isto com algum cuidado, mas comprado com o bónus todos os anos, para lá do aumento que já está na lei e que tem sido feito. Tudo isso se esgotou nestes números. Eu percebo que seja, de facto, difícil para Montenegro perceber para que lado se deve virar, mas às tantas vai esperar tanto tempo que se instala a mesma ideia na cabeça de que isto é para decidir entre o PS e o Chega, e esse é o risco para eles.

E a última aparição que tivemos foi em 1917.

Exato.

Vamos a notas?

Eu dou um nove a Lisboa em Pinho.

Olha, eu dei mais.

Gonçalo.

Eu dou um 16 aos passos que há entre o PSD e o Chega, que eu não tenho a certeza que esteja a ser absorvido pelo Chega, mas que está a ser abandonado pelo PSD. Portanto, há um espaço político que claramente quer mais e diferente, e não quer o que tem agora. E esse espaço merece ter voz. Portanto, um 16 a esse espaço a criar.

Essa maioria silenciosa?

Há um novo partido. Isto eu acho que é um novo partido.

Não.

E António, já conseguiste perceber bem como é que vai funcionar aquela coisa dos incentivos para a compra de carros elétricos?

Ainda não se sabe muito.

Tu que és diretor do jornal Eco.

Eco de economia. Vocês sabem que quando o jornal Eco surgiu, havia muito boa gente, e eu tive esse feedback nas primeiras semanas, nos primeiros meses, que era: "Você agora lançaste um jornal de ecologia?"

"Você ainda por cima é verde?"

Não, não é de ecologia, é de economia. Mas como diz um amigo que fez marcas durante muitos anos, qualquer coisa se pode transformar em qualquer coisa, desde que haja persistência e ou dinheiro. Ou as duas coisas.

Vamos lá.

Já percebi alguma coisa e tenho uma objeção de fundo muito forte a este assunto. Vamos ver. Primeiro é preciso perceber uma coisa que o governo não disse e que eu intuo pelo enquadramento em que estamos a discutir estes temas de apoio a famílias carenciadas. Há, no contexto europeu, um fundo chamado Fundo de Apoio ao Clima. Eu temo não estar a dizer exatamente rigoroso, mas é esta a ideia em que os países, Estados membros, vão buscar dinheiro para apoiar famílias carenciadas para investimento em climatização, em diversas áreas.

Trocar janelas, paredes.

Janelas, paredes.

Que nós precisamos como pão para a boca.

E há uma área, em particular, que tem a ver com mobilidade, ajudar à mobilidade de famílias carenciadas. O princípio é bondoso. Agora, vamos lá ver. Seria estranho que o governo agora desencantasse números redondos. Com os dados que são conhecidos hoje, estamos a falar de um apoio global de quase 300 milhões de euros. Números redondos. Carros até 15 mil euros, sem IVA, ainda não percebi muito bem onde é que fica o IVA, se nestas operações o IVA, as operações são isentadas de IVA, se não são. Mas o apoio é 80% de um carro até 15 mil euros, sem IVA. E depois há mais um apoio pra instalação de um carregador em casa, de mil euros, mais um apoio ao abate de um carro a combustão. Portanto, tudo junto, se forem utilizados os 20 mil carros, que no fundo, o universo que aqui está disponível são quase 300 milhões de euros. Seria estranho que o governo agora desencantasse do orçamento de Estado 300 milhões de euros pra isto.

É curiosamente o excedente.

Exato. Mas não faz sentido. Portanto, eu com a informação que tenho, não tenho a informação total que me permita dizer não é, mas diria que seria muito estranho, nesta discussão em cima do Parlamento, que o governo agora desencantasse 300 milhões de euros, sendo que as famílias carenciadas, nós sabemos, andamos aqui a discuti-lo, e as famílias infelizmente também, a discutir necessidades Bastante mais básicas por causa do custo de vida e do IVA nos bens essenciais e na eletricidade, e que agora o governo decidisse pegar em 300 milhões de euros e não usasse para uma descida temporária do IVA nos bens essenciais ou um cheque direto às famílias nesta fase e dissesse: "Não, nós agora vamos é dar um parque automóvel, que deve ser, e dizem que vai ser em elétricos." Agora, mesmo que os fundos sejam europeus, creio que o governo na segunda-feira vai tornar público mais detalhes sobre esta operação. Eu tenho uma objeção de fundo sobre isto, é porque as famílias carenciadas, infelizmente, têm outras necessidades. Mesmo nestas áreas, mesmo no clima em sentido amplo e na mobilidade em sentido particular. Portanto, eu acho isso absolutamente incompreensível. E eu acho mesmo que as famílias carenciadas olham com estranheza pra isto. Porque há uma pergunta que me assalta: mesmo que o IVA seja dedutível, quem é que paga os outros 20%? As famílias carenciadas?

Estamos a falar, em alguns casos, nos carros menos de 4 mil euros.

Sim, 3 mil, 3,5 mil euros.

