O Atl. Madrid tinha ganho a Liga Europa numa final frente ao Fulham em 2010 quando Quique Flores era ainda o treinador mas o longo jejum de títulos nacionais começava a ser um tabu a necessitar de ser quebrado. E não era por falta de tentativas, tendo em conta os muitos treinadores que iam passando pelo clube. Em 2011, chegou (ou voltou) Diego Simeone. Aguerrido, a viver qualquer segundo como se fosse o último, a apelar ao orgulho próprio. Ninguém tinha dúvidas de que era o casamento perfeito em duas almas gémeas e os resultados mostraram isso mesmo, entre um Campeonato, uma Taça, uma Supertaça, duas Ligas Europa, duas Supertaças Europeias e ainda duas finais da Liga dos Campeões, neste caso perdidas frente ao Real Madrid. Depois, finito.

Mudou o ano, virou o disco mas o Atl. Madrid continua a tocar o mesmo: que é sempre pouco e não chega para ganhar

Simeone teve o condão de criar um monstro que, mesmo não sendo do tamanho do rival da capital e do Barcelona, podia assustar em Espanha e na Europa. No entanto, e como se viu na época passada, também corre o risco de ser atropelado por esse “monstro”. E porquê? Porque os adeptos habituaram-se a mais, querem mais, exigem mais – e o mais não apareceu com a mesma cadência, o que deixou a equipa longe dos dois primeiros lugares na Liga, nos quartos da Champions e à procura de melhores dias. No verão, chegou Luis Suárez. Mesmo com a saída de Thomas Partey (pela cláusula de rescisão de 50 milhões para o Arsenal) e a chegada de Torreira, parecia que haveria mais Atl. Madrid, como houve numa primeira jornada que acabou em goleada frente ao Granada (6-1).

Dois golos, uma assistência: a estreia impressionante de Suárez numa goleada do Atlético em que João Félix também marcou

A seguir, o eclipse. Empate sem golos com o Huesca fora, empate sem golos com o Villarreal em casa, tudo menos empate em relação às dúvidas sobre a capacidade de haver um terceiro candidato ao título em Espanha. E esse era o grande desafio para Simeone ao longo de duas semanas, mesmo privado de mais de metade do plantel que estava ao serviço da respetiva seleção: como recuperar o golo e as vitórias? Parte da resposta era “portuguesa”.

João Félix assumiu o papel que todos querem mas um ex-portista roubou-lhe o protagonismo que tanto merecia

“É um jogador importantíssimo para nós, temos a certeza que nos vai dar coisas importantes quando estiver na sua melhor forma. Vi os encontros que disputou pela seleção portuguesa e gostei do seu trabalho. O talento que tem pode aparecer a qualquer momento mas vi que por Portugal demonstrou compromisso, intenção, vontade de corresponder ao que a equipa precisava. Isso é muito positivo, mostra bem como ele é, e precisamos que o faça também connosco. Se o posso colocar nas quatro posições do ataque? Sim, posso. Tendo também avançados como Diego Costa ou Luis Suárez tem mais possibilidades de receber passes mais acima do que ter de defender com outra estrutura”, comentou o técnico argentino, no lançamento do encontro frente ao Celta em Vigo.

A opção acabou por recair em Diego Costa e Luis Suárez na frente com Lemar na esquerda, Correa à direita e João Félix a começar no banco, talvez pensando também na estreia dos colchoneros na Liga dos Campeões em Munique com o campeão europeu Bayern. E as coisas até começaram da melhor forma para o conjunto de Diego Simeone: grande jogada coletiva pela esquerda, assistência de Manú Sánchez e remate de primeira do uruguaio, a fazer o terceiro golo em quatro encontros pela nova equipa (6′), chegando também ao jogo 150 na Liga – sendo o mais rápido a consegui-lo este século, apenas superado por Cristiano Ronaldo. O Celta teve depois uma reação forte, Oblak foi mantendo a vantagem com a ajuda dos postes após remate de Carreira (25′), Santi Mina teve por mais do que uma vez o empate nos pés mas o intervalo chegou mesmo com o 1-0, entre muitos protestos dos jogadores da casa a pedir um segundo cartão amarelo a Diego Costa, após uma entrada mais dura ao cair do pano.

Logo a abrir o segundo tempo, e num lance onde pareceu ter esticado em demasia a perna, Diego Costa lesionou-se e acabou por dar lugar a João Félix, que mais tarde (66′) deixou de jogar com Luis Suárez e passou a contar com Yannick Carrasco mais perto na frente de ataque. Lemar, a mais de meia hora do final, teve o último lance de algum perigo junto da baliza de Ivan Villár antes de Simeone ligar o botão resultadista e baixar mais as linhas para retirar espaços ao Celta, na tentativa de segurar a vantagem mínima e regressar às vitórias. E o destaque, mais uma vez, passou a ser Oblak, um dos melhores guarda-redes do mundo que esta semana se tornou o mais valioso do plantel para a Transfermarkt à frente de João Félix. No entanto, a história não estava ainda toda escrita: o português arrancou uma jogada de PlayStation a começar na linha com um passe em colher para Llorente, recebeu de calcanhar, rematou de pé esquerdo em jeito à trave e Yannick Carrasco fez o 2-0 final (90+5′).