É o que sobra pra pagar.

Pra pagar. Ora, uma família carenciada tem mesmo 3,5 mil euros pra pôr num carro? Essa é a prioridade?

E o que é uma família carenciada?

Os que têm acesso à taxa social de eletricidade e rendimentos anuais até 7,5, 8 mil euros. São mesmo famílias carenciadas. Não estamos a falar de classe média, nem classe média remediada. Estamos a falar de pessoas mesmo-

Cerca de 500 € por mês, cadê, não é isso?

Sim, por aí.

Isto é, aliás, um problema de execução prática, que é crer que as pessoas tenham algum dinheiro disponível para pagar os restantes 20%.

Não é possível. Eu, aliás, temo que a criatividade e engenharia portuguesa leve a grandes operações, porque eu já estou a imaginar, e também não sei uma pergunta: estes carros podem ser vendidos logo a seguir ou não? Porque uma família carenciada-

E emprestados.

E emprestados. Pode comprar a família carenciada. O incentivo está aí, e eu não criticaria uma família carenciada se usasse este. Seria o último, pelo contrário, a dizer: "Eu vou aproveitar este apoio, já que eu não posso ficar com o dinheiro. Vou comprar o carro, peço a alguém que me empreste, porque eu vou devolver já a seguir e passado um mês, ou no dia seguinte, ou na semana seguinte, vendo o carro, se calhar com uma desvalorização por já não ser novo, não ser recente, vamos admitir, pago o que me emprestaram, ainda ficam 10 mil € na conta."

Ainda consigo resolver alguma coisa.

Ora, como é que isto se resolveria, que era o princípio, e por isso é que isto é profundamente errado. Pra já, pululam apoios e o governo anuncia apoios, mais apoios, mais apoios, nestas áreas, nomeadamente. Se querem dar apoios às famílias carenciadas, e eu acho muito bem, nomeadamente para esta uma matéria que é a pobreza energética, deem o cheque pras pessoas gastarem naquilo.

Nas anelas.

No conforto térmico.

Nas anelas, no conforto térmico, na mobilidade. Olhe, vamos dar um apoio pra vocês comprarem passes pra toda a gente durante algum tempo.

Falei sobre isto ontem, não é?

Peço desculpa, não ouvi.

Não, não.

Não ouviste?

Não ouvi, estava a fazer notícias.

Nós estamos te falando.

Estava a fazer notícias.

Nós estamos te falando, em direto.

Que depois trago aqui. Não, não falo.

Em direto na rádio, em direto online, no YouTube. Estamos em podcast no YouTube, em outras plataformas.

Eu ainda não ouvi, mas vou ouvir.

Bem parecia.

Foi um bom programa, sim, senhor.

Queres dar alguma nota?

Eu dou um sete. Salvo a guardado que mesmo que venha o argumento bondoso de que o dinheiro não é do orçamento de Estado, é dos fundos e é preciso gastar, que se gaste bem, que se utilize bem, em benefício das famílias.

Queria ver se ainda tínhamos tempo pra falar da senhora Lagarde e o Gonçalo quer falar sobre o trágico acidente ferroviário.

Eu dou o tempo aqui ao Gonçalo.

Eu só pena de me repetir.

Pode ter consequências políticas.

Que hoje de manhã, no Contracorrente, falámos sobre isto hoje, mas eu acho que é importante, mesmo que me repita, dizer isto mais uma vez. O que nós estamos a assistir é a uma decadência muito acelerada da quarta maior economia da zona euro, e isto deveria preocupar toda a gente. Este acidente trágico tem um lado sinistro e macabro pela forma como politicamente está a ser gerido pelo governo, que ainda não estavam contabilizados os mortos e já estava a ser vazado um áudio do maquinista com o outro maquinista que estava no comboio que estava parado para se desculpar. E quando ouvimos as declarações do ministro dos Transportes de hoje, que diz: "Eu não me vou embora porque a minha responsabilidade é dar a cara", é, de facto, isto prova que este ambiente de trincheira e de polarização inibe os titulares políticos da culpa, porque a culpa nunca é nossa, é sempre do outro. E portanto, é evidente que um ministro que tem este quadro mental nunca vai assumir a culpa de absolutamente nada. E verdadeiramente, eu até acho importante que ele não se demita e que se mantenha no cargo, porque isso, de facto, seria dar um toque de normalidade institucional a um governo que há muito que a perdeu. E, portanto, acho que o que estamos a assistir é muito grave.

Então deixa a tua nota, se faz favor.

Deixa-me só dizer isto, porque isto também é importante. Acho que tem que ver com todo o desmantelamento técnico das grandes empresas públicas deste setor dos transportes em Espanha. Nós estamos a falar da empresa que mais fundos da União Europeia NextGen recebeu de toda a União Europeia, só a seguir à sua homóloga italiana, portanto, recebeu muito dinheiro E não fez qualquer tipo de manutenção. Portanto, são empresas que foram inundadas de amigos, de aparatos chiques, de políticos, de amantes, de prostitutas como meios de pagamento e os resultados estão à vista. E isto tem consequências políticas e acho que os espanhóis, quando forem votar daqui a um mês, as eleições são precisamente daqui a um mês, precisam de auditar este e outros acidentes que aconteceram nos últimos anos. Minha nota é um zero.

António, tu queres falar sobre o fim de uma era? Da senhora-

Sim, o fim de uma era.

Ou será o início de outra?

De outra era.

Isso será o início de outra. Veremos quem é que para lá vai.

Tu és um homem informado, se calhar já sabes quem é que a substitui, isso também tem interesse.

Vai sair do Banco Central Europeu.

Não sou assim tão bem informado, mas a diplomacia aponta muito fortemente para de Cos, que é o espanhol, e para o economista-chefe passar a ser alemão. A Alemanha queria a presidência, mas já tem a Ursula von der Leyen, por isso é difícil que assuma as duas. Enfim, é um fim de uma era por uma razão: é uma advogada do BCE. Não é o óbvio. Não era nada óbvio. Já tinha sido ministra das Finanças e presidente do FMI, apesar de tudo, mas sobretudo política. Conseguiu digerir algum do muito excesso que se fez. Draghi ficará para a história como o homem que salvou o euro, isso é inquestionável. "Whatever it takes", foi o que disse e fez, mas levou isto tão longe que criou também alguns problemas que estamos a viver hoje, nomeadamente na inflação. Não só cá, mas na Europa. Lagarde conseguiu, com diplomacia e política, digerir esta transformação do balanço do BCE, que era uma coisa gigantesca, mas cometeu um erro fatal e que penalizará para sempre a atuação do BCE, que demorou muito tempo a responder ao choque inflacionista que nós vivemos. E só quando a inflação chegou aos 8, 9% é que o BCE começou a subir os juros. Tentou, muito pressionada pelos governos europeus, a não subir os juros, porque obviamente, isso causava problemas económicos. Foi muito tarde, andou meses, aliás, como Mário Centeno, aqui a dizer-nos a mesma coisa, porque também se sentava naquele conselho a dizer que o impacto do choque inflacionista era transitório, e foi tão transitório que chegou aos 9%.

E agora está a pensar no Eliseu?

Não creio. E isto também não abona a favor do BCE, por muito bondosa que seja a decisão. Sai nesta altura, muito antes do fim do mandato, para antecipar as eleições francesas e o que se antecipa que pode ser o desastre do ponto de vista do equilíbrio político em França e de quem é que pode ganhar. E para garantir que a sucessão é decidida agora, neste contexto, entre a França e a Alemanha, entre o poder francês e alemão. E por muito que isto nos seja simpático ou empático, que é não esperar um desastre político com Le Pen ou Mélenchon. Enfim, entre o mau e o muito mau, não sei o que há de ser, mas isso não credibiliza o BCE. Por quê? Porque o que estão a dizer aos mercados é que vão fazer uma escolha à pressa, antecipadamente ao que é a vontade popular dos povos. E o BCE é uma instituição que emana dos tratados, que emana do sentido europeu e, portanto, estão aqui a arranjar uma solução que até pode ser muito confortável no curto prazo, mas que tem tudo para contribuir para este discurso de falta de confiança dos europeus nas instituições.

Deixa-me só dizer uma coisa, que é: eu concordo com o princípio do que tu estás a dizer, mas há uma particularidade que eu acho que faz toda a diferença. Os bancos centrais devem ter máxima independência do poder político e correndo o risco de qualquer que seja o próximo presidente francês, seja Le Pen, seja Mélenchon, tenham a tentação de tocar na política monetária do BCE, eu acho que isso seria muito mais grave do que fazer essa substituição agora.

Mas vocês não acham provável que Christine Lagarde se candidate à presidência francesa?

Eu acho que saiu uma notícia que ela ia para o World Economic Forum.

Não, ela vai para o World Economic Forum. É isso que está pré-anunciado. Aliás, a própria disse hoje uma coisa importante, é que quer ter liberdade para falar porque vê este mundo a ir por caminhos muito perigosos. Ora, se fosse candidata ao Eliseu, não teria liberdade nenhuma para falar, teria que pensar nos franceses e na resposta a dar à Le Pen. Não creio que seja essa a discussão.

Há alguma nota para a senhora Lagarde?

Eu dou-lhe um 12. Acho que depois recuperou. Reparem, agora a resposta à crise e à inflação é muito mais rápida. E o BCE atuou de forma muito mais rápida. Dou-lhe um 12, apesar de tudo.

E amanhã há mais "O Vencedor é..." nas manhãs 360 de fim de semana. O António Costa, que não ouviu o episódio de ontem, mas gostou tanto do episódio de hoje que vai voltar amanhã de manhã.

Amanhã de manhã.

Já não te lembravas, não é, António?

Lembrava.

Tu e o Nuno Vinha. Até amanhã.